{"id":29867,"date":"2024-03-06T13:26:27","date_gmt":"2024-03-06T12:26:27","guid":{"rendered":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/article\/lea-melandri-o-amor-tem-sido-um-veu-para-a-violencia-domestica\/"},"modified":"2024-09-06T16:37:09","modified_gmt":"2024-09-06T14:37:09","slug":"lea-melandri-o-amor-tem-sido-um-veu-para-violencia-domestica","status":"publish","type":"article","link":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/article\/lea-melandri-o-amor-tem-sido-um-veu-para-violencia-domestica\/","title":{"rendered":"Lea Melandri: &#8220;O amor tem sido um v\u00e9u&#8221; para a viol\u00eancia dom\u00e9stica"},"content":{"rendered":"\n<p>Lea Melandri (1941) \u00e9 uma ensa\u00edsta, escritora e jornalista. \u00c9 uma figura consagrada do feminismo italiano. O seu \u00faltimo livro \u00e9 <a href=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/article\/lea-melandri-o-amor-tem-sido-um-veu-para-violencia-domestica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Amor e Viol\u00eancia: The Vexatious Factors of Civilization<\/em><\/a> (Albany: State University of New York Press, 2019). Mais dos seus escritos podem ser encontrados em <a href=\"http:\/\/archiviodilea.it\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lea&#8217;s Archive<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Lea Melandri:&nbsp;<\/strong>De todas as formas de domina\u00e7\u00e3o ao longo da hist\u00f3ria, a forma masculina \u00e9 bastante especial, pois envolve as coisas mais \u00edntimas, como a sexualidade, a maternidade, as rela\u00e7\u00f5es familiares.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/voxeurop.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/amore-e-violenza-melandri-603x1024.jpg\" alt=\"Amore e Violenza. Il fattore molesto della civilt\u00e0\" class=\"wp-image-2484841\" style=\"width:165px;height:auto\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Os homens s\u00e3o filhos das mulheres: encontram o corpo de outra pessoa, aquela que os gerou, no momento de maior depend\u00eancia e desamparo. Esse corpo tem-nos \u00e0 sua merc\u00ea durante os primeiros anos de vida, atrav\u00e9s dos cuidados ou do abandono. \u00c9 o mesmo tipo de corpo que eles encontrar\u00e3o na sua vida amorosa adulta, mas numa posi\u00e7\u00e3o invertida de poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao confinar a mulher ao papel de m\u00e3e, o homem tamb\u00e9m se obrigou a usar uma m\u00e1scara de virilidade sempre amea\u00e7ada, a estabelecer constrangimentos considerados indispens\u00e1veis, mesmo quando n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios. O sonho do amor &#8211; como perten\u00e7a \u00edntima a um outro ser, como unidade no g\u00e9meo, prolongamento do la\u00e7o original entre m\u00e3e e filho &#8211; traz em si o risco de uma separa\u00e7\u00e3o violenta, ligada \u00e0 necessidade de autonomia de cada um.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pap\u00e9is de g\u00e9nero, na sua complementaridade e coloca\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica, moldam as rela\u00e7\u00f5es de poder. Ao mesmo tempo, eles empurram para um ideal, para uma reuni\u00e3o harmoniosa de partes insepar\u00e1veis do ser humano: corpo e mente, sentimentos e raz\u00e3o. \u00c9 esta confus\u00e3o entre amor e viol\u00eancia que, ainda hoje, dificulta a consciencializa\u00e7\u00e3o das pessoas para o sexismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00eas&nbsp;<\/strong><a href=\"https:\/\/www.internazionale.it\/opinione\/lea-melandri\/2014\/11\/25\/la-violenza-sulle-donne-non-e-un-eccezione\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>escrevem<\/strong><\/a><strong>: &#8220;Em vez de nos limitarmos a deplorar a viol\u00eancia, a pedir penas mais duras para os agressores, mais prote\u00e7\u00e3o para as v\u00edtimas, talvez fosse mais sensato lan\u00e7ar um olhar para onde n\u00e3o gostamos de ver essa viol\u00eancia aparecer.