{"id":18674,"date":"2023-09-29T12:14:04","date_gmt":"2023-09-29T10:14:04","guid":{"rendered":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/article\/uma-mulher-forte\/"},"modified":"2024-07-26T14:58:37","modified_gmt":"2024-07-26T12:58:37","slug":"uma-mulher-forte","status":"publish","type":"article","link":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/article\/uma-mulher-forte\/","title":{"rendered":"Uma &#8220;mulher forte"},"content":{"rendered":"\n<p>Numa reviravolta inesperada na ordem sexo\/g\u00e9nero, e na pol\u00edtica partid\u00e1ria na Europa, uma mulher l\u00edder da extrema-direita quebrou o teto de vidro da pol\u00edtica em Fran\u00e7a. Marine Le Pen, presidente do partido de extrema-direita franc\u00eas&nbsp;<em>Rassemblement National<\/em>&nbsp; (anteriormente&nbsp;<em>Front National<\/em>) de 2011 a 2022, desafiou todas as expectativas de v\u00e1rias formas. Ela trouxe o seu partido pol\u00edtico para o mainstream, \u00e9 a primeira mulher a liderar consistentemente um grande partido pol\u00edtico em Fran\u00e7a desde 2011 e \u00e9 a \u00fanica mulher na hist\u00f3ria francesa a chegar \u00e0 segunda volta das elei\u00e7\u00f5es presidenciais em 2017 e 2022. Uma mulher alta, que gosta de posar com os bra\u00e7os bem abertos e cuja voz grave faz barulho na televis\u00e3o e nos com\u00edcios pol\u00edticos, representa n\u00e3o s\u00f3 a normaliza\u00e7\u00e3o da extrema-direita em Fran\u00e7a, e na Europa em geral, mas tamb\u00e9m a normaliza\u00e7\u00e3o de uma mulher l\u00edder pol\u00edtica que \u00e9 admirada entre os apoiantes como uma mulher forte com caracter\u00edsticas masculinas.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-1\">1<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, por mais que ela seja vista como representante de uma mulher moderna com um estilo masculino de fazer pol\u00edtica, ser\u00e1 que Marine Le Pen pode ser vista como uma l\u00edder &#8220;homem forte&#8221;? Para responder a esta pergunta, temos de come\u00e7ar por compreender quais s\u00e3o as qualidades essenciais da lideran\u00e7a pol\u00edtica de um homem forte. Atrav\u00e9s de uma breve compara\u00e7\u00e3o com o estilo pol\u00edtico de figuras como o russo Vladimir Putin e o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, e mobilizando teorias de masculinidade e feminilidade hegem\u00f3nicas para analisar a lideran\u00e7a de Le Pen, podemos ver como Marine Le Pen difere destes l\u00edderes de forma significativa. As suas express\u00f5es de feminilidade hegem\u00f3nica partem deles, assim como algumas &#8211; mas n\u00e3o todas &#8211; das caracter\u00edsticas que ela desempenha associadas \u00e0 masculinidade hegem\u00f3nica.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-2\">2<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Uma compara\u00e7\u00e3o com o candidato rival de extrema-direita \u00e0s presidenciais de 2022, Eric Zemmour, mostra que ele representa uma vers\u00e3o regressiva e claramente patriarcal da masculinidade hegem\u00f3nica. Isto n\u00e3o se revelou popular entre o p\u00fablico franc\u00eas. A representa\u00e7\u00e3o de Marine Le Pen da masculinidade hegem\u00f3nica e da feminilidade hegem\u00f3nica revelou-se mais apelativa para os eleitores do s\u00e9culo XXI. J\u00e1 n\u00e3o se centrando na masculinidade militar como ideal, mesmo um forte l\u00edder de extrema-direita na Europa n\u00e3o precisa de construir autoridade e legitimidade em torno de uma associa\u00e7\u00e3o com o militarismo. Em vez disso, Le Pen afirmou-se como forte ao conjugar um discurso maternal de prote\u00e7\u00e3o nacional com um punho forte na pol\u00edcia dom\u00e9stica e no poder fronteiri\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Concluo que Le Pen n\u00e3o representa uma pol\u00edtica t\u00edpica de &#8220;homem forte&#8221;. Como l\u00edder feminina da extrema-direita, tem sido um motor de inova\u00e7\u00e3o ao posicionar-se como uma l\u00edder partid\u00e1ria forte e consistente, ao quebrar v\u00e1rios tectos de vidro e ao servir de modelo de lideran\u00e7a feminina bem sucedida para outros l\u00edderes da extrema-direita na Europa, como a italiana Giorgia Meloni. Ao mesmo tempo, por muito que domine o seu partido com disciplina e um culto da personalidade, est\u00e1 limitada pela necessidade de mostrar um lado &#8220;feminino&#8221; suave para apelar aos eleitores e normalizar a extrema-direita; e tamb\u00e9m pela pragm\u00e1tica de um partido que anseia por se tornar um partido pol\u00edtico &#8220;normal&#8221; na democracia parlamentar.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Masculinidade hegem\u00f3nica, feminilidade hegem\u00f3nica e lideran\u00e7a do &#8220;homem forte&#8221;<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Avaliar a autoridade e o estilo pol\u00edtico de Marine Le Pen \u00e9 uma ajuda se nos voltarmos para as abordagens sociol\u00f3gicas da masculinidade hegem\u00f3nica e da feminilidade hegem\u00f3nica. O soci\u00f3logo australiano Raewyn Connell desenvolveu uma teoria influente da masculinidade hegem\u00f3nica, mostrando como a masculinidade hegem\u00f3nica legitima o dom\u00ednio masculino n\u00e3o s\u00f3 sobre e acima da feminilidade, mas tamb\u00e9m sobre e acima das masculinidades subordinadas.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-3\">3<\/a>&nbsp;A sua abordagem \u00e0 masculinidade hegem\u00f3nica defende que as qualidades associadas \u00e0 masculinidade s\u00e3o constru\u00eddas em torno da rela\u00e7\u00e3o idealizada entre masculinidade e feminilidade, em que as duas s\u00e3o estruturadas como complementares, dois &#8220;opostos&#8221; que se atraem atrav\u00e9s da rela\u00e7\u00e3o supostamente natural de desejo entre pessoas marcadas como masculinas e pessoas marcadas como femininas. Estes &#8220;opostos&#8221; s\u00e3o tamb\u00e9m hier\u00e1rquicos, com a masculinidade relacional e hierarquicamente estruturada sobre e acima da feminilidade, e interseccionalmente sobreposta a outras categorias como a ra\u00e7a, a etnia e a religi\u00e3o.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-4\">4<\/a>&nbsp;A masculinidade hegem\u00f3nica n\u00e3o pode existir sem a sua refer\u00eancia relacional \u00e0 feminilidade, e tamb\u00e9m sem uma hierarquia da masculinidade dominante acima de outras masculinidades e feminilidades menos valorizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A soci\u00f3loga americana Mimi Schippers enriquece o trabalho de Connell e Messerschmidt ao defender que a hegemonia de g\u00e9nero n\u00e3o deve considerar apenas as hierarquias entre masculinidades, e da masculinidade sobre a feminilidade, mas tamb\u00e9m entre feminilidades. Enquanto Connell e Messerschmidt defendiam que s\u00f3 existe masculinidade hegem\u00f3nica, mas n\u00e3o existe feminilidade hegem\u00f3nica, Schippers defende antes que a feminilidade hegem\u00f3nica existe, ao mesmo tempo que perpetua o dom\u00ednio da masculinidade sobre a feminilidade.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-5\">5<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A masculinidade hegem\u00f3nica exprime-se em qualidades como a voz grave, a for\u00e7a f\u00edsica e o desejo pelo objeto feminino. A feminilidade hegem\u00f3nica exprime-se em conte\u00fados de qualidade que s\u00e3o vistos como apoiando a masculinidade hegem\u00f3nica como complementares e acima da feminilidade hegem\u00f3nica. Por exemplo, estes conte\u00fados incluem as qualidades de uma pessoa, tais como a sua fisicalidade recatada, o desejo passivo pelo objeto masculino, uma voz suave e a vulnerabilidade emocional.<\/p>\n\n\n\n<p>Schippers identifica tamb\u00e9m a &#8220;feminilidade p\u00e1ria&#8221; como uma forma de feminilidade socialmente indesej\u00e1vel e que contamina a rela\u00e7\u00e3o naturalmente hier\u00e1rquica e complementar entre masculinidade e feminilidade (i.e. hegem\u00f3nica). \u00c9 encarnada por figuras perturbadoras como a &#8220;butch&#8221;, a &#8220;bitch&#8221;, a &#8220;slut&#8221; ou uma &#8220;mulher agressiva&#8221;. A feminilidade p\u00e1ria cont\u00e9m o conte\u00fado qualitativo da masculinidade hegem\u00f3nica, mas encarnada e representada por uma pessoa marcada como mulher.<\/p> <p>\n\n\n\n<p>Visto atrav\u00e9s desta lente te\u00f3rica, o que torna o presidente russo Vladimir Putin, o ex-presidente filipino Rodrigo Roa Duterte, o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e o presidente h\u00fangaro Viktor Orb\u00e1n em l\u00edderes pol\u00edticos &#8220;homens fortes&#8221;?