{"id":27760,"date":"2024-02-23T18:32:47","date_gmt":"2024-02-23T17:32:47","guid":{"rendered":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/?post_type=article&#038;p=27760"},"modified":"2024-09-06T16:38:04","modified_gmt":"2024-09-06T14:38:04","slug":"machinskaya-sobre-a-politica-de-migracao-do-governo-eram-grandes-as-nossas-expectativas","status":"publish","type":"article","link":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/article\/machinskaya-sobre-a-politica-de-migracao-do-governo-eram-grandes-as-nossas-expectativas\/","title":{"rendered":"Machinskaya sobre a pol\u00edtica de migra\u00e7\u00e3o do Governo: Eram grandes as nossas expectativas&#8230;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Katarzyna Przyborska: O governo mudou, mas a pol\u00edtica em mat\u00e9ria de migra\u00e7\u00e3o n\u00e3o mudou. O vice-ministro Maciej Duszczyk prometeu que as exporta\u00e7\u00f5es v\u00e3o continuar e acrescentou agora que ser\u00e1 constru\u00edda uma barragem ainda mais longa, na qual ser\u00e3o instalados os  <\/strong><a href=\"https:\/\/twitter.com\/MaciekDuszczyk\/status\/1753314952524235008\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\n  <strong>Iremos gastar 279 milh\u00f5es de<\/strong>\n<\/a><strong> PLN<\/strong><strong>. N\u00e3o promete dinheiro para funcion\u00e1rios p\u00fablicos, reeduca\u00e7\u00e3o de guardas fronteiri\u00e7os desmoralizados, m\u00e9dicos para tratar feridas e fracturas. Como \u00e9 que falamos de migra\u00e7\u00e3o para influenciar as pol\u00edticas de um governo do qual esper\u00e1vamos e ainda esperamos que os direitos humanos sejam respeitados?<\/strong><\/p>\n\n<p><strong>Hanna Machinska: <\/strong>As nossas expectativas eram grandes. Esper\u00e1vamos que, quando o governo assumisse o poder a 13 de dezembro, o Ministro do Interior dissesse: acabaram-se as deporta\u00e7\u00f5es. No entanto, faltou uma voz clara e firme por parte do governo.<\/p>\n\n<p><strong>Como \u00e9 que as organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos reagiram?  <\/strong><\/p>\n\n<p>Lan\u00e7\u00e1mos um apelo ao Primeiro-Ministro, no qual mais de 100 organiza\u00e7\u00f5es e centenas de indiv\u00edduos exigiam o fim das deporta\u00e7\u00f5es. Nos termos n\u00e3o s\u00f3 do direito internacional, mas tamb\u00e9m da Constitui\u00e7\u00e3o polaca, este \u00e9 um instrumento ilegal. Seja qual for o plano em que queiramos considerar a quest\u00e3o das deporta\u00e7\u00f5es: moral, pol\u00edtico ou jur\u00eddico, n\u00e3o h\u00e1 justifica\u00e7\u00e3o para continuar as pol\u00edticas opressivas do governo anterior.<\/p>\n\n<p><strong>Ser\u00e1 correto colocar em oposi\u00e7\u00e3o os direitos humanos e a seguran\u00e7a do Estado?<\/strong><\/p>\n\n<p>N\u00e3o. Este facto est\u00e1 consagrado no Tratado sobre o Funcionamento da Uni\u00e3o Europeia no artigo. 78, que estabelece a obriga\u00e7\u00e3o de respeitar o princ\u00edpio da <em>n\u00e3o repuls\u00e3o<\/em> e de assegurar que a pol\u00edtica de asilo seja coerente com a Conven\u00e7\u00e3o de Genebra relativa ao estatuto dos refugiados, bem como com outros tratados. A Carta dos Direitos Fundamentais, no seu artigo. 19 estabelece a proibi\u00e7\u00e3o de expuls\u00f5es colectivas e de afastamento de pessoas para um Estado onde exista o risco de tortura, pena de morte ou tratamento desumano. A jurisprud\u00eancia do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem reconhece igualmente, em v\u00e1rios ac\u00f3rd\u00e3os, incluindo os relativos \u00e0 Pol\u00f3nia, que as deporta\u00e7\u00f5es constituem uma viola\u00e7\u00e3o da Conven\u00e7\u00e3o Europeia dos Direitos do Homem.