&#8221; Que &#8220;zonas&#8221; s\u00e3o essas, esses lugares da pol\u00edtica e da alma?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Talvez possamos come\u00e7ar por aquele que foi o grande &#8220;desafio&#8221;, ou revolu\u00e7\u00e3o, do feminismo dos anos 70: a descoberta de que, durante mil\u00e9nios, as experi\u00eancias mais universais do humano &#8211; a sexualidade, a maternidade, o nascimento, a morte, os la\u00e7os familiares &#8211; tinham sido consideradas &#8220;n\u00e3o-pol\u00edticas&#8221; e estavam confinadas ao &#8220;privado&#8221; e \u00e0 ordem da &#8220;natureza&#8221;. Como tal, estavam destinados a permanecer &#8220;perman\u00eancias&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O que ainda estamos inclinados a considerar &#8220;lugares da alma&#8221; sempre pertenceram \u00e0 hist\u00f3ria, \u00e0 cultura e \u00e0 pol\u00edtica. O slogan &#8220;o pessoal \u00e9 pol\u00edtico&#8221; pretendia reconhecer que nas vidas individuais, nas experi\u00eancias pessoais, bem como na mem\u00f3ria do corpo, h\u00e1 tesouros de cultura ainda por descobrir, h\u00e1 uma hist\u00f3ria n\u00e3o escrita, que n\u00e3o ser\u00e1 encontrada em nenhum livro did\u00e1tico ou em qualquer conhecimento ou linguagem existente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nessas &#8220;zonas&#8221; fora da esfera e do discurso p\u00fablicos, camufladas pelo pudor e pela ignor\u00e2ncia ou pela &#8220;indizibilidade&#8221;, que a gera\u00e7\u00e3o da \u00e9poca procurou as ra\u00edzes da separa\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica e sexualidade, entre os diferentes destinos do homem e da mulher, bem como a origem de todo o dualismo: biologia e hist\u00f3ria, indiv\u00edduo e sociedade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>&#8220;Um monstro \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o, uma pessoa pela qual a sociedade n\u00e3o tem de se responsabilizar. Mas os monstros n\u00e3o s\u00e3o doentes, s\u00e3o os filhos saud\u00e1veis do patriarcado, da cultura da viola\u00e7\u00e3o. O femic\u00eddio n\u00e3o \u00e9 um crime passional, \u00e9 um crime de poder&#8221;, Elena Cecchettin<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>A primeira forma de viol\u00eancia de que nos apercebemos nesses anos s\u00f3 podia ser aquilo a que chamei &#8220;viol\u00eancia invis\u00edvel&#8221; ou &#8220;viol\u00eancia simb\u00f3lica&#8221;: uma representa\u00e7\u00e3o masculina do mundo que as pr\u00f3prias mulheres tornaram for\u00e7osamente seu, ou &#8220;incorporaram&#8221;. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a v\u00edtima fala a mesma l\u00edngua que o agressor. O que mais poderiam as mulheres fazer sen\u00e3o colocarem-se nesses pap\u00e9is &#8211; &#8220;m\u00e3es de&#8221;, &#8220;esposas de&#8221; &#8211; enquanto tentam obter algum poder e prazer.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s fomos uma gera\u00e7\u00e3o que se rebelou contra as m\u00e3es. Elas eram vistas como um canal para a lei dos pais, e um dos n\u00f3s em que demos por n\u00f3s a cavar com mais for\u00e7a foi, n\u00e3o surpreendentemente, a rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e\/filha. Descobrimos que a despossess\u00e3o mais violenta que as mulheres sofreram foi a de serem apagadas como &#8220;pessoas&#8221; e, em vez disso, serem identificadas com o corpo &#8211; o corpo er\u00f3tico ou o corpo materno &#8211; e reduzidas a &#8220;fun\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa altura, dever\u00edamos ter aberto as