\n\n\n\n<p>Defendo que o seguinte conjunto de quatro caracter\u00edsticas estreitamente relacionadas tipificam os l\u00edderes homens fortes. Deve-se notar que essas caracter\u00edsticas juntas formam um tipo ideal, e podem n\u00e3o ser inteiramente descritivas de um \u00fanico l\u00edder. A primeira carater\u00edstica \u00e9 uma auto-representa\u00e7\u00e3o e um estilo de fazer pol\u00edtica que associa a sua autoridade \u00e0 viol\u00eancia masculina, ao militarismo e ao poder militar e policial do Estado.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-6\">6<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, os homens fortes governam os seus partidos pol\u00edticos e os seus respectivos estados, com pouco espa\u00e7o para outros contestarem o seu poder. A verdadeira pol\u00edtica parlamentar \u00e9, por conseguinte, antit\u00e9tica \u00e0 pol\u00edtica dos homens fortes, uma vez que a pol\u00edtica parlamentar implica extensas negocia\u00e7\u00f5es, compromissos, debates orais e um grau de indisciplina e imprevisibilidade nos resultados pol\u00edticos que \u00e9 inaceit\u00e1vel para os pol\u00edticos dos homens fortes. O chin\u00eas Xi Jinping \u00e9 uma dessas figuras, que conseguiu acabar com os limites de mandatos para que o seu caminho para a continua\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio na China e sobre o seu partido pudesse continuar sem problemas. Tamb\u00e9m esta \u00e9 uma express\u00e3o da masculinidade hegem\u00f3nica. Exprime um dom\u00ednio hier\u00e1rquico e patriarcal absoluto, incluindo sobre homens subordinados, que n\u00e3o cede a compromissos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em terceiro lugar, os homens fortes afirmam-se como antit\u00e9ticos \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o pela feminilidade hegem\u00f3nica e, por conseguinte, resistem \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o pela homossexualidade. Embora existam outros estilos de lideran\u00e7a pol\u00edtica masculina atualmente em exibi\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica mundial, como a imagem mais suave e carinhosa do Primeiro-Ministro canadiano Justin Trudeau, com toques de feminilidade hegem\u00f3nica que entraram no conte\u00fado qualitativo da sua masculinidade, a pol\u00edtica dos homens fortes \u00e9 antit\u00e9tica \u00e0 associa\u00e7\u00e3o com a feminilidade ou a homossexualidade.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-7\">7<\/a>&nbsp;A heterossexualidade \u00e9 explicitamente utilizada como um marcador de dom\u00ednio sobre as mulheres e de dom\u00ednio sobre outros homens e sexualidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Em quarto lugar, os l\u00edderes homens fortes fomentam \u00e0 sua volta um forte culto da personalidade. T\u00eam de estar no centro do partido pol\u00edtico, e mesmo do Estado. Os chefes fortes muitas vezes n\u00e3o conseguem desenvolver um segundo comando pr\u00f3ximo, pois n\u00e3o podem partilhar o poder, a aten\u00e7\u00e3o ou investir numa figura que possa ser vista como o seu herdeiro pol\u00edtico. O culto da personalidade que promovem invoca liga\u00e7\u00f5es emocionais intensas dos seguidores e repugn\u00e2ncia entre os cr\u00edticos.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-8\">8<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Mine Le Pen exprime estas qualidades de pol\u00edtico &#8220;homem forte&#8221; feminino? Sim, e n\u00e3o. Com base em observa\u00e7\u00f5es etnogr\u00e1ficas e entrevistas realizadas entre 2013-2017, e na an\u00e1lise do seu papel mais recente como l\u00edder de um grupo parlamentar de dimens\u00e3o consider\u00e1vel na Assembleia Nacional, mostro em que medida a sua masculinidade e feminilidade se separam, mas tamb\u00e9m se sobrep\u00f5em, \u00e0 pol\u00edtica de homem forte. Metodologicamente, n\u00e3o me concentro na an\u00e1lise dos media, que se tornou um m\u00e9todo dominante na an\u00e1lise da pol\u00edtica de extrema-direita atual. Em vez disso, o ensaio centra-se de perto nas performances expl\u00edcitas de g\u00e9nero de Marine Le Pen, na sua media\u00e7\u00e3o pela comunica\u00e7\u00e3o do partido, em v\u00e1rias das suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e na sua rece\u00e7\u00e3o pelos seus seguidores atrav\u00e9s de dados etnogr\u00e1ficos e de entrevistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Comparada com o rival de extrema-direita Eric Zemmour, Le Pen representou em 2022 uma vers\u00e3o de feminilidade dura e moderna que foi mais eficaz do que a masculinidade retr\u00f3grada de Zemmour. Ao mesmo tempo, Le Pen demonstrou ser uma l\u00edder pol\u00edtica dura, com um partido disciplinado a apoi\u00e1-la. Enfrentando agora a pragm\u00e1tica da pol\u00edtica parlamentar, Le Pen deve atuar mais como mediadora parlamentar dentro do seu grupo e no trabalho com outros partidos pol\u00edticos, do que como um homem forte e autorit\u00e1rio. Como mulher, ela est\u00e1 cercada por expectativas de feminilidade hegem\u00f3nica que a impedem de expressar dom\u00ednio e viol\u00eancia n\u00e3o adulterados, enquanto a sua ambi\u00e7\u00e3o desde 2012 de posicionar o seu partido como mainstream tamb\u00e9m circunscreve as suas exibi\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica autorit\u00e1ria de homem forte.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"737\" height=\"642\" src=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/lepen-737x642.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31212\" srcset=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/lepen-737x642.jpeg 737w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/lepen-259x226.jpeg 259w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/lepen-768x669.jpeg 768w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/lepen-1536x1338.jpeg 1536w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/lepen.jpeg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 737px) 100vw, 737px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Flyers da campanha de Le Pen durante as elei\u00e7\u00f5es de 2017. Imagem via <\/em><a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:2017-03-10_20-05-18_meeting-fn.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikimedia commons<\/a><em>.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Uma &#8216;mulher bonita&#8217;<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Entrar no mundo do partido franc\u00eas de extrema-direita como soci\u00f3loga pol\u00edtica qualitativa de 2013-2017 significou uma imers\u00e3o num partido pol\u00edtico com um intenso culto da personalidade. Quando comecei a minha investiga\u00e7\u00e3o, nos primeiros meses de 2013, Marine Le Pen era ainda uma l\u00edder relativamente recente no partido. Tendo sido eleita presidente do partido em 2011, substituindo o seu pai, que tinha sido presidente da FN desde a sua funda\u00e7\u00e3o em 1972, os &#8220;veteranos&#8221; da FN ainda estavam a adaptar-se a uma mulher de uma gera\u00e7\u00e3o mais jovem a liderar o seu movimento. A vis\u00e3o do interior do partido era a de um clube, cheio de tradi\u00e7\u00f5es, mem\u00f3rias, rituais, amizades e rivalidades em rela\u00e7\u00e3o ao cl\u00e3 Le Pen. Pertencer a este clube significava uma forte familiaridade com a dinastia Le Pen, no cora\u00e7\u00e3o do partido, uma fam\u00edlia extensa e at\u00e9 algo glamorosa, que Jean-Marie Le Pen exibia abertamente como parte da sua personalidade pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Marine Le Pen soube capitalizar esta imagem, fomentando uma aura de celebridade no seu partido e fora dele. Um dos meus primeiros encontros etnogr\u00e1ficos com membros do partido foi quando visitei a sede do partido na cidade de Nice. Tinha come\u00e7ado a minha investiga\u00e7\u00e3o imersiva no sudeste de Fran\u00e7a. Com um grande reassentamento de &nbsp;<em>pieds noirs<\/em>, cidad\u00e3os franceses brancos que viveram durante gera\u00e7\u00f5es no Norte de \u00c1frica colonial franc\u00eas e que se deslocaram para a Fran\u00e7a metropolitana ap\u00f3s a independ\u00eancia de Marrocos e da Tun\u00edsia na d\u00e9cada de 1950, o sudeste tem sido desde h\u00e1 muito o cora\u00e7\u00e3o do partido de direita radical.