{"id":22413,"date":"2023-12-18T11:06:02","date_gmt":"2023-12-18T10:06:02","guid":{"rendered":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/?post_type=article&#038;p=22413"},"modified":"2024-09-06T16:42:59","modified_gmt":"2024-09-06T14:42:59","slug":"contar-as-vitimas-invisiveis-das-fronteiras-da-ue-em-espanha","status":"publish","type":"article","link":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/article\/contar-as-vitimas-invisiveis-das-fronteiras-da-ue-em-espanha\/","title":{"rendered":"Contar as v\u00edtimas invis\u00edveis das fronteiras da UE em Espanha"},"content":{"rendered":"\n<p>Em janeiro de 2020, Alhassane Bangoura foi sepultado numa campa sem identifica\u00e7\u00e3o na zona mu\u00e7ulmana do cemit\u00e9rio municipal de Teguise, em Lanzarote, enquanto funcion\u00e1rios municipais e membros da comunidade mu\u00e7ulmana local assistiam. Nascera apenas duas semanas antes, a bordo de uma embarca\u00e7\u00e3o <em>patera<\/em> de migrantes, na qual a sua m\u00e3e, origin\u00e1ria da Guin\u00e9, e mais 42 pessoas tentavam chegar \u00e0s Ilhas Can\u00e1rias espanholas. O seu barco estava \u00e0 deriva no oceano Atl\u00e2ntico, depois de o motor ter falhado dois dias antes, e a m\u00e3e de Alhassane tinha entrado em trabalho de parto no mar. O seu filho viveu apenas algumas horas antes de morrer ao largo da costa de Lanzarote.<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><em>O caso de Alhassane chocou a ilha e foi not\u00edcia a n\u00edvel nacional. No entanto, enquanto as pessoas prestavam homenagem, a sua m\u00e3e estava a 200 quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia, num centro de acolhimento de imigrantes na ilha vizinha de Gran Canaria, por n\u00e3o ter conseguido autoriza\u00e7\u00e3o das autoridades para permanecer em Lanzarote para o funeral.<\/em><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n<p>&#8220;Ela foi autorizada a ver o corpo do filho mais uma vez antes de ser transferida e eu acompanhei-a \u00e0 ag\u00eancia funer\u00e1ria&#8221;, conta Mamadou Sy, um representante da comunidade mu\u00e7ulmana local. &#8220;Foi muito emocionante quando ela estava a sair. Tudo o que pod\u00edamos fazer era prometer-lhe que o seu filho n\u00e3o estaria sozinho; que, como qualquer mu\u00e7ulmano, seria levado para a mesquita onde o seu corpo seria lavado por outras m\u00e3es; que rezar\u00edamos por ele e que depois lhe enviar\u00edamos um v\u00eddeo do enterro.&#8221;  <\/p>\n\n<p>Quase quatro anos depois, o local de descanso final de Alhassane continua sem uma l\u00e1pide formal. Encontra-se ao lado de mais de tr\u00eas dezenas de sepulturas de migrantes n\u00e3o identificados &#8211; cujos nomes s\u00e3o completamente desconhecidos mas que, tal como Alhassane, s\u00e3o tamb\u00e9m v\u00edtimas do brutal regime de fronteiras da Europa.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"968\" height=\"642\" src=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Screenshot-2024-02-05-at-10.28.29-968x642.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22918\" srcset=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Screenshot-2024-02-05-at-10.28.29-968x642.jpeg 968w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Screenshot-2024-02-05-at-10.28.29-341x226.jpeg 341w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Screenshot-2024-02-05-at-10.28.29-768x509.jpeg 768w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Screenshot-2024-02-05-at-10.28.29.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 968px) 100vw, 968px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A sepultura do beb\u00e9 Alhassane Bang, no cemit\u00e9rio de Teguise, Lanzarote. Foto: Gerson D\u00edaz<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Sepulturas fronteiri\u00e7as<\/h3>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Victims-of-the-straight-of-Gibraltar-handwritten-on-a-tomb-in-Barbate-Cemetery-Cadiz-&#xA9;-Leah-Pattem-scaled-1-970x642.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22940\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">&#8220;V\u00edtimas da reta [of Gibraltar]&#8221; escrito \u00e0 m\u00e3o num t\u00famulo no cemit\u00e9rio de Barbate, C\u00e1dis.  <br\/>Foto: Leah Pattem<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Esta cena n\u00e3o \u00e9 uma anomalia ao longo da vasta costa espanhola. Estas sepulturas fronteiri\u00e7as podem ser encontradas em cemit\u00e9rios que se estendem de Alicante, na costa mediterr\u00e2nica oriental do pa\u00eds, a C\u00e1dis, na costa atl\u00e2ntica, e a sul, at\u00e9 \u00e0s Can\u00e1rias. Algumas t\u00eam nomes mas, na maior parte das vezes, a inscri\u00e7\u00e3o diz algo como &#8220;migrante n\u00e3o identificado&#8221;, &#8220;marroquino desconhecido&#8221; ou &#8220;v\u00edtima do Estreito [of Gibraltar]&#8221;, ou simplesmente uma cruz pintada \u00e0 m\u00e3o.  <\/p>\n\n<p>No cemit\u00e9rio de Barbate, em C\u00e1dis, onde os defuntos s\u00e3o selados em nichos nas tradicionais pilhas de paredes de tijolo com cerca de dois metros de altura, o jardineiro Germ\u00e1n aponta mais de 30 sepulturas diferentes de migrantes, as mais antigas das quais datam de 2002 e as mais recentes s\u00e3o de um naufr\u00e1gio em 2019.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Two-tombs-marked-_Immigrant-of-Morocco_-on-the-top-row-of-a-burial-stack-in-Tarifa-cemetery-&#xA9;-Leah-Pattem-1536x1021-1-966x642.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22958\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Dois t\u00famulos com a inscri\u00e7\u00e3o &#8220;Imigrante de Marrocos&#8221; na fila superior de uma pilha de enterramentos no cemit\u00e9rio de Tarifa.  <br\/>Foto: Leah Pattem<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><em>&#8220;Nunca ningu\u00e9m vem visitar-nos, mas nos dias em que h\u00e1 aqui funerais e as flores est\u00e3o prestes a ser deitadas fora, eu coloco-as nos t\u00famulos onde est\u00e3o os emigrantes desconhecidos&#8221;, explica. &#8220;Nalgumas das sepulturas mais antigas, temos os restos mortais de cinco ou seis imigrantes juntos, cada um colocado em sacos separados dentro do mesmo nicho para poupar espa\u00e7o&#8221;.<\/em><\/p><\/blockquote><\/figure>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/A-mass-grave-in-Tarifa-cemetery-containing-23-unidentified-migrants-3-&#xA9;-Tina-Xu-1536x861-1-1024x574.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22975\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Dois t\u00famulos com a inscri\u00e7\u00e3o &#8220;Imigrante de Marrocos&#8221; na fila superior de uma pilha de enterramentos no cemit\u00e9rio de Tarifa.  <br\/>Fotografia: Tina Xu<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Ao longo da costa, em Tarifa, a mais antiga vala comum espanhola de migrantes n\u00e3o identificados, com 11 v\u00edtimas de um naufr\u00e1gio em 1988, tem vista para o norte do continente africano, que pode ser visto num dia claro. Entretanto, a cerca de 400 quil\u00f3metros a oeste da costa africana, na remota ilha can\u00e1ria de El Hierro, sete migrantes n\u00e3o identificados foram enterrados nos \u00faltimos dois meses, juntamente com os restos mortais de Mamadou Marea, de 30 anos. &#8220;Os habitantes locais juntaram-se a n\u00f3s para acompanhar os restos mortais de cada uma destas pessoas at\u00e9 \u00e0 sua \u00faltima morada&#8221;, explica Amado Carballo, conselheiro de El Hierro. &#8220;O que nos perturbou a todos foi o facto de n\u00e3o podermos colocar um nome na l\u00e1pide e termos simplesmente de deixar a pessoa identificada por um c\u00f3digo policial.&#8221;<\/p>\n\n<p>Esta preocupa\u00e7\u00e3o foi menos evidente em Arrecife, Lanzarote, onde duas sepulturas n\u00e3o identificadas de fevereiro deste ano foram deixadas seladas com uma cobertura que ainda tem o log\u00f3tipo de uma empresa.<\/p>\n\n<p>N\u00e3o existem dados exaustivos sobre o n\u00famero de sepulturas identificadas e n\u00e3o identificadas de migrantes em Espanha e o Minist\u00e9rio do Interior nunca divulgou n\u00fameros sobre o n\u00famero total de corpos recuperados nas v\u00e1rias rotas de migra\u00e7\u00e3o mar\u00edtima. Mas, com base em dados exclusivos do Comit\u00e9 Internacional da Cruz Vermelha (CICV), o <em>Unbias The News <\/em>revela que, entre 2014 e 2021, foram recuperados os corpos de cerca de 530 pessoas que morreram nas fronteiras de Espanha, das quais 292 continuam por identificar.  <\/p>\n\n<p>Durante a investiga\u00e7\u00e3o de seis meses sobre as sepulturas fronteiri\u00e7as, realizada em conjunto com a <em>Unbias the News<\/em>, o <em>The Guardian<\/em> e o <em>S\u00fcddeutsche Zeitung<\/em>, foram confirmadas 109 sepulturas n\u00e3o identificadas de migrantes entre 2014 e 21 em Espanha, em 18 locais. De acordo com um estudo da <a href=\"https:\/\/www.borderdeaths.org\/\">Universidade de Amesterd\u00e3o<\/a>, existem ainda 434 sepulturas n\u00e3o identificadas, entre 2000 e 2013, em pelo menos 65 cemit\u00e9rios.  <\/p>\n\n<p>Estas sepulturas s\u00e3o s\u00edmbolos de uma trag\u00e9dia humanit\u00e1ria muito mais vasta. O CICV estima que apenas 6,89% das pessoas desaparecidas nas fronteiras da Europa s\u00e3o encontradas, enquanto a ONG espanhola Walking Borders apresenta uma percentagem ainda mais elevada  <a href=\"https:\/\/www.congreso.es\/public_oficiales\/L14\/CONG\/BOCG\/D\/BOCG-14-D-256.PDF\">valor inferior<\/a>  para a rota do Atl\u00e2ntico da \u00c1frica Ocidental para as Can\u00e1rias, estimando que apenas 4,2% dos corpos dos que morrem s\u00e3o recuperados.  <\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/An-unmarked-tomb-in-the-cemetery-of-Arrecife-Lanzarote-with-the-corporate-branding-of-the-sheathing-board-company-still-exposed-&#xA9;-Gerson-Diaz-1536x1024-1-963x642.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-22992\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Uma sepultura n\u00e3o identificada no cemit\u00e9rio de Arrecife, Lanzarote, com a marca da empresa de placas de revestimento ainda exposta. Foto: Gerson D\u00edaz<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Garantir os &#8220;\u00faltimos direitos&#8221;<\/h3>\n\n<p>As sepulturas n\u00e3o visitadas e an\u00f3nimas s\u00e3o tamb\u00e9m um reflexo do facto de os direitos \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o e a um enterro digno para as pessoas que morreram nas rotas migrat\u00f3rias terem sido constantemente negligenciados pelas autoridades nacionais em Espanha. Tal como noutros pa\u00edses europeus, os sucessivos governos espanh\u00f3is n\u00e3o desenvolveram mecanismos legais e protocolos estatais que garantam estes &#8220;<a href=\"http:\/\/www.lastrights.net\/\">\u00faltimos direitos<\/a>&#8221; das v\u00edtimas, bem como o correspondente &#8220;direito de saber&#8221; e de fazer o luto dos seus entes queridos por parte das suas fam\u00edlias.  <\/p>\n\n<p>O problema \u00e9 &#8220;totalmente negligenciado&#8221;, diz Dunja Mijatovi\u0107, Comiss\u00e1ria para os Direitos Humanos do Conselho da Europa, que insiste que os pa\u00edses da UE n\u00e3o est\u00e3o a cumprir as suas obriga\u00e7\u00f5es ao abrigo do direito internacional dos direitos humanos para garantir o &#8220;direito \u00e0 verdade&#8221; das fam\u00edlias. Em 2021, o Parlamento Europeu aprovou uma resolu\u00e7\u00e3o que apela a &#8220;processos de identifica\u00e7\u00e3o r\u00e1pidos e eficazes&#8221; para informar as fam\u00edlias sobre o destino dos seus entes queridos. No entanto, no ano passado, o Conselho da Europa classificou a zona como um &#8220;vazio legislativo&#8221;.<\/p>\n\n<p>&#8220;As pessoas est\u00e3o sempre a ligar para o escrit\u00f3rio e a perguntar-nos como procurar um familiar, mas temos de ser honestos e dizer que n\u00e3o h\u00e1 um canal oficial claro a que possam recorrer&#8221;, explica Juan Carlos Lorenzo, diretor do Conselho Espanhol para os Refugiados (CEAR) nas Ilhas Can\u00e1rias. &#8220;\u00c9 poss\u00edvel p\u00f4-los em contacto com a Cruz Vermelha, mas n\u00e3o existe um programa governamental de identifica\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o existe o tipo de gabinete espec\u00edfico necess\u00e1rio para coordenar com as fam\u00edlias e centralizar a informa\u00e7\u00e3o e os dados sobre os imigrantes desaparecidos.&#8221;<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><em>S\u00f3 este ano estamos a trabalhar com mais de 600 fam\u00edlias cujos entes queridos desapareceram. Estas fam\u00edlias, oriundas de Marrocos, da Arg\u00e9lia, do Senegal, da Guin\u00e9 e de pa\u00edses t\u00e3o long\u00ednquos como o Sri Lanka, est\u00e3o muito s\u00f3s e s\u00e3o mal protegidas pelas administra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Por sua vez, isto significa que existem redes criminosas e fraudulentas que procuram sacar-lhes dinheiro&#8221;.<\/em><\/p><cite>Helena Maleno, directora de Walking Borders<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n<p>Mesmo no caso de identifica\u00e7\u00e3o de uma v\u00edtima, um relat\u00f3rio recente da Associa\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos da Andaluzia descreve as barreiras legais e financeiras que as fam\u00edlias enfrentam para repatriar os seus entes queridos. Em 2020\/21, os n\u00fameros do CICV mostram que foram recuperados 284 corpos, mas que, dos 116 identificados, apenas 53 foram repatriados. O relat\u00f3rio da Associa\u00e7\u00e3o Andaluza dos Direitos do Homem (APDHA) refere tamb\u00e9m, no que respeita \u00e0s sepulturas fronteiri\u00e7as, que &#8220;muitas pessoas acabam por ser enterradas de uma forma contr\u00e1ria \u00e0s suas cren\u00e7as&#8221;. Apenas metade das 50 prov\u00edncias de Espanha tem cemit\u00e9rios mu\u00e7ulmanos, nem todos situados na costa espanhola.