portas da casa, e questionado o acoplamento e os la\u00e7os familiares em toda a sua ambiguidade. Dever\u00edamos ter trazido \u00e0 tona a viol\u00eancia nas suas formas &#8220;manifestas&#8221;: maus tratos, explora\u00e7\u00e3o,&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/voxeurop.eu\/en\/tag\/femicide\/\">femic\u00eddio<\/a>. Se a viol\u00eancia dom\u00e9stica s\u00f3 foi abordada muito mais tarde, no in\u00edcio dos anos 2000, \u00e9 porque o amor funcionou como um v\u00e9u &#8211; mesmo para aqueles que, como no meu caso, testemunharam a viol\u00eancia contra as mulheres da sua fam\u00edlia durante muitos anos. Hoje, perante uma s\u00e9rie incessante de femic\u00eddios, \u00e9 f\u00e1cil gritar contra o &#8220;monstro&#8221;, exigir penas mais severas. \u00c9 mais dif\u00edcil perguntar se n\u00e3o \u00e9 o amor &#8211; tal como o herd\u00e1mos, misturado com o poder &#8211; que deve ser posto em causa. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o amor tamb\u00e9m se manteve um tabu para o feminismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O feminismo \u00e9, de certa forma, a derradeira trag\u00e9dia, mas antes dele (e mesmo sem ele) houve formas de viol\u00eancia e controlo que se estabeleceram em vidas amorosas &#8220;normais&#8221; e &#8220;felizes&#8221;. Como \u00e9 que podemos explicar que os homens que matam as mulheres que amam s\u00e3o os &#8220;<\/strong><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2022\/03\/08\/books\/review\/mona-chollet-in-defense-of-witches.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>filhos saud\u00e1veis do patriarcado<\/strong><\/a><strong>&#8220;?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Depois de meio s\u00e9culo de teoria e pr\u00e1tica feminista, s\u00f3 hoje come\u00e7amos a falar do patriarcado como um &#8220;fen\u00f3meno estrutural&#8221;. Foi um grande passo em frente falar de femic\u00eddios n\u00e3o apenas como crimes, como patologias do indiv\u00edduo, ou como o resultado de culturas atrasadas. Mas ainda h\u00e1 muito a fazer para reconhecer que a viol\u00eancia &#8220;manifesta&#8221; \u00e9 apenas o aspeto mais selvagem e arcaico de uma cultura generalizada que se tornou a norma.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre preferi o termo &#8220;domina\u00e7\u00e3o masculina&#8221;, ou &#8220;sexismo&#8221;, em vez de &#8220;patriarcado&#8221;, talvez porque hesitei em enfrentar a ambiguidade de um tipo de poder que confunde o rosto de um filho terno com o de um pai mestre. Se os homens fossem apenas o sexo vencedor e confiante, n\u00e3o teriam necessidade de matar; se as mulheres vissem apenas um assassino no homem que amea\u00e7a as suas vidas, n\u00e3o hesitariam tantas vezes em denunciar a viol\u00eancia de que s\u00e3o v\u00edtimas. Hoje, os homens matam porque, perante a liberdade das mulheres &#8211; perante o facto de elas terem deixado de ser um corpo \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, at\u00e9 ent\u00e3o considerado um privil\u00e9gio masculino &#8220;natural&#8221; &#8211; os homens descobrem a sua fragilidade e a sua depend\u00eancia. Na vida p\u00fablica, juntamente com outros homens, s\u00e3o livres. Mas dentro de casa parecem nunca ter perdido esse cord\u00e3o umbilical, e permaneceram essencialmente filhos, mesmo de esposas ou amantes muito mais novas do que eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos agora dizer que o &#8220;patriarcado&#8221; \u00e9 uma vis\u00e3o do mundo que moldou a aprendizagem, bem como o senso comum, e que na hist\u00f3ria carrega o selo de uma comunidade exclusivamente masculina, mas que as mulheres interiorizaram. Se se tornou a &#8220;normalidade&#8221;, \u00e9 porque permaneceu durante muito tempo na esfera &#8220;privada&#8221; e no quadro de leis naturais imut\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea cita o livro de Bourdieu&nbsp;<\/strong><a href=\"https:\/\/fr.wikipedia.org\/wiki\/La_Domination_masculine\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Domina\u00e7\u00e3o Masculina<\/strong><\/a><strong>, publicado em 1988. Ele fala do amor como &#8220;a forma suprema, porque \u00e9 a mais subtil, a mais invis\u00edvel forma de viol\u00eancia simb\u00f3lica&#8221;.