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-9\">9<\/a>&nbsp;Situado a v\u00e1rias ruas do glamoroso porto da cidade, repleto de iates, o escrit\u00f3rio da FN era um caso discreto. Mas os escrit\u00f3rios estavam cheios de actividades en\u00e9rgicas do grupo de activistas que encontrei nesse dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando entrei no escrit\u00f3rio, fui recebida com o \u00e9lan cavalheiresco de um grupo de homens que exprimiu a sua pr\u00f3pria masculinidade hegem\u00f3nica ao dizer-me que, como \u00fanica mulher presente, eu tinha supostamente animado o ambiente. Os homens estavam ocupados a preparar as elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas de mar\u00e7o de 2014. A maioria tinha atingido a idade da reforma, eram pequenos empres\u00e1rios independentes que constituem a base pequeno-burguesa tradicional do partido e tinham aderido ao partido quando o pai de Marine, Jean-Marie Le Pen, era presidente do partido. Habituei-me, ao longo dos anos, a ver a sua imagem a cobrir as paredes dos v\u00e1rios locais da FN que visitei, sem dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu tinha perguntado aos homens do gabinete se achavam importante o facto de o seu partido ser agora dirigido por uma mulher. Jeremy, um pol\u00edtico da FN que estava na sede de Nice nesse dia, ignorou a minha pergunta. Para ele, a principal diferen\u00e7a entre Marine e Jean-Marie Le Pen, o fundador do partido e pai de Marine, \u00e9 o facto de ela j\u00e1 n\u00e3o se contentar em desempenhar o papel de&nbsp;<em>agente provocador,<\/em>&nbsp;mas ter vontade de poder. Ao contr\u00e1rio do seu pai, que se candidatava \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais como um ato de desafio, Jeremy via Marine como uma verdadeira candidata presidencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora Jeremy tenha negado, minutos antes, que o g\u00e9nero do l\u00edder do partido fosse importante, ele nomeou todas as grandes mulheres pol\u00edticas francesas que lhe vieram \u00e0 cabe\u00e7a e concluiu que Marine era, sem d\u00favida, a mais bonita.&nbsp;Mais tarde, sentado com v\u00e1rios dos activistas num velho sof\u00e1 na \u00e1rea de rece\u00e7\u00e3o do escrit\u00f3rio, as minhas perguntas sobre Le Pen &#8211; que nunca tocaram na sua apar\u00eancia f\u00edsica &#8211; resultaram numa longa discuss\u00e3o entre os homens sobre como a achavam atraente. O facto de a considerarem bonita n\u00e3o a banaliza nem a deslegitima como l\u00edder. Pelo contr\u00e1rio, eles estavam satisfeitos com a sua apar\u00eancia e viam o seu tipo de corporalidade como algo que a diferenciava das outras.\n\n\n\n<p>Os homens falavam de Marine com amor, admira\u00e7\u00e3o e at\u00e9 desejo. A linguagem que utilizavam e os sentimentos que exprimiam ao descrever o apoio a Marine &#8211; sempre chamada apenas pelo primeiro nome &#8211; estavam impregnados de um imagin\u00e1rio altamente feminizado. Muitos l\u00edderes pol\u00edticos s\u00f3 podem sonhar com o tipo de sentimentos e projec\u00e7\u00f5es pessoais que os seguidores de Le Pen expressaram pela sua l\u00edder. Le Pen foi tratada com uma tal multival\u00eancia simb\u00f3lica que, por vezes, era dif\u00edcil perceber como \u00e9 que ela podia ser admirada como, por exemplo, o pr\u00f3ximo General de Gaulle e, ao mesmo tempo, ser vista como uma mulher forte, mas ferida, que nobremente manteve os seus filhos longe dos olhos do p\u00fablico enquanto servia a na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Como descrevo noutro ponto do meu artigo, &#8220;Filha, M\u00e3e, Capit\u00e3o&#8221;, os seguidores mais jovens admiravam Le Pen pelas suas vis\u00f5es modernas e viradas para o futuro, e identificavam-se com ela como uma figura maternal que procurava destemidamente proteger e cuidar das gera\u00e7\u00f5es mais novas.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-10\">10<\/a>&nbsp;A sua pr\u00f3pria auto-proje\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria liga-a sem pudor a Joana d&#8217;Arc, a guerreira medieval martirizada durante a Guerra dos Cem Anos, e que \u00e9 uma das figuras mais ricas em termos simb\u00f3licos da iconografia nacional francesa. A associa\u00e7\u00e3o a Joana d&#8217;Arc foi durante muito tempo integrada no simbolismo da extrema-direita francesa, sob a dire\u00e7\u00e3o de Jean-Marie Le Pen. Um dos rituais anuais mais importantes do partido tem sido a marcha do 1\u00ba de maio em Paris, que termina junto a uma escultura dourada de Joana d&#8217;Arc, numa sumptuosa pra\u00e7a no cora\u00e7\u00e3o da Paris hist\u00f3rica. MLP assumiu sem problemas o papel de associar a sua pr\u00f3pria lideran\u00e7a \u00e0 de Joana d&#8217;Arc, incorporando o simbolismo da guerreira-m\u00e1rtir-virgem na sua pr\u00f3pria auto-express\u00e3o como uma guerreira devota e solteira ao servi\u00e7o da na\u00e7\u00e3o.\n\n\n\n<p>Representando um novo tipo de lideran\u00e7a feminina em Fran\u00e7a, Le Pen n\u00e3o hesitou em falar de si pr\u00f3pria&nbsp;<em>como mulher<\/em> e como m\u00e3e. Os seguidores mais jovens, homens e mulheres, foram atra\u00eddos por esta imagem, pois acreditavam que ela representava uma l\u00edder para quem a pol\u00edtica n\u00e3o era apenas uma escolha de carreira, mas algo que vinha do cora\u00e7\u00e3o. Os aderentes mais velhos viam-na como uma filha querida que cresceu numa fam\u00edlia pol\u00edtica complexa, uma experi\u00eancia de inf\u00e2ncia que lhe deu a dureza e a f\u00e9 necess\u00e1rias para ser uma grande l\u00edder. Muitos admiravam o seu f\u00edsico de mulher, comentando as suas pernas compridas e vendo-a como a personifica\u00e7\u00e3o de um cuidado e prote\u00e7\u00e3o maternais ferozes, que viam como algo que a distinguia de outros l\u00edderes. Os adeptos do partido que participavam nos eventos da FN em todo o pa\u00eds gostavam de a ver pessoalmente, com roupas que ela s\u00f3 usava nos eventos internos do partido, como mini-saias curtas e saltos altos. Encarnando caracter\u00edsticas da feminilidade hegem\u00f3nica, a sua feminilidade era uma forte fonte de atra\u00e7\u00e3o entre gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro evento em que vi Marine Le Pen pessoalmente foi na marcha anual do 1\u00ba de maio em Paris, em 2013. Ao iniciar uma conversa com um grupo de reformados entusiasmados que tinham vindo de autocarro do sul de Fran\u00e7a, juntei-me a eles para ir ouvir o discurso de MLP no com\u00edcio final. Olh\u00e1mos para cima, para o palco, onde a eleva\u00e7\u00e3o de MLP parecia torn\u00e1-la maior do que a vida, enquanto ela discursava com um fato que combinava exatamente com o do pai, que tamb\u00e9m estava sentado no palco. Entusiasmada e ignorando completamente o discurso de MLP, uma das mulheres exclamou para mim: &#8220;Ela tem umas pernas extraordin\u00e1rias! Extraordin\u00e1rias!&#8221;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O meu pen\u00faltimo vislumbre de Le Pen em carne e osso aconteceu no encerramento do lan\u00e7amento da sua campanha presidencial em Lyon, em fevereiro de 2017. Num jantar de gala de s\u00e1bado \u00e0 noite para os membros do partido, a refei\u00e7\u00e3o de tr\u00eas pratos terminou com uma atua\u00e7\u00e3o ao vivo de imitadores dos ABBA. O ambiente, j\u00e1 de si festivo, tornou-se ainda mais ruidoso quando os VIP&#8217;s do partido se espalharam pela pista de dan\u00e7a. Os participantes na gala aglomeraram-se \u00e0 sua volta, competindo para vislumbrar Marine no centro, enquanto ela dan\u00e7ava e cantava can\u00e7\u00f5es dos ABBA nos seus saltos agulha, enquanto o seu penteado loiro reflectia as luzes estrobosc\u00f3picas cintilantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na tarde seguinte, ela fez um longo discurso revelando sua plataforma de campanha presidencial, usando um de seus ternos masculinos caracter\u00edsticos. Aqueles que tinham estado presentes no jantar de gala sabiam que, na noite anterior, esta mesma mulher dominadora tinha dan\u00e7ado ao lado deles com abandono numa pista de dan\u00e7a.\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Um lutador<\/strong>&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo que alguns viam Marine Le Pen em termos altamente femininos, outros viam-na atrav\u00e9s de uma lente que a apresentava como uma combatente com caracter\u00edsticas masculinas. Nicole,&nbsp;uma pol\u00edtica de Auvergne-Rh\u00f4ne-Alpes que conheci em 2016, elogiou MLP por n\u00e3o se sexualizar e por sua vestimenta masculina.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-11\">11<\/a>&nbsp;Ela comparou Le Pen com S\u00e9gol\u00e8ne Royal, do partido socialista, a primeira mulher candidata \u00e0 presid\u00eancia na hist\u00f3ria da Fran\u00e7a, que perdeu as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2007 para o candidato de centro-direita, Nicolas Sarkozy. Na opini\u00e3o de Nicole, Royal cometeu o erro de se sexualizar excessivamente durante a sua campanha presidencial. No entanto, apesar das &#8220;grandes pernas&#8221; de MLP, Nicole salientou o facto de MLP cobrir sempre as pernas e ter o cuidado de usar um fato preto masculino nos principais eventos pol\u00edticos.