<\/p>\n\n<p>Para Maleno, estas falhas do Estado n\u00e3o s\u00e3o um acaso: &#8220;A Espanha e outros Estados europeus t\u00eam uma pol\u00edtica de invisibilidade das v\u00edtimas e da pr\u00f3pria fronteira. H\u00e1 pol\u00edticas de nega\u00e7\u00e3o do n\u00famero de mortos e de oculta\u00e7\u00e3o de dados, mas para as fam\u00edlias isso significa obst\u00e1culos em termos de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e aos direitos de enterro, bem como obst\u00e1culos burocr\u00e1ticos intermin\u00e1veis&#8221;.<\/p>\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">&#8220;Sonho com Oussama&#8221;<\/h3>\n\n<p>Abdallah Tayeb experimentou em primeira m\u00e3o a disfuncionalidade do sistema espanhol nas suas tentativas de confirmar se um corpo recuperado h\u00e1 quase um ano \u00e9 o do seu primo Oussama, um jovem barbeiro da Arg\u00e9lia que sonhava juntar-se a Tayeb em Fran\u00e7a.  <\/p>\n\n<p>O cad\u00e1ver sem nome, que Tayeb acredita firmemente ser seu primo, est\u00e1 atualmente numa morgue em Almer\u00eda e parece que vai ser enterrado numa sepultura sem identifica\u00e7\u00e3o no novo ano &#8211; a n\u00e3o ser que ele consiga um avan\u00e7o de \u00faltima hora.<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><em>&#8220;O sentimento \u00e9 de impot\u00eancia&#8221;, admite. &#8220;Nada \u00e9 transparente.&#8221;<\/em><\/p><\/blockquote><\/figure>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"506\" src=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Screenshot-2024-02-05-at-10.53.22-1024x506.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-23009\" srcset=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Screenshot-2024-02-05-at-10.53.22-1024x506.jpeg 1024w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Screenshot-2024-02-05-at-10.53.22-360x178.jpeg 360w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Screenshot-2024-02-05-at-10.53.22-768x380.jpeg 768w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Screenshot-2024-02-05-at-10.53.22.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Esquerda: Oussama, primo desaparecido de Abdallah, observa o Mar Mediterr\u00e2neo a partir da sua cidade natal na Arg\u00e9lia \/ Direita: Oussama e Abdallah juntos na Arg\u00e9lia. Foto: Abdallah Tayeb<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Abdallah Tayeb nasceu em Paris, filho de pais argelinos, mas passa todos os ver\u00f5es na Arg\u00e9lia com a sua fam\u00edlia. &#8220;Como eu e o Oussama t\u00ednhamos praticamente a mesma idade, \u00e9ramos muito pr\u00f3ximos. Estava obcecado com a ideia de vir para a Europa, pois dois dos seus irm\u00e3os j\u00e1 viviam em Fran\u00e7a. Mas eu n\u00e3o sabia que ele tinha realmente combinado partir numa <em>patera<\/em> em dezembro passado&#8221;.<\/p>\n\n<p>Oussama estava entre as 23 pessoas (incluindo sete crian\u00e7as) que desapareceram depois de terem partido de Mostaganem, na Arg\u00e9lia<strong>, <\/strong>num barco a motor no dia de Natal de 2022. Pouco depois do desaparecimento da patera, o seu irm\u00e3o Sofiane viajou de Fran\u00e7a para Cartagena, no sul de Espanha &#8211; o destino que o navio esperava alcan\u00e7ar. Com a ajuda da Cruz Vermelha, Sofiane conseguiu apresentar uma queixa de desaparecimento junto das autoridades espanholas e submeter uma amostra de ADN, que espera que corresponda a um corpo que se encontra numa morgue. No entanto, at\u00e9 \u00e0 data, n\u00e3o conseguiu obter qualquer informa\u00e7\u00e3o concreta sobre o destino do seu irm\u00e3o.  <\/p>\n\n<p>No entanto, uma segunda viagem a Espanha, em fevereiro, conduziu a um avan\u00e7o. Depois de percorrerem juntos a costa mediterr\u00e2nica, Tayeb e o seu primo Sofiane conseguiram falar com um patologista forense que trabalhava na morgue de Almeria e que pareceu reconhecer uma fotografia de Oussama. &#8220;Ela estava sempre a dizer &#8216;Esta cara parece-me familiar&#8217; e tamb\u00e9m mencionou um colar &#8211; algo que ele estava a usar quando saiu.&#8221; De acordo com o patologista, havia uma correspond\u00eancia potencial com um corpo n\u00e3o identificado recuperado pela guarda costeira em 27 de dezembro de 2022.  <\/p>\n\n<p>Sentindo que estavam finalmente perto de obter algumas respostas, foram informados na sede da pol\u00edcia em Almeria que, para poderem ver o corpo para uma identifica\u00e7\u00e3o visual, precisariam de autoriza\u00e7\u00e3o da esquadra de pol\u00edcia onde o cad\u00e1ver tinha sido inicialmente registado. &#8220;Foi a\u00ed que come\u00e7ou o verdadeiro pesadelo&#8221;, recorda Tayeb. Com uma lista de cinco esquadras de pol\u00edcia de toda a regi\u00e3o onde o cad\u00e1ver poderia ter sido registado, passaram os dois dias seguintes a conduzir de esquadra em esquadra ao longo da costa de M\u00farcia.