<\/p>\n\n<p>Outros tratados, como a Conven\u00e7\u00e3o de Istambul sobre a viol\u00eancia contra as mulheres e a viol\u00eancia dom\u00e9stica, obrigam os Estados a respeitar o princ\u00edpio da <em>n\u00e3o repuls\u00e3o<\/em>. Os ac\u00f3rd\u00e3os dos tribunais administrativos provinciais confirmam inequivocamente a linha jurisprudencial da CEDH e as disposi\u00e7\u00f5es de direito internacional mencionadas. Ao recorrermos \u00e0s deporta\u00e7\u00f5es, estamos a violar de forma flagrante o direito internacional, porque estamos a despejar pessoas no territ\u00f3rio de um pa\u00eds perigoso como a Bielorr\u00fassia. Isto \u00e9 bestialidade, privando-os do seu direito a um procedimento de prote\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n\n<p><strong>Quem s\u00e3o exatamente estas pessoas? Para onde est\u00e3o a migrar?  <\/strong><\/p>\n\n<p>Para al\u00e9m dos cidad\u00e3os da Bielorr\u00fassia e da R\u00fassia, em pequena medida cidad\u00e3os da Turquia, cidad\u00e3os de pa\u00edses africanos, do M\u00e9dio Oriente e do Afeganist\u00e3o t\u00eam atravessado a linha de fronteira desde 2021. Os cubanos tamb\u00e9m est\u00e3o a aparecer.<\/p>\n\n<p><strong>A Ministra Duszczyk distingue entre <\/strong><a href=\"https:\/\/krytykapolityczna.pl\/kraj\/elementy-humanitaryzmu-wciaz-jestesmy-zakladnikami-populistow\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\n  <strong>migra\u00e7\u00e3o natural e n\u00e3o natural<\/strong>\n<\/a><strong>. Considera pouco natural que pessoas de Cuba, do Congo, da Eritreia ou da Som\u00e1lia apare\u00e7am na fronteira entre a Pol\u00f3nia e a Bielorr\u00fassia. Ser\u00e1 que, neste momento, num mundo globalizado, estamos em condi\u00e7\u00f5es de dizer que qualquer migra\u00e7\u00e3o \u00e9 &#8220;n\u00e3o natural&#8221;?  <\/strong><\/p>\n\n<p>Esta divis\u00e3o \u00e9 bastante original e n\u00e3o tem qualquer fundamento. Deve mesmo dizer-se que a migra\u00e7\u00e3o, enquanto tal, \u00e9 um fen\u00f3meno natural. Encontr\u00e1mo-nos com muitos migrantes e refugiados, juntamente com a equipa do Provedor de Justi\u00e7a. Podem escrever-se milhares de p\u00e1ginas sobre as suas vidas dram\u00e1ticas. Lembro-me de uma mulher e do seu filho que fugiam do Congo. O seu marido foi assassinado. Ter\u00e1 ela, portanto, motivos para fugir e proteger-se a si e \u00e0 crian\u00e7a? Ser\u00e1 que os s\u00edrios, muitos dos quais com marcas de tortura no corpo, tinham raz\u00f5es para procurar um lugar seguro? Trata-se de uma migra\u00e7\u00e3o natural ou n\u00e3o natural?<\/p>\n\n<p><strong>Que outras pessoas conheceste nas florestas fronteiri\u00e7as?<\/strong><\/p>\n\n<p>Uma mulher gr\u00e1vida que j\u00e1 tinha dado \u00e0 luz uma crian\u00e7a na Pol\u00f3nia e que, entretanto, tinha sido atirada para a Bielorr\u00fassia quatro vezes e maltratada pelos guardas fronteiri\u00e7os bielorrussos. Na quinta vez que conseguiu passar pelos arames, desmaiou. J\u00e1 n\u00e3o havia outra op\u00e7\u00e3o. Teve de ser levada para o hospital, estava no nono m\u00eas de gravidez.<\/p>\n\n<p>Uma rapariga de dezassete anos, que atravessa a fronteira, fugindo \u00e0 opress\u00e3o no seu pa\u00eds de origem. Tudo foi feito para lhe negar esse direito, assegurando-lhe que, se chegasse a Terespol, seria autorizada a entrar. A sua m\u00e3e estava no hospital em Hajn\u00f3wka. Isso significa que ela teria de percorrer cem quil\u00f3metros &#8211; chegar a Terespol, atravessar o rio. Vale a pena acrescentar que se situava em territ\u00f3rio polaco, mas do outro lado do muro. Est\u00e1vamos a conversar numa noite de dezembro. Estava sozinha na floresta, com a m\u00e3e hospitalizada no lado polaco. O adolescente n\u00e3o foi autorizado a entrar.