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-12\">12<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Eu tinha-me encontrado com Nicole numa outra sede do partido, desta vez na cidade de Lyon, no leste do pa\u00eds. O escrit\u00f3rio mudou de local, mas na altura estava situado no cruzamento polu\u00eddo de uma autoestrada e perto da esta\u00e7\u00e3o central de autocarros da cidade. Eu tinha vindo observar uma noite da FN de boas-vindas aos novos membros do partido no outono de 2016, no per\u00edodo que antecedeu as elei\u00e7\u00f5es presidenciais e parlamentares de 2017. Observei o discurso de boas-vindas de Nicole, incluindo um momento bizarro de uma mulher usando um hijab que se apresentou ao grupo como tendo escolhido tornar-se um novo membro da FN devido a uma revela\u00e7\u00e3o de que Jean-Marie Le Pen representava a vontade de Al\u00e1. Nicole n\u00e3o se conteve e respondeu \u00e0 mulher que talvez os seus valores n\u00e3o estivessem alinhados com os da FN &#8211; provavelmente uma refer\u00eancia velada ao hijab da mulher.\n\n\n\n<p>No final dos discursos, aproximei-me de Nicole e ela pareceu-me satisfeita por discutir em pormenor as suas opini\u00f5es sobre as mulheres na sociedade e sobre Marine Le Pen enquanto l\u00edder feminina. Explicou-me que tinha estudado Direito enquanto estudante universit\u00e1ria, mas que, depois de casar e de ter v\u00e1rios filhos, tinha decidido abandonar a sua carreira profissional para se dedicar a tempo inteiro \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de cuidados. Agora que as suas filhas j\u00e1 n\u00e3o eram pequenas, sentiu-se inspirada a entrar na pol\u00edtica quando Marine Le Pen se tornou l\u00edder do partido. Para Nicole, Le Pen representava um tipo de for\u00e7a feminina que ela admirava muito e acreditava que Le Pen era a \u00fanica l\u00edder pol\u00edtica que lutava verdadeiramente pelos direitos das mulheres. Para surpresa da pr\u00f3pria Nicole, Nicole passou de uma posi\u00e7\u00e3o s\u00f3lida de centro-direita para se tornar uma pol\u00edtica da FN gra\u00e7as \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o pessoal do MLP.<\/p>\n\n\n\n<p>Nicole falou-me longamente sobre as suas preocupa\u00e7\u00f5es relativamente \u00e0s press\u00f5es exercidas sobre as raparigas adolescentes em termos de vestu\u00e1rio e apar\u00eancia. Por um lado, as jovens estavam a ser sexualizadas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o social e a sexualizar-se a si pr\u00f3prias, atrav\u00e9s de roupas escandalosamente escassas. Por outro lado, opunha-se fortemente ao facto de os islamistas &#8220;obrigarem&#8221; as jovens a cobrirem-se, em vez de afirmarem o seu direito a &#8220;serem livres&#8221;. Observar a forma como as suas filhas e as suas amigas lidam com estas press\u00f5es levou-a a tornar-se uma ativista da FN e depois pol\u00edtica da FN, especialmente quando o MLP se tornou presidente do partido.\n\n\n\n<p>O v\u00eddeo de campanha de Nicole, evidentemente de baixo or\u00e7amento, para a sua pr\u00f3pria campanha eleitoral de 2017, mostrava-a a acelerar por uma cidade numa potente mota, vestida com um fato de cabedal preto e um pesado capacete escuro. Tal como Le Pen, ela exibia uma dupla masculinidade e feminilidade, sinalizando que era uma mulher livre e poderosa em roupas de cabedal justas, mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s da val\u00eancia simb\u00f3lica do atletismo masculino e da ousadia. Nicole estava a emular a \u00eanfase de Le Pen na sua capacidade de prote\u00e7\u00e3o como mulher dura, em linha com a suposta prote\u00e7\u00e3o das mulheres contra o fundamentalismo isl\u00e2mico e o seu tratamento desigual das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrevistas com jovens activistas do partido tamb\u00e9m mostraram como eles admiravam Le Pen pelas suas virtudes masculinas, especialmente no seu estilo autorit\u00e1rio de fazer pol\u00edtica e liderar o seu partido. Um homem de trinta anos do norte da Borgonha declarou claramente: &#8220;\u00c9 uma mulher que faz pol\u00edtica como um homem.&#8221;<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-13\">13<\/a>&nbsp;Outro jovem explicou: &#8220;A sua profiss\u00e3o envolve poder&#8230; Ela navega, gosta de sensa\u00e7\u00f5es intensas. Historicamente, as mulheres n\u00e3o gostavam de correr riscos e o desporto implica correr riscos.&#8221;<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-14\">14<\/a>&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas mulheres jovens expressaram uma enorme admira\u00e7\u00e3o pelo MLP como uma inspira\u00e7\u00e3o pessoal para elas. Uma jovem ativista elogiou MLP como uma figura viril e masculina:&nbsp;&#8216;H\u00e1 poucas mulheres&#8230; que demonstram, atrevo-me a dizer, uma for\u00e7a t\u00e3o viril como ela. \u00c9 raro&#8230; \u00c9 sempre bom ver uma mulher que consegue liderar um grande movimento pol\u00edtico, o primeiro partido de Fran\u00e7a, como um homem. Com for\u00e7a, com convic\u00e7\u00e3o, com retid\u00e3o, com honra. Estas s\u00e3o qualidades que s\u00e3o, entre aspas, masculinas.&#8217;<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-15\">15<\/a>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um estudante de direito em Paris, que tinha vinte anos na altura, expressou a opini\u00e3o de que MLP tamb\u00e9m poderia ser visto como especialmente autorit\u00e1rio, representando a firmeza de uma figura como o General de Gaulle, mais do que outros pol\u00edticos masculinos proeminentes:&nbsp;&#8216;Ela tem essa verve, esse punho forte, que faz dela um verdadeiro chefe de Estado. Na constitui\u00e7\u00e3o da Quinta Rep\u00fablica, o General de Gaulle ditou a constitui\u00e7\u00e3o de modo a que o chefe de Estado fosse um capit\u00e3o&#8230; Vejo absolutamente Marine Le Pen neste fato de capit\u00e3o. Enquanto que algu\u00e9m como [o atual presidente] Fran\u00e7ois Hollande ou [o antigo presidente] Nicolas Sarkozy &#8211; para mim, este n\u00e3o \u00e9 um fato feito \u00e0 medida para eles. Vejo Marine Le Pen como algu\u00e9m que \u00e9 mais capaz de desempenhar as fun\u00e7\u00f5es de chefe de Estado em compara\u00e7\u00e3o com os outros.&#8217;<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-16\">16<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, segundo um deputado da FN no Parlamento Europeu:&nbsp;&#8216;Muitos franceses t\u00eam agora saudades do General de Gaulle, que era um homem de grandes convic\u00e7\u00f5es. Sinto que, com Marine Le Pen, encontr\u00e1mos finalmente algu\u00e9m que tem a autoridade que o General de Gaulle tinha.&#8221;<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-17\">17<\/a>&nbsp;Em vez de verem Le Pen como representante de uma esp\u00e9cie de feminilidade p\u00e1ria, estes admiradores v\u00eaem-na antes como uma mulher not\u00e1vel com virtudes masculinas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>O aperto suave da prote\u00e7\u00e3o materna<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio de algumas mulheres de extrema-direita na pol\u00edtica dos EUA, como a pol\u00edtica Lauren Boebert, que orgulhosamente brandem armas como marcas da sua proeza masculina, Marine Le Pen tem-se mantido cuidadosamente afastada de associa\u00e7\u00f5es com o militarismo, e especialmente com organiza\u00e7\u00f5es de mil\u00edcias de extrema-direita. Entre as numerosas transforma\u00e7\u00f5es introduzidas pela lideran\u00e7a do partido MLP, uma mudan\u00e7a not\u00e1vel foi a refuta\u00e7\u00e3o do simbolismo que liga o RN ao fascismo e o afastamento da associa\u00e7\u00e3o com figuras, s\u00edmbolos e actividades semelhantes \u00e0s mil\u00edcias. A campanha presidencial de 2017 do MLP foi o pren\u00fancio de uma reformula\u00e7\u00e3o da imagem do partido. Desde a funda\u00e7\u00e3o da FN em 1972, a chama tricolor \u00e9 o s\u00edmbolo central do partido. Um sinal associado ao fascismo italiano, e ainda o s\u00edmbolo do partido Fratelli d&#8217;Italia de Giorgia Meloni em It\u00e1lia, Jean-Marie Le Pen alegou, quando o seu partido foi fundado em 1972, que o partido era demasiado pobre para encomendar um novo s\u00edmbolo de design gr\u00e1fico.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-18\">18<\/a>&nbsp;Tal pragmatismo \u00e0 parte, o s\u00edmbolo da FN liga claramente o partido \u00e0 hist\u00f3ria do fascismo italiano.