<\/p>\n\n<p>&#8220;A primeira esquadra que visit\u00e1mos nem sequer nos deixou entrar quando lhes dissemos que est\u00e1vamos a perguntar por um migrante desaparecido e, depois disso, foi sempre o mesmo gui\u00e3o: este n\u00e3o \u00e9 o s\u00edtio certo; n\u00e3o temos um corpo; t\u00eam de ir l\u00e1&#8221;. Quando a dupla regressou \u00e0 primeira esquadra em Hu\u00e9rcal de Almeria, depois de lhes ter sido repetidamente dito que era o local certo para perguntar, os impacientes agentes recusaram-se a entrar em contacto, invocando leis de privacidade, e at\u00e9 lhes disseram para avisar outras fam\u00edlias que procuravam migrantes desaparecidos para n\u00e3o continuarem a vir fazer perguntas.<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><em>&#8220;No final&#8221;, explica Tayeb, &#8220;cheg\u00e1mos \u00e0 conclus\u00e3o de que eles nunca nos deixar\u00e3o obter qualquer informa\u00e7\u00e3o. Foi muito doloroso, sobretudo regressar a Fran\u00e7a. Parecia que o est\u00e1vamos a deixar [there] no frigor\u00edfico&#8221;.<\/em><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n<p>\u00c0 medida que os meses seguintes passavam, a frustra\u00e7\u00e3o e a ansiedade aumentavam para a fam\u00edlia. &#8220;Em maio, fomos informados de que a amostra de ADN que t\u00ednhamos dado cinco meses antes s\u00f3 agora tinha chegado a Madrid e ainda n\u00e3o tinha sido processada e enviada para a base de dados&#8221;. N\u00e3o foram dadas mais informa\u00e7\u00f5es e as autoridades espanholas t\u00eam a pol\u00edtica de s\u00f3 entrar em contacto com as fam\u00edlias quando h\u00e1 uma correspond\u00eancia positiva e n\u00e3o quando o teste d\u00e1 negativo.<\/p>\n\n<p>Tayeb est\u00e1 a ponderar uma \u00faltima visita a Espanha para tentar recuperar o seu primo Oussama, em parte para ter a certeza, para seu pr\u00f3prio bem, de que fez tudo o que estava ao seu alcance para o encontrar, mas receia que a viagem possa reabrir o seu trauma de perda amb\u00edgua. &#8220;O esfor\u00e7o de ir n\u00e3o \u00e9 doloroso, mas o que \u00e9 doloroso \u00e9 voltar sem nada&#8221;, diz. &#8220;Esta falta de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 a pior coisa.&#8221;<\/p>\n\n<p>&#8220;Todas as pessoas a bordo eram do mesmo bairro em Mostaganem. Tive a oportunidade de falar com muitas das suas fam\u00edlias, e elas est\u00e3o destru\u00eddas. A dor \u00e9 grande, mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 respostas. H\u00e1 apenas rumores, e algumas m\u00e3es acreditam que os seus filhos est\u00e3o em pris\u00f5es em Marrocos e em Espanha. Todos n\u00f3s temos sonhos [about the missing]. No final, confia no que ver\u00e1 nos seus sonhos, como se a realidade c\u00f3smica lhe dissesse que ele est\u00e1 a chegar. Sonho com Oussama&#8221;.<\/p>\n\n<p>A Dra. Pauline Boss, professora em\u00e9rita de psicologia na Universidade de Minnesota, EUA, explica o conceito de perda amb\u00edgua: &#8220;Parece-se com um luto complicado, pensamentos intrusivos&#8221;, diz ela. &#8220;N\u00e3o se pensa em mais nada a n\u00e3o ser no facto de o ente querido estar desaparecido. N\u00e3o podemos ficar de luto porque isso significaria que a pessoa est\u00e1 morta, e n\u00e3o temos a certeza.&#8221;<\/p>\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Um sistema defeituoso<\/h3>\n\n<p>De todas as fam\u00edlias dos desaparecidos na <em>patera <\/em>de Oussama <em>, <\/em>apenas Tayeb e quatro outras fam\u00edlias conseguiram apresentar uma queixa de desaparecimento \u00e0s autoridades espanholas e apenas duas conseguiram fornecer uma amostra de ADN. <a href=\"https:\/\/publications.iom.int\/books\/families-missing-migrants-spaintheir-search-answers-impacts-loss-and-recommendations-improved\">De acordo com um estudo de 2021<\/a>  da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es (OIM), uma das maiores complica\u00e7\u00f5es com que as fam\u00edlias se deparam nas suas buscas \u00e9 que, para registar algu\u00e9m como desaparecido em Espanha, \u00e9 necess\u00e1rio apresentar queixa na pol\u00edcia do pr\u00f3prio pa\u00eds, o que para muitas fam\u00edlias \u00e9 &#8220;uma fa\u00e7anha praticamente imposs\u00edvel&#8221;, uma vez que n\u00e3o existem vistos para viajar com esse objetivo.  <\/p>\n\n<p>O relat\u00f3rio da OIM refere tamb\u00e9m que, embora muitas fam\u00edlias apresentem queixas de pessoas desaparecidas nos seus pa\u00edses de origem, est\u00e3o &#8220;conscientes da natureza quase simb\u00f3lica dos seus esfor\u00e7os&#8221; e de que &#8220;nunca resultar\u00e3o em qualquer tipo de investiga\u00e7\u00e3o em Espanha&#8221;.