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Antes de ler A Domina\u00e7\u00e3o Masculina de Pierre Bourdieu &#8211; um livro que adorei e revi apesar de n\u00e3o ter tido a circula\u00e7\u00e3o que merecia em It\u00e1lia &#8211; o tema do amor j\u00e1 tinha atravessado o meu percurso pessoal e pol\u00edtico. No final dos anos 70, quando a aten\u00e7\u00e3o se centrava sobretudo na sexualidade e na homossexualidade, e nas quest\u00f5es relacionadas com o subconsciente, apercebi-me de como era importante para mim a necessidade de amor &#8211; e, de facto, como estava fortemente ligada ao &#8220;sonho de amor&#8221;, o da fusionalidade, da perten\u00e7a \u00edntima a outro ser.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio dos anos 80 iniciei um longo per\u00edodo de estudos. Descobri o livro de Sibilla Aleramo&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.abebooks.fr\/DIARIO-DONNA-INEDITI-1945-ALERAMO-SIBILLA\/8470090890\/bd\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Diario di una donna<\/em><\/a><em>,<\/em>&nbsp;e tinha uma coluna de &#8220;tia da agonia&#8221; numa revista para adolescentes chamada &#8220;Ragazza In&#8221;. Foi nessa altura que escrevi o que considero o meu livro mais pessoal:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.fernandel.it\/catalogo\/collana-laboratorio-fernandel\/647-lea-melandri-come-nasce-il-sogno-d-amore\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&#8220;<em>Come nasce il sogno d&#8217;amore<\/em>&#8220;<\/a>&nbsp;(&#8220;Como nasce o sonho de amor&#8221;). Na verdade, deveria ter-lhe dado o t\u00edtulo de &#8220;Como termina a ilus\u00e3o do amor&#8221; &#8211; esse sonho de &#8220;unidade em dois&#8221;, como Aleramo o definiria, esse &#8220;ato sacr\u00edlego do ponto de vista da individualidade&#8221; &#8211; depois de ser perseguido atrav\u00e9s de um n\u00famero incalcul\u00e1vel de &#8220;amores&#8221; e &#8220;erros&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>&#8220;Hoje, perante uma s\u00e9rie incessante de femic\u00eddios, \u00e9 f\u00e1cil gritar contra o &#8220;monstro&#8221;, exigir penas mais duras. \u00c9 mais dif\u00edcil perguntar se n\u00e3o \u00e9 o amor &#8211; tal como o herd\u00e1mos, misturado com o poder &#8211; que deve ser questionado&#8221;<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Desde essa altura, escrevi muitas vezes sobre o sonho do amor como &#8220;viol\u00eancia invis\u00edvel&#8221;, e perguntei-me se essa era a for\u00e7a ou a fraqueza das mulheres, se a sua &#8220;escravid\u00e3o&#8221; mais profunda n\u00e3o deveria ser procurada precisamente no poder de se tornarem indispens\u00e1veis ao outro, de tornarem a vida &#8220;boa&#8221; para o outro.