<\/p>\n\n\n\n<p>O militarismo, sob a lideran\u00e7a da FN de Jean-Marie Le Pen, ocupou um lugar de destaque, mas algo amb\u00edguo. Desde a sua funda\u00e7\u00e3o, a FN esteve ligada a organiza\u00e7\u00f5es de veteranos das guerras da Arg\u00e9lia. No entanto, por muito que o JMLP se gabasse do seu passado como oficial militar, chegando mesmo a afirmar que tinha cometido actos de tortura enquanto oficial dos servi\u00e7os secretos militares, o partido sempre se distinguiu dos movimentos de extrema-direita ainda mais reaccion\u00e1rios dos anos 70, que tinham mobilizado a viol\u00eancia como t\u00e1tica pol\u00edtica, especialmente contra os movimentos estudantis liberais e marxistas de 1968.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-19\">19<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>As aspira\u00e7\u00f5es do JMLP eram ter uma voz na pol\u00edtica partid\u00e1ria, uma ambi\u00e7\u00e3o que controlou as express\u00f5es exteriores de radicalismo violento do partido. \u00c0 medida que envelhecia, a auto-apresenta\u00e7\u00e3o de Jean-Marie Le Pen dentro do seu partido, e para o p\u00fablico franc\u00eas em geral, n\u00e3o era tanto a de um &#8220;homem forte&#8221; violento ou autorit\u00e1rio que representava as velhas fileiras fascistas, mas a de um provocador sorridente que gostava de chocar os convidados \u00e0 mesa de jantar. Com o benef\u00edcio da retrospetiva, pode-se v\u00ea-lo como um precursor estil\u00edstico de Silvio Berlusconi da It\u00e1lia, mais do que precursor de Jair Bolsonaro ou Rodrigo Duterte.<\/p>\n\n\n\n<p>Marine Le Pen provou ser uma estratega a longo prazo que reorganizou eficazmente o partido de cima para baixo, e que tamb\u00e9m tem uma forte afinidade com a comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.&nbsp;Em linha com o rebranding da imagem do partido, Marine Le Pen encomendou uma suaviza\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo da chama tricolor. Continua a ser um s\u00edmbolo do partido, mas agora tem uma forma mais redonda e menos bruta. Para ela, estas subtilezas s\u00e3o importantes para a reformula\u00e7\u00e3o da imagem do partido. Paralelamente, e ao contr\u00e1rio do seu pai, Marine Le Pen promoveu explicitamente um estilo visual muito personalizado, colocando no centro a sua imagem de mulher forte mas carinhosa. O s\u00edmbolo da sua campanha de 2017 foi uma rosa azul, e a sua campanha de 2022 centrou-se numa s\u00e9rie de plataformas denominadas &#8220;M La France&#8221;, sendo o &#8220;M&#8221; uma refer\u00eancia ao seu primeiro nome,&nbsp;<a href=\"https:\/\/mlafrance.fr\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Marine<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Observei, atrav\u00e9s de observa\u00e7\u00e3o etnogr\u00e1fica, como a sua lideran\u00e7a tamb\u00e9m levou a uma supress\u00e3o ativa de tudo o que parecesse uma mil\u00edcia nos eventos do partido. Na marcha anual da FN a que assisti em 2013, em Paris, v\u00e1rios homens com slogans violentos e fascistas marchavam com os apoiantes da FN. V\u00e1rios seguran\u00e7as da FN &#8211; talvez volunt\u00e1rios, embora eu nunca tenha podido verificar quem eram &#8211; aproximaram-se deles de forma discreta mas firme e insistiram para que abandonassem a marcha. A marcha anual atra\u00eda sempre grande aten\u00e7\u00e3o dos media e eu interpretei este momento como uma reformula\u00e7\u00e3o deliberada da imagem do partido.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora Le Pen tenha afastado as apar\u00eancias de viol\u00eancia das mil\u00edcias no seio do partido, ela e os seus seguidores expressam admira\u00e7\u00e3o pelas for\u00e7as policiais e militares, articulando um anseio por um Estado franc\u00eas forte que imponha respeito, lei e ordem. O discurso final de Marine Le Pen na Place de l&#8217;Op\u00e9ra foi proferido em frente a um cartaz gigante de Joana d&#8217;Arc numa armadura de guerreiro. A nova imagem que estava a ser transmitida era a de um partido pol\u00edtico disciplinado, sem espa\u00e7o para o caos ou para a viol\u00eancia nas ruas. O grupo de mulheres reformadas que conheci no evento ficou encantado por cumprimentar os agentes da pol\u00edcia que acompanhavam a marcha e o com\u00edcio para garantir o cumprimento da lei e da ordem. Uma mulher at\u00e9&nbsp;tentou seduzir alguns pol\u00edcias para se juntarem \u00e0 marcha. Esta situa\u00e7\u00e3o contrastava com um acontecimento diferente que observei quatro anos mais tarde, num com\u00edcio de esquerda a favor de Jean-Luc M\u00e9lenchon, em que os participantes que faziam fila para entrar no com\u00edcio em Dijon lan\u00e7aram instantaneamente insultos \u00e0 pol\u00edcia, chamando-lhes fascistas e outros ep\u00edtetos do g\u00e9nero.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m testemunhei uma disciplina de cariz militar entre os membros do partido. No lan\u00e7amento da campanha presidencial do MLP em Lyon, no in\u00edcio de 2017, observei como os apoiantes da FN demonstravam respeito pelas regras do seu partido e pela autoridade do seu l\u00edder. Pouco antes do discurso de lan\u00e7amento da campanha presidencial de 2017 do MLP, sentei-me ao lado de dois homens da classe trabalhadora da zona de Avignon que tinham levado para o evento uma bandeira americana e uma bandeira francesa. Tinham a inten\u00e7\u00e3o de agitar as duas bandeiras durante o discurso do MLP, num gesto de solidariedade com a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump nos Estados Unidos. O pessoal da seguran\u00e7a privada da FN abordou-os enquanto esper\u00e1vamos no audit\u00f3rio e antes do in\u00edcio do discurso de coroa\u00e7\u00e3o do MLP e pediu-lhes que retirassem a bandeira americana. Os homens rapidamente obedeceram e ficaram envergonhados por n\u00e3o terem sido avisados mais cedo.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-20\">20<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>No final do discurso do MLP, a multid\u00e3o no audit\u00f3rio principal tinha-se esvaziado e estava a circular pelo enorme foyer da sala de congressos. A multid\u00e3o estava entusiasmada com o discurso de Marine Le Pen. De repente, Marine Le Pen entra na sala, rodeada por uma multid\u00e3o de jornalistas. Um estudante universit\u00e1rio com quem eu estava a conversar parou a meio da frase e informou-me: &#8220;temos de seguir a senhora presidente&#8221;. Os activistas que ainda se encontravam na sala reagruparam-se rapidamente e, sem precisarem que lhes dissessem o que fazer, formaram uma fila atr\u00e1s de MLP, enquanto ela avan\u00e7ava, elevando-se acima dos outros com o seu f\u00edsico alto e os seus saltos altos. Encarnando carisma, MLP impunha respeito aos seguidores do partido.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-21\">21<\/a><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Uma masculinidade mais suave e moderna: Marine Le Pen versus Eric Zemmour<\/strong>&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>As elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2022 em Fran\u00e7a foram marcadas pela chegada de mais um candidato presidencial de direita radical que foi enquadrado pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o social como um &#8220;disruptor&#8221; com o objetivo de refazer o mapa da pol\u00edtica de direita em Fran\u00e7a. O jornalista Eric Zemmour fez furor ao declarar a sua candidatura em 2021. Zemmour tinha passado grande parte da sua carreira desde os anos 70 a escrever como provocador, com opini\u00f5es cada vez mais \u00e0 direita e desde 2005 nos seus escritos sobre a &#8220;crise de masculinidade&#8221; francesa.\n\n\n\n<p>Mobilizando uma articula\u00e7\u00e3o professoral da gram\u00e1tica francesa utilizada apenas pelos pol\u00edticos e acad\u00e9micos franceses mais elitistas, Zemmour tem-se apresentado durante d\u00e9cadas como um intelectual de direita que se atreve a dizer a verdade sobre a &#8220;feminiza\u00e7\u00e3o&#8221; dos homens franceses na pol\u00edtica e na vida quotidiana. Muito antes da vaga de populismo de direita radical na Europa, Zemmour passou, em meados da d\u00e9cada de 2000, de um comentador pol\u00edtico bastante convencional, que escrevia no jornal de centro-direita Le Figaro, para um polemista mais controverso, que insistia na necessidade de os homens reclamarem o seu lugar de direito na sociedade.