{"id":30137,"date":"2024-03-06T20:50:52","date_gmt":"2024-03-06T19:50:52","guid":{"rendered":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/?post_type=article&#038;p=30137"},"modified":"2024-09-06T16:36:55","modified_gmt":"2024-09-06T14:36:55","slug":"christelle-taraud-o-continuum-feminicida-uma-maquina-de-guerra-dirigida-contra-as-mulheres","status":"publish","type":"article","link":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/article\/christelle-taraud-o-continuum-feminicida-uma-maquina-de-guerra-dirigida-contra-as-mulheres\/","title":{"rendered":"Christelle Taraud: O continuum do feminic\u00eddio, &#8220;uma m\u00e1quina de guerra dirigida contra as mulheres&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>Christelle Taraud, historiadora e feminista francesa, \u00e9 membro do Centro de Hist\u00f3ria do S\u00e9culo XIX (Paris 1\/Paris 4 &#8211; Universidade Sorbonne). Especialista em quest\u00f5es de g\u00e9nero e sexualidades nos espa\u00e7os coloniais, \u00e9 editora de&nbsp;<em><a href=\"https:\/\/www.editionsladecouverte.fr\/feminicides-9782348057915\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">F\u00e9minicides. Une histoire mondiale<\/a><\/em>&nbsp;(&#8220;Feminic\u00eddios. Uma hist\u00f3ria mundial&#8221;, La D\u00e9couverte, 2022)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A palavra feminic\u00eddio est\u00e1 agora muito difundida. Como \u00e9 que se define?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Christelle Taraud:<\/strong>&nbsp;A minha defini\u00e7\u00e3o de feminic\u00eddio \u00e9 &#8220;a execu\u00e7\u00e3o de uma mulher pelo facto de ser mulher&#8221;. O termo remonta a 1976, quando activistas feministas e investigadores de cerca de quarenta pa\u00edses diferentes se reuniram em Bruxelas e organizaram o primeiro&nbsp;<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/International_Tribunal_on_Crimes_against_Women\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Tribunal Internacional para os Crimes contra as Mulheres<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A soci\u00f3loga nascida na \u00c1frica do Sul e a viver nos Estados Unidos, Diana E. H. Russell, \u00e9 atribu\u00edda a autoria do conceito de &#8220;femic\u00eddio&#8221;. Baseado no conceito de &#8220;homic\u00eddio&#8221;, o femic\u00eddio consiste em matar uma mulher pelo facto de ela ser mulher. No entanto, nem todos os assassinatos de mulheres s\u00e3o femic\u00eddios, e a dimens\u00e3o patriarcal deve ser mobilizada para o atestar. Segundo Russell, o crime de \u00f3dio do femic\u00eddio \u00e9, de facto, a ponta de um vasto sistema de esmagamento de mulheres, que pode ser definido como um sistema patriarcal global, mas que assume formas diferentes consoante a \u00e9poca, o contexto e a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ent\u00e3o h\u00e1 uma diferen\u00e7a entre femic\u00eddio e&nbsp;<\/strong><a href=\"https:\/\/voxeurop.eu\/en\/tag\/feminicide\/\"><strong>feminic\u00eddio<\/strong><\/a><strong>?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando os activistas deixaram Bruxelas, levaram o conceito com eles. Foi rapidamente aclimatado em algumas partes do mundo (Am\u00e9rica Latina, Cara\u00edbas, Norte da Europa), muito menos noutras (Estados Unidos, Canad\u00e1, Europa Ocidental).<\/p>\n\n\n\n<p>No&nbsp;<a href=\"https:\/\/voxeurop.eu\/en\/country\/mexico\/\">M\u00e9xico<\/a>, no final da d\u00e9cada de 80, come\u00e7aram a surgir o que inicialmente se pensou serem incidentes isolados. Na fronteira com os&nbsp;<a href=\"https:\/\/voxeurop.eu\/en\/country\/united-states-2\/\">Estados Unidos<\/a>, uma das zonas mais perigosas do mundo &#8211; uma zona de migra\u00e7\u00e3o, onde se desenvolviam formas extremas de capitalismo, incluindo f\u00e1bricas de subcontrata\u00e7\u00e3o onde as condi\u00e7\u00f5es de trabalho eram terr\u00edveis e onde abundavam os cart\u00e9is da droga, entre outras coisas &#8211; as mulheres come\u00e7aram a desaparecer. Perante a ina\u00e7\u00e3o e a culpabiliza\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas por parte da pol\u00edcia mexicana, as fam\u00edlias exigiram responsabilidades, formaram grupos e atra\u00edram a aten\u00e7\u00e3o de jornalistas e investigadores feministas. Foi ent\u00e3o que se aperceberam que o conceito de &#8220;femic\u00eddio&#8221; n\u00e3o