<\/p>\n\n<p>Juntamente com a OIM, as ONG nacionais, incluindo a APDHA e mais de uma centena de organiza\u00e7\u00f5es de base, t\u00eam envidado esfor\u00e7os no sentido de chamar a aten\u00e7\u00e3o para o facto de a Espanha n\u00e3o ter adaptado os procedimentos existentes em mat\u00e9ria de pessoas desaparecidas aos desafios transnacionais dos casos de pessoas que desapareceram durante a migra\u00e7\u00e3o. Estas organiza\u00e7\u00f5es t\u00eam defendido repetidamente que o quadro jur\u00eddico do pa\u00eds relativo \u00e0s pessoas desaparecidas deve ser adaptado para garantir que as fam\u00edlias possam apresentar casos de pessoas desaparecidas a partir do estrangeiro.  <\/p>\n\n<p>Tamb\u00e9m insistiram no desenvolvimento de protocolos espec\u00edficos para a pol\u00edcia lidar com casos de migrantes desaparecidos, bem como na cria\u00e7\u00e3o de uma base de dados de migrantes desaparecidos, de modo a centralizar a informa\u00e7\u00e3o e permitir o seu interc\u00e2mbio com as autoridades de outros pa\u00edses. Este \u00faltimo incluiria uma gama completa de dados post-mortem (desde tatuagens a ADN, passando por inspec\u00e7\u00f5es cadav\u00e9ricas e aut\u00f3psias) e informa\u00e7\u00f5es m\u00e9dico-forenses antemortem, ou seja, as que prov\u00eam de familiares sobre a pessoa desaparecida.<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><em>&#8220;A realidade \u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o em toda a Europa \u00e9 consistentemente m\u00e1&#8221;, explica Julia Black, analista do Projeto de Migrantes Desaparecidos da OIM. &#8220;Apesar da nossa investiga\u00e7\u00e3o que mostra estas necessidades prementes das fam\u00edlias, nem a Espanha nem qualquer outro pa\u00eds europeu alterou significativamente as pol\u00edticas ou pr\u00e1ticas para ajudar este grupo negligenciado [in recent years]. O apoio \u00e0s fam\u00edlias s\u00f3 est\u00e1 dispon\u00edvel numa base muito ad hoc, principalmente em resposta a eventos com v\u00edtimas em massa que s\u00e3o do conhecimento p\u00fablico, o que deixa muitos milhares de pessoas sem um apoio significativo&#8221;.<\/em><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n<p>Actores n\u00e3o estatais, como a Cruz Vermelha e a Walking Borders, bem como uma rede de activistas independentes, tentam preencher este vazio. &#8220;\u00c9 um trabalho terr\u00edvel que n\u00e3o dever\u00edamos estar a fazer, porque os Estados deveriam estar a responder \u00e0s fam\u00edlias e a garantir os direitos das v\u00edtimas al\u00e9m-fronteiras&#8221;, explica Maleno. No caso da <em>patera<\/em> de Mostaganem, a Walking Borders planeia visitar a Arg\u00e9lia no pr\u00f3ximo ano para recolher amostras de ADN dos membros da fam\u00edlia e traz\u00ea-las para Espanha. Mas Maleno tamb\u00e9m reconhece que a sua ONG tem muitas vezes de &#8220;exercer muita press\u00e3o&#8221; para que as autoridades aceitem estas amostras.  <\/p>\n\n<p>\u00c9 o que confirma o deputado de esquerda Jon I\u00f1arritu, do partido basco EH Bildu: &#8220;Como fa\u00e7o parte da Comiss\u00e3o do Interior do Parlamento espanhol, tive de intervir em v\u00e1rias ocasi\u00f5es para ajudar as fam\u00edlias que pretendiam registar amostras de ADN, falando com o Minist\u00e9rio dos Neg\u00f3cios Estrangeiros ou com o Minist\u00e9rio do Interior para que aceitassem as amostras. Mas n\u00e3o deveria ser necess\u00e1ria a a\u00e7\u00e3o de um deputado para que isso acontecesse. Todo o processo deve ser normalizado com protocolos claros e autom\u00e1ticos [for submission]. Neste momento, n\u00e3o h\u00e1 uma forma clara de o fazer&#8221;.<\/p>\n\n<p>Mesmo quando as recomenda\u00e7\u00f5es da OIM se tornaram objeto de debate parlamentar em Espanha, a tend\u00eancia foi para n\u00e3o se traduzirem em ac\u00e7\u00f5es governamentais. Em 2021, por exemplo, o Congresso espanhol aprovou<a href=\"https:\/\/www.congreso.es\/public_oficiales\/L14\/CONG\/BOCG\/D\/BOCG-14-D-256.PDF\"> uma resolu\u00e7\u00e3o<\/a> que instava o governo a criar um gabinete estatal espec\u00edfico para as fam\u00edlias dos migrantes desaparecidos. &#8220;\u00c9 evidente que temos de aliviar as dificuldades administrativas e burocr\u00e1ticas das fam\u00edlias, oferecendo-lhes um ponto de contacto \u00fanico [with state authorities]&#8221;, explica I\u00f1arritu, que patrocinou a proposta.  <\/p>\n\n<p>No entanto, apesar de at\u00e9 os partidos do governo terem votado a favor da resolu\u00e7\u00e3o, a atual administra\u00e7\u00e3o de centro-esquerda do pa\u00eds n\u00e3o conseguiu atuar nos 18 meses que se seguiram. &#8220;Do meu ponto de vista, o governo n\u00e3o tem qualquer inten\u00e7\u00e3o de implementar a proposta&#8221;, defende I\u00f1arritu. &#8220;Estavam apenas a oferecer um apoio simb\u00f3lico&#8221;.  <\/p>\n\n<p>Quando estas quest\u00f5es foram colocadas ao Minist\u00e9rio do Interior de Espanha, a resposta foi que: &#8220;O tratamento dos cad\u00e1veres n\u00e3o identificados que chegam \u00e0 costa espanhola \u00e9 id\u00eantico ao de qualquer outro cad\u00e1ver. Em Espanha, para a identifica\u00e7\u00e3o dos cad\u00e1veres, os servi\u00e7os de pol\u00edcia aplicam o Guia de Identifica\u00e7\u00e3o de V\u00edtimas de Cat\u00e1strofes da INTERPOL. Embora este guia seja especialmente indicado para eventos com m\u00faltiplas v\u00edtimas, tamb\u00e9m \u00e9 utilizado como refer\u00eancia para a identifica\u00e7\u00e3o de um cad\u00e1ver isolado.&#8221;<\/p>\n\n<p>As ONG e os activistas insistem, contudo, que a aplica\u00e7\u00e3o do guia da INTERPOL n\u00e3o substitui um protocolo espec\u00edfico adaptado \u00e0s exig\u00eancias dos casos de migrantes desaparecidos ou a cria\u00e7\u00e3o de mecanismos espec\u00edficos que permitam o interc\u00e2mbio de informa\u00e7\u00f5es com as fam\u00edlias e as autoridades de outras jurisdi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n<p>As liga\u00e7\u00f5es estreitas com as pessoas que ajudaram compensam as interac\u00e7\u00f5es sociais tensas e o \u00f3dio em linha. &#8220;Chamam-me irm\u00e3o, irm\u00e3 e at\u00e9 pai&#8221;, partilha Rybak.<\/p>\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Direitos de enterro<\/h3>\n\n<p>O diretor de migra\u00e7\u00e3o da APDHA, Carlos Arce, argumenta que, num quadro europeu que v\u00ea a migra\u00e7\u00e3o irregular predominantemente &#8220;atrav\u00e9s do prisma da criminalidade grave e da seguran\u00e7a das fronteiras, [&#8230;] nem mesmo a morte ou o desaparecimento p\u00f5em fim ao ataque repetido \u00e0 dignidade das pessoas migrantes&#8221;. I\u00f1arritu chama tamb\u00e9m a aten\u00e7\u00e3o para o regime de fronteiras mais alargado da UE: &#8220;Muitas quest\u00f5es que n\u00e3o se enquadram neste quadro pol\u00edtico dominante, como o direito \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o geridas no dia a dia. Simplesmente n\u00e3o s\u00e3o uma prioridade&#8221;.<\/p>\n\n<p>Isto tamb\u00e9m \u00e9 claro no que diz respeito \u00e0 ina\u00e7\u00e3o do Governo espanhol em garantir um enterro digno \u00e0queles cujos corpos s\u00e3o recuperados. Como refere um relat\u00f3rio de 2023 da APDHA, &#8220;embora o repatriamento seja a op\u00e7\u00e3o mais desejada pelas fam\u00edlias [&#8230;,] o custo \u00e9 muito elevado (milhares de euros) e muito poucas das suas [home countries\u2019] embaixadas ajudam [to cover it].&#8221; A ONG recomenda que a Espanha estabele\u00e7a acordos de repatriamento com os pa\u00edses de origem dos migrantes, de modo a criar &#8220;passagens seguras mortu\u00e1rias&#8221; que garantam o seu regresso a um custo reduzido.<\/p>\n\n<p>Al\u00e9m disso, o governo central espanhol tamb\u00e9m n\u00e3o criou mecanismos para garantir o direito dos imigrantes n\u00e3o identificados a um enterro digno no pa\u00eds, mantendo, em vez disso, que as autarquias locais s\u00e3o respons\u00e1veis por todos os enterros de caridade. Isto significa que munic\u00edpios muito espec\u00edficos, onde est\u00e3o estacionados os barcos de salvamento da guarda costeira, s\u00e3o legalmente respons\u00e1veis pela maior parte dos enterramentos &#8211; e a maioria destes munic\u00edpios n\u00e3o tem cemit\u00e9rios locais capazes de acolher os enterramentos mu\u00e7ulmanos tradicionais.  <\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><em>A possibilidade de esta quest\u00e3o se tornar um ponto de inflama\u00e7\u00e3o do sentimento anti-imigra\u00e7\u00e3o ficou clara em setembro deste ano, quando a presidente da C\u00e2mara de Mog\u00e1n, na Gran Canaria, Onalia Bueno, insistiu que o seu munic\u00edpio deixaria de pagar esses enterros, porque n\u00e3o queria &#8220;diminuir os custos dos impostos dos meus vizinhos&#8221;.<\/em><\/p><\/blockquote><\/figure>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"574\" src=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Spain_Barbate_Ship-graveyard-1536x861-1-1024x574.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-23032\" srcset=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Spain_Barbate_Ship-graveyard-1536x861-1-1024x574.jpg 1024w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Spain_Barbate_Ship-graveyard-1536x861-1-360x202.jpg 360w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Spain_Barbate_Ship-graveyard-1536x861-1-768x431.jpg 768w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/Spain_Barbate_Ship-graveyard-1536x861-1.