\n\n\n\n<p>No seu livro de 2006,&nbsp;<em>Le Premier Sexe<\/em>, supostamente escrevendo contra Simone de Beauvoir, Zemmour proclamou que n\u00e3o se &#8220;torna&#8221; uma mulher ou um homem, mas que os homens nascem homens e as mulheres nascem mulheres. Zemmour passou os quinze anos subsequentes da sua carreira a desfrutar da aten\u00e7\u00e3o que obt\u00e9m com este tipo de provoca\u00e7\u00f5es. Desde ent\u00e3o, tornou-se uma personalidade proeminente da televis\u00e3o, especialmente no CNews, um canal fundado em 2019 como um canal de not\u00edcias de direita franc\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>O programa de Zemmour&nbsp;<em>Le Premier Sexe<\/em>&nbsp;deu-lhe uma plataforma para divulgar a sua opini\u00e3o de que os homens s\u00e3o naturalmente &#8220;predadores sexuais&#8221;, cuja feminiza\u00e7\u00e3o resultou supostamente num profundo vazio na psique de homens e mulheres. Numa das muitas entrevistas que lhe foram concedidas ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do seu livro, descreveu, em 2006, como observou uma fam\u00edlia num comboio de alta velocidade em que o pai segurou a crian\u00e7a durante toda a viagem, enquanto a m\u00e3e lia um livro. Zemmour explicou que este tipo de observa\u00e7\u00f5es mostra como os homens s\u00e3o atualmente considerados como &#8220;segundas m\u00e3es&#8221;. Esta fam\u00edlia era sintom\u00e1tica da nega\u00e7\u00e3o do homem como ser primordial, resultando numa cat\u00e1strofe social e civilizacional. Curiosamente, na mesma entrevista, Zemmour tamb\u00e9m avaliou criticamente a rela\u00e7\u00e3o entre a ent\u00e3o l\u00edder socialista S\u00e9gol\u00e8ne Royal e o seu par rom\u00e2ntico Fran\u00e7ois Hollande.<\/p>\n\n\n\n<p>Embrulhando tudo o que supostamente est\u00e1 errado nos pap\u00e9is de g\u00e9nero contempor\u00e2neos, Royal, argumentou ele, era simultaneamente uma mulher bonita e uma figura viril; e, por sua vez, Hollande era um homem feminizado. Nos termos da masculinidade e feminilidade hegem\u00f3nicas dominantes em 2006, Zemmour argumentava, de facto, que Royal e Hollande n\u00e3o estavam a conseguir encarnar a feminilidade e a masculinidade hegem\u00f3nicas. Em vez de uma rela\u00e7\u00e3o assente em dois opostos complementares e supostamente naturais, Royal era uma mulher com tra\u00e7os masculinos e Hollande era um homem com tra\u00e7os femininos &#8211; simbolizando tudo o que est\u00e1 errado na esquerda francesa e na masculinidade francesa em geral. Zemmour continuou a defender estas posi\u00e7\u00f5es, tornando-se progressivamente mais provocador e com um p\u00f3dio cada vez maior a partir do qual podia transmitir estas opini\u00f5es na televis\u00e3o e na r\u00e1dio.<\/p>\n\n\n\n<p>O seu an\u00fancio, no final de 2021, de que estava a lan\u00e7ar uma candidatura \u00e0 presid\u00eancia foi anunciado por alguns como uma mudan\u00e7a de jogo para Marine Le Pen, que estava supostamente a ser ultrapassada \u00e0 direita por um homem que poderia finalmente unir a burguesia \u00e0 classe trabalhadora. H\u00e1 muito tempo presente nos c\u00edrculos medi\u00e1ticos parisienses, os especialistas em comunica\u00e7\u00e3o social de todo o espetro pol\u00edtico levaram a s\u00e9rio a ideia de que ele representava um verdadeiro desafio \u00e0 candidatura de Le Pen.<\/p>\n\n\n\n<p>Zemmour lan\u00e7ou uma campanha reacion\u00e1ria, que se revelou impopular entre as eleitoras e n\u00e3o muito popular entre os homens. A polit\u00f3loga francesa Nonna Mayer estuda h\u00e1 muito tempo a diferen\u00e7a de g\u00e9nero na vota\u00e7\u00e3o da extrema-direita francesa. Sob a dire\u00e7\u00e3o de Jean-Marie Le Pen, a&nbsp;<em>Frente Nacional<\/em>&nbsp;nunca atraiu tanto as mulheres como os homens. No entanto, a recente an\u00e1lise de Mayer sobre as elei\u00e7\u00f5es de 2022 mostra que Marine Le Pen fechou a lacuna de g\u00eanero e, controlando fatores como classe social e religi\u00e3o, as mulheres eram t\u00e3o propensas a votar nela quanto os homens. Zemmour, pelo contr\u00e1rio, apelou muito menos \u00e0s eleitoras.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-22\">22<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Embora pouco em subst\u00e2ncia distinguisse verdadeiramente a maioria das suas plataformas das de Le Pen, o principal ponto de partida entre Zemmour e Le Pen \u00e9 que Zemmour apresenta uma vis\u00e3o fortemente reacion\u00e1ria sobre o g\u00e9nero e os valores familiares conservadores, e \u00e9 mais abertamente racista do que Le Pen. Como resumiu brilhantemente Nonna Mayer, os &#8220;excessos de Zemmour fizeram com que [Marine Le Pen] parecesse moderada e fi\u00e1vel&#8221;&nbsp;&nbsp;O radicalismo de Zemmour expressou-se no seu apoio descarado \u00e0 teoria da &#8220;grande substitui\u00e7\u00e3o&#8221;, que postula que os europeus brancos est\u00e3o a ser demograficamente substitu\u00eddos por imigrantes mu\u00e7ulmanos em Fran\u00e7a e na Europa.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-23\">23<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, foi tamb\u00e9m no terreno do g\u00e9nero e da sexualidade que ele se afirmou como um provocador reacion\u00e1rio. Os seus compromissos p\u00fablicos de 2022 continuaram a insistir na necessidade de regressar ao patriarcado antiquado, e o seu material oficial de campanha declarava, &nbsp;<a href=\"https:\/\/programme.ericzemmour.fr\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&#8216;Somos os herdeiros de uma civiliza\u00e7\u00e3o que v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres em termos de complementaridade.&#8217;<\/a>&nbsp;Complementaridade \u00e9 aqui uma refer\u00eancia \u00e0s diferen\u00e7as supostamente naturais e complementares entre os sexos. Com uma plataforma de campanha que parecia reconhecer implicitamente que ele tinha um problema de mulheres no seu apelo eleitoral, a sua campanha tentou enquadr\u00e1-lo como procurando proteger a igualdade das mulheres e os direitos das mulheres, defendendo as suas virtudes &#8220;tal como elas s\u00e3o&#8221;.\n\n\n\n<p>Desde a sua elei\u00e7\u00e3o para a lideran\u00e7a do partido em 2012, Le Pen afastou decisivamente as plataformas formais do seu partido do conservadorismo reacion\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao g\u00e9nero, \u00e0 sexualidade e aos direitos das mulheres. Embora se mostre relutante em rotular-se de feminista, como Giorgia Meloni, da extrema-direita italiana, articula de forma decisiva a imagem de uma mulher l\u00edder forte, uma m\u00e3e solteira com ambi\u00e7\u00f5es desenfreadas para si e para o seu partido, e uma l\u00edder pol\u00edtica que se preocupa autenticamente com a &#8220;liberdade&#8221; e as necessidades das mulheres. Enquanto os partidos de extrema-direita na Europa Central e de Leste p\u00f3s-socialista defendem pontos de vista patriarcais e homof\u00f3bicos, Marine Le Pen fez um c\u00e1lculo muito simples de que, para chegar ao poder em Fran\u00e7a, \u00e9 necess\u00e1rio refazer a extrema-direita de um clube de homens para um partido que atraia as eleitoras mulheres.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-24\">24<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Ela e o programa oficial do RN n\u00e3o fazem declara\u00e7\u00f5es negativas sobre a homossexualidade ou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, nem h\u00e1 um discurso de &#8220;retorno&#8221; a formas passadas de masculinidade e feminilidade hegem\u00f3nicas e \u00e0 divis\u00e3o sexual tradicional do trabalho.&nbsp;Ela lan\u00e7ou essas quest\u00f5es como uma distra\u00e7\u00e3o das plataformas de p\u00e3o e manteiga do partido. A plataforma pol\u00edtica de Le Pen para 2022 n\u00e3o falava quase nada sobre o g\u00e9nero ou mesmo sobre as mulheres, centrando-se antes na &#8220;fam\u00edlia&#8221;. Mesmo a\u00ed, a fam\u00edlia n\u00e3o foi tratada atrav\u00e9s de uma lente de pol\u00edtica socialmente conservadora. Quando a prote\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias foi mencionada como uma promessa de campanha, foi apresentada como uma luta para sustentar o poder de compra das fam\u00edlias e para aumentar o apoio aos cuidadores, em vez de quaisquer reivindica\u00e7\u00f5es morais sobre a necessidade de defender as fam\u00edlias heterossexuais e o casamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma diferen\u00e7a subtil mas reveladora entre o MLP e os programas de Zemmour para 2022 pode ser encontrada nas suas respectivas abordagens \u00e0s tecnologias reprodutivas. Imitando o discurso conservador de direita de&nbsp;<em>La Manif Pour Tous,<\/em>&nbsp;o movimento social de 2013 que se mobilizou em Fran\u00e7a contra a legaliza\u00e7\u00e3o do casamento entre pessoas do mesmo sexo e que foi um dos primeiros movimentos &#8220;anti-g\u00e9nero&#8221;, Zemmour afirmava estar a proteger a fam\u00edlia francesa ao assegurar que nenhuma crian\u00e7a nasceria sem pai atrav\u00e9s da procria\u00e7\u00e3o