era adequado para descrever e analisar a situa\u00e7\u00e3o mexicana: n\u00e3o se tratava de um crime de \u00f3dio individual, mas de um fen\u00f3meno massivo. O termo &#8220;feminic\u00eddio&#8221; foi cunhado e atribu\u00eddo \u00e0 antrop\u00f3loga e pol\u00edtica mexicana Marcela Lagarde y de los R\u00edos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Lagarde, enquanto o femic\u00eddio est\u00e1 intimamente ligado ao homic\u00eddio, o feminic\u00eddio \u00e9 concebido em rela\u00e7\u00e3o ao genoc\u00eddio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lagarde utiliza quatro elementos para caraterizar o fen\u00f3meno: o feminic\u00eddio \u00e9 um crime coletivo, que envolve toda a sociedade mexicana; \u00e9 um crime de massa (num per\u00edodo &#8220;normal&#8221;, h\u00e1 pelo menos dez feminic\u00eddios por dia no M\u00e9xico); \u00e9 um crime de Estado. Tal como noutros pa\u00edses, o Estado mexicano e as suas institui\u00e7\u00f5es (pol\u00edcia, justi\u00e7a, pris\u00f5es) s\u00e3o patriarcais: culpabilizam as v\u00edtimas, recusam-se a investigar os crimes e, por vezes, os pol\u00edcias s\u00e3o mesmo os autores dos feminic\u00eddios. Enfim, diz Lagarde, trata-se de um crime com tend\u00eancias genocidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Lagarde n\u00e3o falou de &#8220;genoc\u00eddio&#8221; na altura. Est\u00e1vamos no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 e os &#8220;<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Genocide_studies\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Estudos do Genoc\u00eddio<\/a>&#8221; ainda n\u00e3o tinham o estatuto que t\u00eam atualmente. Na altura, a no\u00e7\u00e3o de genoc\u00eddio ainda se referia quase exclusivamente ao Holocausto e, de forma relacionada, ao Judeoc\u00eddio. A d\u00e9cada de 1990 assistiu ao desenvolvimento de estudos sobre outros genoc\u00eddios, incluindo numa perspetiva comparativa. Foi tamb\u00e9m neste per\u00edodo que o genoc\u00eddio arm\u00e9nio come\u00e7ou a ser discutido de forma muito mais proeminente e que novos genoc\u00eddios tiveram lugar na antiga Jugosl\u00e1via e no Ruanda. Lagarde tamb\u00e9m se baseia no conceito de &#8220;necropol\u00edtica&#8221;, a partir do trabalho do cientista pol\u00edtico camaron\u00eas&nbsp;<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Achille_Mbembe\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Achille Mbembe<\/a>, e na no\u00e7\u00e3o de &#8220;overkill&#8221;, utilizada em criminologia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que \u00e9 que os conceitos de necropol\u00edtica e de overkill ajudam a esclarecer?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quase todas as mulheres assassinadas no M\u00e9xico cujos corpos foram encontrados, permitindo uma an\u00e1lise forense ainda que parcial, foram mortas com m\u00e9todos variados: algumas foram espancadas e estranguladas, por exemplo &#8211; o que n\u00e3o \u00e9 muito comum. Ou foram sujeitos a abusos que n\u00e3o foram causa suficiente de morte. Por exemplo, agress\u00f5es ou abusos sexuais, como penetra\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas, incluindo com objectos contundentes, ou mutila\u00e7\u00e3o do sistema reprodutivo e dos \u00f3rg\u00e3os genitais. Ou os seus rostos foram destru\u00eddos, tornando imposs\u00edvel a identifica\u00e7\u00e3o por reconhecimento facial. Por vezes, foram decapitadas, desmembradas, queimadas com fogo ou \u00e1cido.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto mostra que n\u00e3o s\u00e3o apenas os corpos f\u00edsicos destas mulheres que foram atacados, mas tamb\u00e9m a identidade que estes corpos transportam. Neste caso, a identidade feminina. Isto diz respeito tanto \u00e0s mulheres cisg\u00e9nero como \u00e0s mulheres transg\u00e9nero, porque nesta grande zona fronteiri\u00e7a, um grande n\u00famero de trabalhadoras do sexo, tanto cisg\u00e9nero como transg\u00e9nero, s\u00e3o mortas. O feminic\u00eddio \u00e9, portanto, um crime de \u00f3dio identit\u00e1rio que \u00e9 produto de uma necropol\u00edtica &#8211; uma pol\u00edtica de morte que se imp\u00f5e \u00e0 vida &#8211; orquestrada pelo Estado com o objetivo de controlar territ\u00f3rios, neste caso as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Isto est\u00e1 muito longe da defini\u00e7\u00e3o utilizada em&nbsp;<\/strong><a href=\"https:\/\/voxeurop.eu\/en\/country\/france-2\/\"><strong>Fran\u00e7a<\/strong><\/a><strong>&#8230;&nbsp; e tamb\u00e9m na maioria dos pa\u00edses europeus. N\u00e3o h\u00e1 qualquer refer\u00eancia ao car\u00e1cter genocida deste fen\u00f3meno.