<\/p>\n\n<p><strong>Isto est\u00e1, sem d\u00favida, a condenar esta rapariga a muitas situa\u00e7\u00f5es de risco de vida e de sa\u00fade, um trauma do qual ela levar\u00e1 muito tempo a sarar, mesmo que chegue a um lugar seguro. E esta \u00e9 a a\u00e7\u00e3o de um deputado estadual.<\/strong><\/p>\n\n<p>Por conseguinte, a \u00fanica salva\u00e7\u00e3o s\u00e3o os tribunais, que come\u00e7am a invocar as normas europeias. Tr\u00eas dias antes das elei\u00e7\u00f5es, juntamente com representantes da Funda\u00e7\u00e3o de Hels\u00ednquia para os Direitos Humanos, reunimo-nos com os respons\u00e1veis pela gest\u00e3o da fronteira e alert\u00e1mos para o facto de que chegaria o momento em que aqueles que cometem tratamentos desumanos seriam responsabilizados. Atualmente, o Minist\u00e9rio P\u00fablico abriu um processo contra Usnarz. Eu fui l\u00e1. T\u00ednhamos uma lista das pessoas que l\u00e1 estavam, nomes e apelidos. Havia uma rapariga de 15 anos, havia uma mulher gravemente doente. Bebiam \u00e1gua do p\u00e2ntano. Frio, fome. E o que \u00e9 que fizemos perante a decis\u00e3o de garantir a seguran\u00e7a do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem? Coloc\u00e1mos o cami\u00e3o equipado com ajuda t\u00e3o longe que essa ajuda n\u00e3o foi prestada.<\/p>\n\n<p><strong>Citando novamente o Ministro Duszczyk: &#8220;Bem, se os tribunais v\u00e3o decidir que a Pol\u00f3nia n\u00e3o pode proteger as suas pr\u00f3prias fronteiras, ent\u00e3o n\u00e3o sou capaz de o entender&#8221;.<\/strong><\/p>\n\n<p>Todos os agentes que actuem ilegalmente ser\u00e3o responsabilizados. Os tribunais est\u00e3o a encontrar mais casos de tratamento desumano, de viola\u00e7\u00f5es do direito internacional e de manipula\u00e7\u00e3o de pessoas.<\/p>\n\n<p><strong>Duszczyk anuncia uma elimina\u00e7\u00e3o gradual das expuls\u00f5es \u00e0 medida que esta via de migra\u00e7\u00e3o for sendo extinta, mas receio que a sua exist\u00eancia continue a ser favor\u00e1vel \u00e0 Pol\u00f3nia durante muito tempo. O debate sobre o pacto de migra\u00e7\u00e3o ainda agora come\u00e7ou, os acordos n\u00e3o dever\u00e3o entrar em vigor antes de 2027, altura em que o argumento da Pol\u00f3nia para n\u00e3o aceitar &#8220;um \u00fanico migrante do pacto&#8221; s\u00e3o os refugiados da Ucr\u00e2nia e a press\u00e3o na fronteira polaco-bielorrussa. Os direitos humanos e as decis\u00f5es judiciais podem ir contra as expectativas pol\u00edticas, que s\u00e3o simplesmente diferentes. Esta situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 a ser utilizada para construir a estrat\u00e9gia internacional da Pol\u00f3nia em mat\u00e9ria de migra\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n<p>Vale a pena referir o exemplo da Equipa Interministerial para o Restabelecimento do Estado de Direito. A voz da sociedade civil est\u00e1 presente no Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. Est\u00e3o a decorrer no Parlamento debates que envolvem as ONG. A Ministra Duszczyk dever\u00e1 contar com um forte apoio de activistas masculinos e femininos. Penso que o di\u00e1logo com o governo \u00e9 extremamente importante. Queremos ajudar o Ministro Duszczyk a desenvolver novas solu\u00e7\u00f5es. Mas a condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o clara do Ministro do Interior e da Administra\u00e7\u00e3o no sentido de abolir as exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n<p><strong>Ser\u00e1 que o Ministro est\u00e1 apenas a implementar a pol\u00edtica da Uni\u00e3o Europeia? Mas ser\u00e1 que n\u00e3o existe uma \u00fanica pol\u00edtica europeia que ainda est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o, e a experi\u00eancia polaca faz parte dela?