medicamente assistida. A campanha do MLP prometia antes garantir a aplica\u00e7\u00e3o rigorosa da atual morat\u00f3ria francesa sobre a maternidade de substitui\u00e7\u00e3o e bloquear o reconhecimento de pais n\u00e3o biol\u00f3gicos para as crian\u00e7as francesas nascidas atrav\u00e9s de maternidade de substitui\u00e7\u00e3o fora das fronteiras de Fran\u00e7a. Ao contr\u00e1rio da proposta de Zemmour, o programa reprodutivo de Le Pen n\u00e3o menciona as rela\u00e7\u00f5es de g\u00e9nero ou o lugar leg\u00edtimo dos homens na fam\u00edlia, mas enfatiza que a barriga de aluguer continua a ser um t\u00f3pico controverso em Fran\u00e7a e que os cidad\u00e3os franceses precisam de respeitar a lei e a soberania francesas sobre o assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>As elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2022 e, em seguida, as elei\u00e7\u00f5es parlamentares indicam que essas diferen\u00e7as nas plataformas e nos desempenhos de g\u00eanero tiveram efeitos significativos em seus respectivos apelos aos eleitores. Zemmour obteve 7% dos votos para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais e o seu partido n\u00e3o conseguiu nenhum lugar nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-25\">25<\/a>&nbsp;Em contrapartida, a estrat\u00e9gia de Marine Le Pen deu frutos desde 2012. Em 2022, chegou mais uma vez \u00e0 segunda volta das presidenciais e, embora tenha perdido para Macron, conseguiu 42% de apoio entre os eleitores, diminuindo a diferen\u00e7a entre ela e Macron em compara\u00e7\u00e3o com as elei\u00e7\u00f5es de 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais dramaticamente, o seu&nbsp;<em>Rassemblement National<\/em>&nbsp;Partido alcan\u00e7ou um n\u00famero sem precedentes de 89 lugares na Assembleia Nacional, constituindo pela primeira vez um grupo pol\u00edtico no Parlamento. Enquanto agrupamento, o RN disp\u00f5e de mais tempo de interven\u00e7\u00e3o durante os debates parlamentares e beneficia de um financiamento adicional. O RN, de extrema-direita, \u00e9 atualmente o maior grupo da oposi\u00e7\u00e3o na Assembleia Nacional francesa.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"856\" height=\"642\" src=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/antimarine-856x642.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31229\" srcset=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/antimarine-856x642.jpeg 856w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/antimarine-301x226.jpeg 301w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/antimarine-768x576.jpeg 768w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/antimarine.jpeg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 856px) 100vw, 856px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>P\u00f4steres anti-Le Pen em Paris. Imagem via <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Affiches_anti-Marine_Le_Pen_Paris_1er_3.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Wikimedia commons.<\/a><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Uma &#8216;Mulher Forte&#8217; a refazer a pol\u00edtica europeia<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Um l\u00edder &#8220;forte&#8221; e disciplinado que tamb\u00e9m propaga a ideia de que o Estado franc\u00eas precisa de ser mais duro no seu policiamento do fundamentalismo isl\u00e2mico, da criminalidade e da viol\u00eancia, e na &#8220;prote\u00e7\u00e3o&#8221; das fronteiras contra a imigra\u00e7\u00e3o ilegal, Le Pen n\u00e3o representa a viol\u00eancia masculina desenfreada como fazem homens fortes como Vladimir Putin. E embora domine o seu partido com um poderoso culto da personalidade, exercendo os seus m\u00fasculos em v\u00e1rias ac\u00e7\u00f5es impiedosas, como a expuls\u00e3o do seu pai do partido por indisciplina em 2015, e a r\u00e1pida destitui\u00e7\u00e3o do seu antigo bra\u00e7o direito Florian Philippot ap\u00f3s os resultados decepcionantes das elei\u00e7\u00f5es de 2017, Le Pen n\u00e3o supervisiona o seu partido com o tipo de dom\u00ednio total que Putin exerce sobre o seu partido R\u00fassia Unida. Tendo recentemente renunciado ao cargo de presidente do partido para supervisionar o grupo parlamentar do RN na Assembleia Nacional, ela est\u00e1 agora confortavelmente a influenciar a partir dos bastidores. O seu jovem protegido Jordan Bardella assumiu formalmente a lideran\u00e7a do partido &#8211; embora o resultado da corrida \u00e0 lideran\u00e7a tenha sido previsto desde o in\u00edcio, gra\u00e7as ao estatuto \u00f3bvio de Bardella como protegido pessoal de Marine Le Pen.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela \u00e9 uma mulher dura que representa uma masculinidade moderna mais suave. Esta dureza \u00e9 expressa em estilo e subst\u00e2ncia. Ela incorpora tra\u00e7os associados \u00e0 masculinidade hegem\u00f3nica na sua apar\u00eancia e nas suas actua\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, e na manuten\u00e7\u00e3o de um dom\u00ednio inquestion\u00e1vel sobre o seu partido. As suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas tamb\u00e9m expressam uma abordagem disciplinar dura, especialmente em rela\u00e7\u00e3o aos imigrantes e \u00e0 Comiss\u00e3o Europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, ela \u00e9 mais parecida com Orb\u00e1n do que com Putin. Nenhum dos dois pol\u00edticos incita os seus seguidores a cometer actos de viol\u00eancia. Tanto Le Pen como Orb\u00e1n dominam os seus partidos atrav\u00e9s de um culto da personalidade, ao mesmo tempo que mant\u00eam alguma participa\u00e7\u00e3o na democracia parlamentar, permitindo vozes dissidentes dentro dos seus respectivos partidos pol\u00edticos e nos seus debates p\u00fablicos com outros actores pol\u00edticos a n\u00edvel nacional e internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, Le Pen diverge de Orb\u00e1n na sua express\u00e3o mais aberta da heterossexualidade. Ao contr\u00e1rio de Orb\u00e1n, o seu corpo \u00e9 deliberadamente mobilizado como uma plataforma p\u00fablica atrav\u00e9s da qual ela projecta a sua imagem como uma mulher moderna que \u00e9 diferente dos pol\u00edticos profissionais. Ao usar mini-saias em eventos de festas internas, ao mostrar uma pitada de joelho em cartazes de campanha, \u00e0 sua aparente recusa em voltar a casar e \u00e0s suas apari\u00e7\u00f5es regulares e volunt\u00e1rias em revistas de mexericos francesas, Le Pen projecta uma imagem de uma mulher com uma &nbsp;<em>joie de vivre<\/em>&nbsp;e uma propens\u00e3o para o prazer que poucas mulheres pol\u00edticas da sua estatura retratam.<\/p> <p>\n\n\n\n<p>No mais recente cap\u00edtulo da sua espantosa carreira pol\u00edtica, Le Pen est\u00e1 agora a desempenhar um novo papel: liderar o seu grupo pol\u00edtico para atuar como uma for\u00e7a unida na Assembleia Nacional francesa. Como foi visto com uma proposta para consagrar o direito ao aborto na constitui\u00e7\u00e3o francesa em novembro de 2022, Le Pen foi eficaz em convencer seu grupo a apoiar um direito constitucional ao aborto que era mais limitado em escopo do que a proposta original.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#footnote-26\">26<\/a>&nbsp;Precisando de reunir os conservadores sociais do seu partido, que se op\u00f5em ao aborto, e os representantes do RN no Parlamento, que s\u00e3o socialmente liberais em rela\u00e7\u00e3o ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, a posi\u00e7\u00e3o de compromisso do grupo do RN de apoiar uma prote\u00e7\u00e3o constitucional do aborto at\u00e9 \u00e0s 14 semanas de gravidez indica que Le Pen est\u00e1 a aprender a agir como negociadora parlamentar e a fazer acordos dentro do seu grupo. No entanto, Le Pen ainda est\u00e1 a aprender o b\u00e1sico. \u00c9 demasiado cedo para determinar que tipo de autoridade exerce no seu novo papel e se o grupo ir\u00e1 funcionar com um modo est\u00e1vel de compromisso e coes\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o obstante, a cada ano que passa, o seu partido parece-se cada vez mais com um partido parlamentar normal. Le Pen n\u00e3o conseguiu tornar-se Presidente da Fran\u00e7a, mas alcan\u00e7ou outros objectivos que pareciam inimagin\u00e1veis em 2011, quando foi eleita presidente do partido. Ela transformou o RN numa for\u00e7a pol\u00edtica leg\u00edtima, reunindo uma coliga\u00e7\u00e3o social, pol\u00edtica e geogr\u00e1fica diversificada, embora unida em torno das suas plataformas centrais de racismo, anti-imigra\u00e7\u00e3o, islamofobia, nacionalismo estridente e um anseio pelo Estado gaullista forte.