<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00e9rito do livro de Bourdieu \u00e9 ter analisado em profundidade as constru\u00e7\u00f5es de g\u00e9nero &#8211; o masculino e o feminino &#8211; nessas &#8220;perman\u00eancias&#8221; encontradas nos mais diversos contextos hist\u00f3ricos e pol\u00edticos, ter reconhecido como a domina\u00e7\u00e3o masculina tem sido uma coloniza\u00e7\u00e3o das mentes, mas tamb\u00e9m dos corpos, e, em particular, ter questionado a ambiguidade do sonho de amor. No \u00faltimo cap\u00edtulo do livro, Bourdieu pergunta se o amor, enquanto fus\u00e3o, dissolu\u00e7\u00e3o no outro, \u00e9 uma &#8220;tr\u00e9gua&#8221; &#8211; um &#8220;o\u00e1sis&#8221; na guerra entre os sexos &#8211; ou a forma suprema dessa guerra desde ent\u00e3o, a forma mais invis\u00edvel e insidiosa de &#8220;viol\u00eancia simb\u00f3lica&#8221;. Era a mesma conclus\u00e3o a que eu tinha chegado no meu percurso feminista. Que um homem reconhecesse isso era algo que eu s\u00f3 podia saudar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Podemos falar sobre o amor de uma forma diferente?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Acho que as alternativas s\u00f3 come\u00e7am a surgir quando se analisa o mal em profundidade, e em termos do n\u00f3 perverso entre amor e viol\u00eancia. Penso que ainda h\u00e1 um longo caminho a percorrer. Deste ponto de vista, \u00e9 particularmente interessante o livro de bell hooks,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ilsaggiatore.com\/libro\/tutto-sullamore\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">All About Love<\/a>, e tamb\u00e9m os ensaios de Fran\u00e7ois Jullien,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ibs.it\/sull-intimita-lontano-dal-frastuono-libro-francois-jullien\/e\/9788860307095\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">On Intimacy, Far from the Din of Love, Next to her, Opaque Presence, Intimate Presence<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que mudou nos \u00faltimos anos, depois do #MeToo e na sequ\u00eancia dos acontecimentos actuais? Quando fal\u00e1mos ao telefone, o debate sobre o&nbsp;<\/strong><a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Murder_of_Giulia_Cecchettin\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>assassinato de Giulia Cecchettin<\/strong><\/a><strong>&nbsp;estava fresco, e tu disseste-me: &#8220;Ou\u00e7o nos jornais o discurso que n\u00f3s, as feministas, fazemos h\u00e1 anos&#8221;. O que aconteceu?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma grande mudan\u00e7a veio, ainda mais do que o #MeToo &#8211; que quase se tornou apenas um julgamento medi\u00e1tico de celebridades &#8211; das mais recentes ondas de feminismo, a partir do in\u00edcio dos anos 2000. Em 2007, em It\u00e1lia, houve a primeira grande manifesta\u00e7\u00e3o, promovida pelo grupo &#8220;Sommosse&#8221;, em que se viram cartazes sobre a viol\u00eancia dom\u00e9stica e o slogan &#8220;O assassino tem as chaves de casa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinham finalmente posto os olhos na casa da fam\u00edlia, nas rela\u00e7\u00f5es familiares. A viol\u00eancia que sempre esteve presente, mas que era ocultada pela amb\u00edgua quest\u00e3o da privacidade, aparecia agora \u00e0s claras. Ao trazer o sexismo para o discurso pol\u00edtico, os relat\u00f3rios nacionais e internacionais sobre as causas da morte das mulheres tiveram um grande peso. E tamb\u00e9m a sequ\u00eancia ininterrupta de femic\u00eddios, infelizmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m importante foi o nascimento da rede &#8220;Ni Una Menos&#8221; em 2017, que teve origem na Argentina. Desde ent\u00e3o, todos os anos se realizam grandes manifesta\u00e7\u00f5es a 8 de mar\u00e7o e a 25 de novembro. Nunca lhes foi dado o destaque que mereciam.