<\/strong><\/p>\n\n<p>A pol\u00edtica da UE n\u00e3o \u00e9 um projeto perfeito. Ap\u00f3s anos de negocia\u00e7\u00f5es, foi adotado um novo pacto sobre migra\u00e7\u00e3o e asilo. Pouco se ouve dos representantes dos comit\u00e9s sobre quest\u00f5es de exporta\u00e7\u00e3o. Esta pr\u00e1tica est\u00e1 a ocorrer em muitos pa\u00edses. A Comiss\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 in\u00edcio a processos contra eles. O seu sil\u00eancio sobre a viola\u00e7\u00e3o dos regulamentos Natura 2000 na fronteira entre a Pol\u00f3nia e a Bielorr\u00fassia \u00e9 estranho. Trata-se da Floresta de Bialowieza, que tem sido reivindicada por cientistas de toda a Europa. A ilegalidade das ac\u00e7\u00f5es de empurr\u00e3o foi estabelecida pelo Comiss\u00e1rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Direitos Humanos. A Comiss\u00e1ria para os Direitos Humanos, Dunja Mijatovi\u0107, que preparou a recomenda\u00e7\u00e3o neste caso.<\/p>\n\n<p>A Comiss\u00e3o analisou praticamente todos esses <a href=\"https:\/\/krytykapolityczna.pl\/kraj\/przyborska-mandelt-grupa-granica-to-nie-jest-kryzys-migracyjny-ale-humanitarny\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pontos cr\u00edticos na Pol\u00f3nia<\/a>, na Litu\u00e2nia e tamb\u00e9m noutros pa\u00edses que recorrem a pushbacks &#8211; Hungria e S\u00e9rvia. O Comit\u00e9 Europeu do Ambiente. O Comit\u00e9 para a Preven\u00e7\u00e3o da Tortura (CPT) reconheceu explicitamente a ilegalidade das exporta\u00e7\u00f5es. Portanto, existe uma norma europeia clara que deve ser implementada pela Pol\u00f3nia e por outros pa\u00edses. O Relator Especial das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre a situa\u00e7\u00e3o nas Na\u00e7\u00f5es Unidas apelou a uma altera\u00e7\u00e3o da lei e \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o das ac\u00e7\u00f5es de afastamento. Felipe Gonz\u00e1lez Morales, relator dos direitos dos migrantes, no seu relat\u00f3rio sobre a sua visita \u00e0 Pol\u00f3nia e \u00e0 Bielorr\u00fassia.<\/p>\n\n<p><strong>E o que dizer da sociedade polaca e da sua abordagem \u00e0 migra\u00e7\u00e3o?  <\/strong><\/p>\n\n<p>O governo est\u00e1 preso entre o que a Uni\u00e3o est\u00e1 a introduzir na legisla\u00e7\u00e3o e na pol\u00edtica de migra\u00e7\u00e3o, a norma de conduta do Conselho da Europa, muito mais abrangente, em rela\u00e7\u00e3o aos migrantes, e a press\u00e3o dos cidad\u00e3os. Por um lado, temos uma oposi\u00e7\u00e3o crescente \u00e0 migra\u00e7\u00e3o na sociedade e, por outro, a voz de grupos de activistas que defendem um tratamento humano dos migrantes. Obviamente, \u00e9 demonstrada uma aceita\u00e7\u00e3o muito maior em rela\u00e7\u00e3o aos cidad\u00e3os ucranianos, cujo n\u00edvel de integra\u00e7\u00e3o na sociedade polaca \u00e9 elevado.<\/p>\n\n<p>Foram realizados muitos estudos, encomendados por v\u00e1rios meios de comunica\u00e7\u00e3o social, sobre o n\u00edvel de aceita\u00e7\u00e3o dos refugiados e dos migrantes. Verificou-se que se tratava sobretudo de pessoas com mais de 60 anos. anos de idade, com baixo capital escolar, oriundos de pequenas cidades, op\u00f5em-se mais ao afluxo de estrangeiros do que as gera\u00e7\u00f5es mais jovens e os habitantes das grandes cidades. A propaganda xen\u00f3foba dos \u00faltimos oito anos tamb\u00e9m deve ser recordada. Na Pol\u00f3nia, era muito frequente a avers\u00e3o a estrangeiros, especialmente os provenientes de pa\u00edses africanos, e a pol\u00edtica de deporta\u00e7\u00e3o obteve a aprova\u00e7\u00e3o de mais de 50 por cento. cidad\u00e3os do sexo masculino e feminino. Por conseguinte, \u00e9 necess\u00e1rio adotar medidas educativas, sobretudo nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n<p><strong>Mas ser\u00e1 que estamos isolados na Europa nesta relut\u00e2ncia?  <\/strong><\/p>\n\n<p>N\u00e3o estamos isolados, mas se metade dos cidad\u00e3os polacos apoia restri\u00e7\u00f5es \u00e0 migra\u00e7\u00e3o de pa\u00edses africanos, temos sem d\u00favida um problema. Assistimos a um ressentimento crescente entre as sociedades holandesa, alem\u00e3 e sueca. Na Pol\u00f3nia, por\u00e9m, temos de reconhecer os problemas demogr\u00e1ficos e reconhecer a necessidade de aumentar o afluxo de migrantes. Para tal, \u00e9 necess\u00e1ria uma pol\u00edtica de migra\u00e7\u00e3o adequada e uma mudan\u00e7a nas atitudes sociais.<\/p>\n\n<p><strong>Parece que os pol\u00edticos polacos reconhecem, de facto, que a sociedade \u00e9 populista e racista e que a sua pol\u00edtica de migra\u00e7\u00e3o foi concebida \u00e0 luz desta imagem. Mas recentemente foram publicados dois  <\/strong><a href=\"https:\/\/krytykapolityczna.pl\/kraj\/uratowali-nas-lokalisci-liberalowie-i-normalsi-rozmowa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>investiga\u00e7\u00e3o, incluindo a Funda\u00e7\u00e3o Mais em Comum,<\/strong><\/a><strong>  mostrando que a sociedade polaca n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o m\u00e1. Que tamb\u00e9m nos centros mais pequenos h\u00e1 uma abertura aos rec\u00e9m-chegados, h\u00e1 uma compreens\u00e3o de que o processo de migra\u00e7\u00e3o simplesmente existe.  <\/strong><\/p>\n\n<p>\u00c9 mais do que tempo de o governo come\u00e7ar a influenciar as atitudes, a mostrar que estas pessoas est\u00e3o a chegar e podem fazer muito bem \u00e0 Pol\u00f3nia. Um perito norte-americano disse uma vez: preparem-se para o facto de, a dada altura, o rosto da mulher polaca deixar de ser um rosto branco. N\u00f3s, mentalmente, como sociedade, n\u00e3o estamos preparados para isto.<\/p>\n\n<p><strong>O que \u00e9 que tem de diferente os refugiados da Ucr\u00e2nia, o que \u00e9 que tem de diferente os refugiados do Congo?<\/strong><\/p>\n\n<p>Lembro-me de uma reuni\u00e3o angustiante no Senado, organizada pelo Presidente Grodzki no \u00e2mbito do Projeto de Conversa do Senado. Tratava-se de um encontro de jovens polacos e ucranianos. Fiquei muito contente porque as pessoas da Ucr\u00e2nia disseram que foram muito bem recebidas na escola. Depois, uma rapariga de pele escura levantou-se e come\u00e7ou a chorar. Disse que o tipo de opress\u00e3o que experimentou na rua polaca nunca tinha experimentado na Ucr\u00e2nia. H\u00e1 muitos outros exemplos e \u00e9 nisto que o governo se deve concentrar ao construir uma sociedade aberta. Estou firmemente convencido de que o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o tomar\u00e1 este tipo de medidas. Porque nenhum muro, nenhum arame, nenhum emaranhado impedir\u00e1 a migra\u00e7\u00e3o. Trata-se de um fen\u00f3meno natural em todo o mundo. N\u00e3o fugimos da Pol\u00f3nia, n\u00e3o atravess\u00e1mos os p\u00e2ntanos e n\u00e3o nos encontr\u00e1mos com a ajuda dos pa\u00edses ocidentais? Ofereceram-nos emprego, escola, habita\u00e7\u00e3o. Hoje, se n\u00e3o fosse a sociedade civil, se n\u00e3o fossem os activistas e os militantes na fronteira, estas pessoas seriam atiradas para o espa\u00e7o sem qualquer ajuda.