\n\n\n\n<p>A sua pretensa modernidade e o seu car\u00e1cter inovador como l\u00edder feminina em Fran\u00e7a s\u00e3o preocupantes. A capacidade comprovada de Marine Le Pen de criar cada vez mais espa\u00e7o para si e para o seu partido na mesa da pol\u00edtica nacional. Os meios atrav\u00e9s dos quais ela est\u00e1 a liderar uma profunda transforma\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica francesa atrav\u00e9s da integra\u00e7\u00e3o da extrema-direita, e a sua reformula\u00e7\u00e3o da masculinidade e feminilidade pol\u00edticas, destacaram-na como uma criadora de mudan\u00e7as em Fran\u00e7a e em toda a Europa. <\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/authors\/geva-dorit\/\">Dorit Geva<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-1\">1<\/a> <code>Ver Dorit Geva, 'A double-headed hydra: Marine Le Pen's charisma, between political masculinity and political femininity.'<em> NORMA<\/em>, 15:1, 26-42.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-2\">2<\/a> <code><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/18902138.2019.1701787\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/doi.org\/10.1080\/18902138.2019.1701787<\/a>; tamb\u00e9m Dorit Geva, 'Daughter, Mother, Captain: Marine Le Pen, Gender, and Populism in the French National Front\". <em>Social Politics: International Studies in Gender, State &amp; Society<\/em>, 27:1, 1-26.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-3\">3<\/a> <code>R.W. Connell. 1995. <em>Masculinities.<\/em> Cambridge: Polity Press.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-4\">4<\/a> <code>R.W. Connell, and James W. Messerschmidt. 2005. 'Masculinidade Hegem\u00f3nica: Rethinking the Concept.' <em>G\u00e9nero e Sociedade<\/em>, 19:6, 829-859.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-5\">5<\/a> <code>Mimi Schippers. 2007. 'Recovering the Feminine Other: Masculinity, Femininity, and Gender Hegemony.' <em>Theory and Society<\/em>, 36:1, 85-102, <a href=\"http:\/\/www.jstor.org\/stable\/4501776\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/www.jstor.org\/stable\/4501776<\/a>.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-6\">6<\/a> <code>Rebecca Tapscott. 2020. 'Masculinidade militarizada e o paradoxo da conten\u00e7\u00e3o: mecanismos de controle social sob o autoritarismo moderno'. <em>International Affairs<\/em>, 96:6, 1565-1584, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1093\/ia\/iiaa163\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/doi.org\/10.1093\/ia\/iiaa163<\/a>.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-7\">7<\/a> <code>Elizabeth A. Wood. 2016. 'Hipermasculinidade como um cen\u00e1rio de poder. A regra ic\u00f4nica de Vladimir Putin, 1999-2008.' <em>International Feminist Journal of Politics<\/em>, 18:3, 329-350, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/14616742.2015.1125649\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/doi.org\/10.1080\/14616742.2015.1125649<\/a>.;Alexandra Novitskaya. 2017. 'Patriotismo, sentimento e histeria masculina: A pol\u00edtica de masculinidade de Putin e a persegui\u00e7\u00e3o de russos n\u00e3o heterossexuais. <em>NORMA<\/em>, 12:3-4, 302-318, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/18902138.2017.1312957\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/doi.org\/10.1080\/18902138.2017.1312957<\/a>.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-8\">8<\/a> <code>Dorit Geva. 2020a. 'A double-headed hydra: Marine Le Pen's charisma, between political masculinity and political femininity.<em>' NORMA<\/em>, 15:1, 26-42, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/18902138.2019.1701787\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/doi.org\/10.1080\/18902138.2019.1701787<\/a>.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-9\">9<\/a> <code>James G. Shields. 2004. 'Um enigma ainda: Poujadismo cinq\u00fcenta anos depois'. <em>French Politics, Culture &amp; Society<\/em>, 22:1, 36-56.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-10\">10<\/a> <code>Dorit Geva. 2020b. 'Filha, m\u00e3e, capit\u00e3: Marine Le Pen, G\u00eanero e Populismo na Frente Nacional Francesa.' <em>Pol\u00edtica Social: Estudos Internacionais em G\u00e9nero, Estado &amp; Sociedade<\/em>, 27:1, 1-26.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-11\">11<\/a> <code>Os nomes de todos os entrevistados s\u00e3o pseud\u00f3nimos para proteger a sua identidade.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-12\">12<\/a> <code>Discuss\u00e3o de 23 de novembro de 2016<\/code> <code>Discuss\u00e3o de 23 de novembro de 2016<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-13\">13<\/a> <code>Entrevistado em 19 de agosto de 2015<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-14\">14<\/a> <code>Entrevistado em 3 de abril de 2016<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-15\">15<\/a> <code>Entrevistado em 25 de fevereiro de 2016<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-16\">16<\/a> <code>Entrevistado em 5 de fevereiro de 2016<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-17\">17<\/a> <code>Entrevistado em 20 de julho de 2015<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-18\">18<\/a> <code>Val\u00e9rie Igounet et Pauline Picco. 2016. \"Histoire du logo de deux \"partis fr\u00e8res\" entre France et Italie (1972-2016).\" <em>Histoire@Politique<\/em>, 29 :2, 220-235.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-19\">19<\/a> <code>Nicolas Lebourg, Jonathan Preda, and Joseph Beauregard. 2014. <em>Aux racines du FN. L'histoire du mouvement Ordre nouveau<\/em>. Paris: Fondation Jean-Jaur\u00e8s.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-20\">20<\/a> <code>Observado a 5 de fevereiro de 2017<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-21\">21<\/a> <code>Susi Meret. 2015. 'Lideran\u00e7a feminina carism\u00e1tica e g\u00eanero: Pia Kj\u00e6rsgaard e o Partido Popular Dinamarqu\u00eas.' <em>Padr\u00f5es de Preconceito<\/em> 49:1-2, 81-102; Dorit Geva. 2020a. 'A double-headed hydra: Marine Le Pen's charisma, between political masculinity and political femininity.<em>' NORMA<\/em>, 15:1, 26-42, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/18902138.2019.1701787\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/doi.org\/10.1080\/18902138.2019.1701787<\/a>.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-22\">22<\/a> <code>Nonna Mayer. 2022. 'O impacto do g\u00e9nero nos votos para as direitas radicais populistas: Marine Le Pen vs. Eric Zemmour.' <em>Modern &amp; Contemporary France<\/em>, 30:4, 445-460, <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1080\/09639489.2022.2134328\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/doi.org\/10.1080\/09639489.2022.2134328<\/a>.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-23\">23<\/a> <code>Nonna Mayer. 2022. p.450.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-24\">24<\/a> <code>Francesca Scrinzi. 2014. 'Cuidando da Na\u00e7\u00e3o: Homens e Mulheres Activistas em Partidos Populistas de Direita Radical 2012-2014. Relat\u00f3rio final de pesquisa para o Conselho Europeu de Pesquisa. Relat\u00f3rio do projeto; Nonna Mayer. 2022. <\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-25\">25<\/a> <code>Francesca Scrinzi. 2014.; Nonna Mayer. 2022.<\/code><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/a-strong-woman\/#anchor-footnote-26\">26<\/a> <code>Cl\u00e9ment Guillou. 2022. \"Sur l'IVG, Marine Le Pen change de position et propose de constitutionnaliser la loi Veil.\" <em>Le Monde<\/em>, 23 de novembro, 2022.<\/code><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com uma imagem tradicionalmente maternal, mas anti-patriarcal, e defendendo um nacionalismo de linha dura e um conservadorismo cultural, ao mesmo tempo que encoraja o pluralismo e o liberalismo de g\u00e9nero, Marine Le Pen est\u00e1 a integrar a pol\u00edtica de extrema-direita em Fran\u00e7a e n\u00e3o s\u00f3.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4024,"parent":0,"template":"","tags":[],"displeu_category":[],"class_list":["post-18674","article","type-article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/article\/18674","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/article"}],"about":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4024"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18674"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18674"},{"taxonomy":"displeu_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/displeu_category?post=18674"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}