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta \u00faltima &#8220;mar\u00e9&#8221; feminista, o que \u00e9 novo para mim \u00e9 o alargamento do discurso a todas as formas de domina\u00e7\u00e3o: sexismo, classismo, racismo, colonialismo, etc. As exig\u00eancias radicais do feminismo dos anos 70 est\u00e3o de volta, para &#8220;mudar o eu e o mundo&#8221;. O desafio tem sido partir do lugar mais afastado da pol\u00edtica &#8211; o eu, a experi\u00eancia pessoal &#8211; para investir e &#8220;perturbar&#8221; a aprendizagem e o poder da vida p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora reconhecendo o legado essencial de meio s\u00e9culo de feminismo, o salto &#8220;imprevisto&#8221; na consci\u00eancia hist\u00f3rica ocorreu em It\u00e1lia com o femic\u00eddio de&nbsp;<a href=\"https:\/\/voxeurop.eu\/it\/stupro-consenso-potere-femminicidio-display-europe-rassegna-stampa\/\">Giulia Cecchettin<\/a>, a estudante morta pelo seu ex-namorado a 11 de novembro de 2023. Foram as palavras de Elena, irm\u00e3 da v\u00edtima, e do seu pai, Gino Cecchettin, que abriram uma brecha inesperada na cultura e nos media italianos, ambos ainda fundamentalmente machistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez de ser encerrada na intimidade de uma fam\u00edlia destru\u00edda, esta hist\u00f3ria de mais um femic\u00eddio viu, pela primeira vez, as portas de casa abrirem-se para deixar sair ideias at\u00e9 agora s\u00f3 ouvidas nas manifesta\u00e7\u00f5es feministas. S\u00f3 um &#8220;pai&#8221; capaz de olhar para al\u00e9m do seu papel paternal e de se pensar como um &#8220;homem&#8221; entre os homens, com uma masculinidade que inclui hoje a necessidade de se interrogar sobre as suas express\u00f5es mais violentas, poder\u00e1 eclipsar a figura do patriarca, para a qual alguns ainda olham com m\u00e1goa mal disfar\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a vez das figuras do pai e da filha romperem a armadura dos pap\u00e9is familiares, questionarem a &#8220;normalidade&#8221; dos preconceitos at\u00e1vicos que &#8220;privatizaram&#8221; e &#8220;naturalizaram&#8221; as rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de poder. As palavras da irm\u00e3 de Giulia foram, em si mesmas, um ponto de viragem do qual n\u00e3o h\u00e1 volta a dar: foram as palavras de ordem e as verdades gritadas por gera\u00e7\u00f5es de feministas que sa\u00edram, pela primeira vez, de esferas estreitas e ignoradas, para serem ouvidas e assumidas nos mais diversos sectores da vida p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Um monstro&#8221;, disse Elena, &#8220;\u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o, uma pessoa pela qual a sociedade n\u00e3o tem de se responsabilizar. Mas os monstros n\u00e3o s\u00e3o doentes, s\u00e3o os filhos saud\u00e1veis do patriarcado, da cultura da viola\u00e7\u00e3o. O femic\u00eddio n\u00e3o \u00e9 um crime passional, \u00e9 um crime de poder. Precisamos de uma educa\u00e7\u00e3o sexual e emocional generalizada, precisamos de ensinar que o amor n\u00e3o \u00e9 posse.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O movimento #MeToo e o ativismo feminista em todo o mundo voltaram a chamar a aten\u00e7\u00e3o para um dos slogans hist\u00f3ricos do feminismo: &#8220;O pessoal \u00e9 pol\u00edtico&#8221;. Como podemos falar de feminic\u00eddio e patriarcado sem ter em conta a rela\u00e7\u00e3o poderosa &#8211; e at\u00e9 estrutural &#8211; entre amor e viol\u00eancia? Lea Melandri, ensa\u00edsta italiana, em conversa com Francesca Barca.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":29833,"parent":0,"template":"","tags":[],"displeu_category":[],"class_list":["post-29867","article","type-article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/article\/29867","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/article"}],"about":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/29833"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29867"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29867"},{"taxonomy":"displeu_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/displeu_category?post=29867"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}