<\/p>\n\n<p>Os activistas n\u00e3o s\u00f3 salvam vidas, como tamb\u00e9m asseguram que os migrantes e os refugiados possam encontrar o seu lugar na Pol\u00f3nia. E isto \u00e9 dif\u00edcil quando associam a Pol\u00f3nia a arames e armas de choque.<\/p>\n\n<p><strong>Por vezes, trata-se de mera neglig\u00eancia, como a falta de vontade de sair do carro e verificar a localiza\u00e7\u00e3o do local <\/strong><a href=\"https:\/\/krytykapolityczna.pl\/kraj\/w-lasach-leza-ciala-podlasie-migranci-uchodzcy\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\n  <strong>onde estava a rapariga moribunda<\/strong>\n<\/a><strong>Mahlet Kassa.<\/strong><\/p>\n\n<p>O que \u00e9 que se chama aos servi\u00e7os do Estado que permitiram a morte de Mahlet Kassie? O seu salvamento estava ao alcance da m\u00e3o, mas os oficiais preferiram expuls\u00e1-la, empurrar para al\u00e9m da linha de fronteira os jovens que tinham viajado com Mahlet, que a queriam salvar e que sabiam onde ela estava. \u00c9 b\u00e1rbaro.<\/p>\n\n<p><strong>Os polacos podem sentir-se seguros? O governo, agora outro, quer criar a convic\u00e7\u00e3o de que, se nos cercarmos com um muro mais alto, nada nos amea\u00e7ar\u00e1. Entretanto, oficiais de todos os servi\u00e7os de toda a Pol\u00f3nia s\u00e3o convocados para este &#8220;campo de treino&#8221;, o &#8220;Afeganist\u00e3o&#8221;, disse o chefe da BBN, Jacek Siewiera, e a\u00ed praticam a sua crueldade para com os civis. E depois regressam \u00e0s suas cidades. Podemos apenas especular sobre o seu comportamento ap\u00f3s esta forma\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n<p>Perten\u00e7o \u00e0 gera\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-guerra, mas conhe\u00e7o, atrav\u00e9s dos meus pais, os relatos do que aconteceu nas florestas onde os judeus se escondiam, e recordo a cena em que vimos dois jovens, s\u00edrios. Um \u00e9 professor de ingl\u00eas, o outro \u00e9 inform\u00e1tico. Humilhado at\u00e9 ao limite do inimagin\u00e1vel, coberto de folhas. Atiraram-se na nossa dire\u00e7\u00e3o e quiseram beijar os nossos sapatos. Estas imagens permanecem na mem\u00f3ria.<\/p>\n\n<p>Tamb\u00e9m me lembro de uma situa\u00e7\u00e3o em que vimos que havia pessoas escondidas na floresta. Fomos imediatamente seguidos pelo ex\u00e9rcito e pelo WOT, por isso pens\u00e1mos em como fazer com que fossemos n\u00f3s a chegar primeiro a essas pessoas. Porque o WOT os expulsaria imediatamente, e a nossa presen\u00e7a era uma garantia de que poderiam procurar prote\u00e7\u00e3o internacional. Lembro-me que nos dividimos em grupos, s\u00f3 para n\u00e3o darmos sinal para onde \u00edamos. Era como uma esp\u00e9cie de jogos e jogos de guerra. E, no entanto, n\u00e3o quer\u00edamos esconder estas pessoas ou transport\u00e1-las para algum lado. Quer\u00edamos que fossem sujeitos a um procedimento legal.<\/p>\n\n<p><strong>At\u00e9 uma delega\u00e7\u00e3o, que inclu\u00eda Dunja Mijatovi\u0107, foi detida. O comandante parecia ser a autoridade m\u00e1xima.<\/strong><\/p>\n\n<p>O comandante da capital decidiu verificar se eu e o Mijatovi\u0107 n\u00e3o est\u00e1vamos na &#8220;lista negra&#8221;. Um dos soldados encostou uma c\u00e2mara \u00e0 minha cara, gravando e rindo. Se foi assim que se comportou connosco, como ir\u00e1 tratar os outros cidad\u00e3os, por exemplo, durante uma greve, uma manifesta\u00e7\u00e3o? Disse aos oficiais: por favor, senhoras e senhores, afinal est\u00e3o a violar o direito internacional. Est\u00e1 a quebrar uma conven\u00e7\u00e3o europeia. E eles dizem: na floresta, minha senhora, o direito internacional n\u00e3o funciona e n\u00e3o temos aqui a Conven\u00e7\u00e3o Europeia dos Direitos do Homem.