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Pequenos barcos de madeira (pateras) utilizados pelos migrantes que atravessavam do continente africano para Espanha est\u00e3o abandonados num cemit\u00e9rio de barcos em Barbate, C\u00e1dis. Fotografia: Tina Xu<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Juan Carlos Lorenzo, do CEAR, condena esta &#8220;linguagem divisiva, que coloca a quest\u00e3o em termos de desperdi\u00e7ar o dinheiro dos meus &#8216;vizinhos&#8217; com algu\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 um vizinho&#8221; e aponta as ac\u00e7\u00f5es dos munic\u00edpios de El Hierro como um contra-exemplo positivo.  <\/p>\n\n<p>Carballo refere que &#8220;mais de 10.000 pessoas chegaram a El Hierro desde setembro, o mesmo que a popula\u00e7\u00e3o da ilha. S\u00e3o viagens bastante longas, entre seis e nove dias no mar, e neste momento as pessoas est\u00e3o a chegar em p\u00e9ssimo estado de sa\u00fade. Relativamente aos que faleceram nos \u00faltimos meses, tent\u00e1mos oferecer-lhes um enterro digno, dentro dos meios de que dispomos. Tivemos um im\u00e3 presente, com ora\u00e7\u00f5es isl\u00e2micas antes de os restos mortais serem enterrados&#8221;.  <\/p>\n\n<p>Atualmente, a responsabilidade pela homenagem \u00e0s v\u00edtimas n\u00e3o identificadas cabe \u00e0s autarquias e at\u00e9 aos respons\u00e1veis pelos cemit\u00e9rios. Tal como G\u00e9rman, no cemit\u00e9rio de Barbate, que tenta dignificar os t\u00famulos n\u00e3o marcados colocando-lhes flores em cima, o cemit\u00e9rio de Motril ornamentou os t\u00famulos com poemas. Em Teguise, o munic\u00edpio tem uma iniciativa que incentiva os habitantes locais a deixarem flores nas campas dos imigrantes quando v\u00eam visitar os restos mortais das suas pr\u00f3prias fam\u00edlias.<\/p>\n\n<p>Noutro memorial, uma cole\u00e7\u00e3o de cerca de 50 barcos de pesca descartados tornou-se uma carater\u00edstica distintiva do porto de Barbate. Estas pequenas embarca\u00e7\u00f5es de madeira com escrita \u00e1rabe no casco eram utilizadas por migrantes que tentavam atravessar o Estreito de Gibraltar. Em vez de as embarca\u00e7\u00f5es serem desmanteladas, a APDHA conseguiu transformar o ferro-velho num local de mem\u00f3ria e colocar placas nas embarca\u00e7\u00f5es indicando quantos migrantes viajavam nelas e onde e quando foram encontradas.  <\/p>\n\n<p>No caso do pequeno Alhassane Bangoura, os habitantes v\u00eam habitualmente deixar flores frescas e sinais de afeto, entre os quais uma pequena ta\u00e7a de granito com o seu primeiro nome inscrito. Mas muitas v\u00edtimas s\u00e3o enterradas sem qualquer tentativa de identifica\u00e7\u00e3o &#8211; e, tal como exigem in\u00fameras ONG, pol\u00edticos e activistas, n\u00e3o deve ser simplesmente deixado aos residentes de boa vontade, aos guardas das sepulturas ou aos conselheiros locais garantir os \u00faltimos direitos das v\u00edtimas da Fortaleza Europa.<\/p>\n\n<p><strong>\u201cThis article is part of the 1000 Lives, 0 Names: Border Graves investigation, how the EU is failing migrants\u2019 last rights\u201d<\/strong><\/p>\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Sobre os autores:<\/h3>\n\n<p><strong>Eoghan Gilmartin<\/strong> \u00e9 um jornalista freelancer cujo trabalho foi publicado na Jacobin Magazine, The Guardian, Tribune e Open Democracy.<\/p>\n\n<p><strong>Leah Pattem<\/strong> \u00e9 uma jornalista multim\u00e9dia brit\u00e2nica\/indiana que vive em Espanha. \u00c9 tamb\u00e9m a fundadora e editora do Madrid No Frills, uma plataforma independente de base para as hist\u00f3rias e imagens que definem a Madrid atual.<\/p>\n\n<p><em>Editado por Tina Lee<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A investiga\u00e7\u00e3o revela que centenas de v\u00edtimas da migra\u00e7\u00e3o para a UE jazem em sepulturas n\u00e3o identificadas ao longo das fronteiras de Espanha, sem que o governo tome medidas coordenadas para garantir os &#8220;\u00faltimos direitos&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21595,"parent":0,"template":"","tags":[],"displeu_category":[],"class_list":["post-22413","article","type-article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/article\/22413","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/article"}],"about":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21595"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22413"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22413"},{"taxonomy":"displeu_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/displeu_category?post=22413"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}