<\/p>\n\n<p>Tamb\u00e9m observ\u00e1mos a mudan\u00e7a, porque estes agentes tinham compaix\u00e3o no in\u00edcio. Uma vez, um agente disse-me: &#8220;Ontem vim para casa de chinelos porque dei os meus sapatos. Doaram tudo, recolheram roupas, brinquedos. Lembro-me tamb\u00e9m da famosa hist\u00f3ria de uma fam\u00edlia com cinco filhos cuja m\u00e3e morreu. Falei com os oficiais e o comandante do posto diz: devia fech\u00e1-los l\u00e1 em baixo na cave, onde havia lugar para os que atravessavam ilegalmente. Mas eu n\u00e3o podia, por isso arranjei-lhes um lugar na sala de confer\u00eancias e refei\u00e7\u00f5es extra.<\/p>\n\n<p><strong>Os habitantes da fronteira vivem, por mais um ano, numa atmosfera de arrog\u00e2ncia policial e militar. Os ve\u00edculos militares desobedecem aos limites de velocidade, matam bisontes e danificam o pavimento das estradas.  <\/strong><\/p>\n\n<p>Quer\u00edamos falar com as pessoas de Bialowieza, mas a cidade estava vazia. Pessoas em casas, c\u00e3es a vaguear, estradas espalhadas, uniformes. Batemos \u00e0 porta de uma pequena casa. Quer\u00edamos conversar. Dizemos que somos do Gabinete do Provedor de Justi\u00e7a, mas ningu\u00e9m nos abriu a porta. As pessoas t\u00eam medo, desconfiam. Sou muito solid\u00e1rio com os habitantes destas zonas. Perante os seus olhos, a Pol\u00f3nia foi esmagada. Um peda\u00e7o da mais bela Pol\u00f3nia. Os neg\u00f3cios que tinham &#8211; caf\u00e9s, restaurantes, agroturismo &#8211; est\u00e3o vazios.<\/p>\n\n<p><strong>A Pol\u00f3nia deve estar ciente do que acontece quando existem desigualdades sist\u00e9micas a longo prazo. As pol\u00edticas de migra\u00e7\u00e3o, das quais faz parte a mutila\u00e7\u00e3o f\u00edsica e psicol\u00f3gica das pessoas, constroem essas desigualdades. Como convencer os pol\u00edticos a mudar de rumo?<\/strong><\/p>\n\n<p>N\u00e3o existe uma comunica\u00e7\u00e3o clara sobre as solu\u00e7\u00f5es que o governo prop\u00f4s e sobre as vias que se prop\u00f5e seguir. Sei que a pol\u00edtica de migra\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de conceber num m\u00eas, mas j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel definir direc\u00e7\u00f5es. Sem isso, continuaremos no caos e o peso da a\u00e7\u00e3o recair\u00e1 sobre os ombros das pessoas que vivem nas cidades fronteiri\u00e7as, dos activistas e das ONG. E precisamos de um Estado e de institui\u00e7\u00f5es que fa\u00e7am uma nova abertura na pol\u00edtica de migra\u00e7\u00e3o e que se dissociem inequivocamente dos m\u00e9todos opressivos utilizados na fronteira. Aguardamos uma declara\u00e7\u00e3o do governo que altere a lei e que declare inequivocamente a proibi\u00e7\u00e3o dos empurr\u00f5es. Gostar\u00edamos que a for\u00e7a das institui\u00e7\u00f5es do Estado fosse uma lei que respeitasse plenamente as regras internacionais e a Constitui\u00e7\u00e3o polaca.<\/p>\n\n<p>**<\/p>\n\n<p><strong>Hanna Machinska<\/strong> &#8211; advogada e acad\u00e9mica, doutorada em Direito. Diretor do Gabinete do Conselho da Europa em Vars\u00f3via de 1991 a 2017, Provedor de Justi\u00e7a Adjunto de 2017 a 2022.<\/p>\n\n<p>&#8211; <a href=\"https:\/\/krytykapolityczna.pl\/bio\/katarzynaprzyborska\/\">Katarzyna Przyborska<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um perito norte-americano disse uma vez: preparem-se para o facto de, a dada altura, o rosto da mulher polaca deixar de ser um rosto branco. N\u00f3s, mentalmente, como sociedade, n\u00e3o estamos preparados para isto&#8221; &#8211; debatemos a migra\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio polaco com a Dra. 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