&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Muito poucas pessoas, mesmo nos c\u00edrculos feministas, se interessaram pela genealogia deste conceito. A opini\u00e3o p\u00fablica da Europa Ocidental come\u00e7ou a usar a palavra &#8220;feminic\u00eddio&#8221; sem passar pela fase do &#8220;femic\u00eddio&#8221;, ao contr\u00e1rio do Norte da Europa, onde o termo &#8220;femic\u00eddio&#8221; \u00e9 mais utilizado. O termo regressou com o movimento #MeToo, n\u00e3o dos Estados Unidos mas da Am\u00e9rica Latina, e os dois termos fundiram-se.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Fran\u00e7a e na Europa, usamos o termo feminic\u00eddio para descrever um femic\u00eddio. Embora considere importante conhecer a origem das palavras &#8211; e a sua hist\u00f3ria &#8211; n\u00e3o estou particularmente ligado \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de uma palavra ou de outra. Penso que \u00e9 importante nomear o fen\u00f3meno como um todo, e \u00e9 por isso que prefiro falar de um &#8220;continuum de feminic\u00eddio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>&#8220;Os homens t\u00eam medo que as mulheres se riam deles. As mulheres t\u00eam medo que os homens as matem&#8221;, Margaret Atwood<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Quanto ao car\u00e1cter genocida originalmente definido por Marcela Lagarde y de los Rios, n\u00e3o se aplica apenas \u00e0 situa\u00e7\u00e3o no M\u00e9xico ou, mais genericamente, na Am\u00e9rica. Um femic\u00eddio &#8211; ainda que parte de um ineg\u00e1vel sistema de esmagamento de mulheres &#8211; pode ser considerado um &#8220;ato isolado&#8221;, mas centenas de &#8220;femic\u00eddios&#8221; fazem um &#8220;feminic\u00eddio&#8221;, que \u00e9 sempre um crime de massa.<\/p>\n\n\n\n<p>Discuss\u00f5es sobre como identificar e registar os feminic\u00eddios existem em Fran\u00e7a, mas tamb\u00e9m noutros pa\u00edses europeus. Mas o facto de n\u00e3o serem contabilizados da mesma forma torna as compara\u00e7\u00f5es \u00e0 escala europeia muito dif\u00edceis. Quando se fazem compara\u00e7\u00f5es, h\u00e1 um grande risco de o denominador comum ser o mais baixo e o menos pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>No entanto, em It\u00e1lia e em Espanha, por exemplo, fala-se de &#8220;viol\u00eancia estrutural&#8221;, que inclui o feminic\u00eddio, sem considerar o car\u00e1cter genocida do termo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Absolutamente. O problema \u00e9 a escala. Foi por isso que criei o conceito de &#8220;continuum do feminic\u00eddio&#8221;, para mostrar a natureza sist\u00e9mica do feminic\u00eddio. O femic\u00eddio e o feminic\u00eddio s\u00e3o apenas a ponta do iceberg patriarcal. O conceito de &#8220;continuum do feminic\u00eddio&#8221; permite dar conta de todas as formas de viol\u00eancia contra as mulheres, do nascimento \u00e0 morte.<\/p>\n\n\n\n<p>O feminic\u00eddio n\u00e3o ser\u00e1 travado se n\u00e3o tomarmos consci\u00eancia do que o autoriza, nomeadamente as desigualdades estruturais e a impunidade que lhes est\u00e1 associada.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixa-me explicar. Nenhum homem come\u00e7a por ser um perpetrador de feminic\u00eddio. A execu\u00e7\u00e3o de mulheres surge como parte de uma longa biografia de viol\u00eancia. Para que um homem mate uma mulher por ser mulher, tem de estar num ambiente onde a viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9 geralmente regida por um regime de impunidade e onde o Estado &#8211; e as suas institui\u00e7\u00f5es &#8211; colaboram, ativa ou passivamente.<\/p> <p>\n\n\n\n<p>Esta viol\u00eancia tem de ser vista como parte de um fluxo que, na minha opini\u00e3o, n\u00e3o pode ser classificado por ordem de import\u00e2ncia. O homic\u00eddio n\u00e3o \u00e9, em termos absolutos, mais grave do que um insulto, porque ambos partem da mesma l\u00f3gica mort\u00edfera. O homem que mata uma mulher ter\u00e1 cometido previamente numerosos actos de viol\u00eancia que a sociedade considera &#8220;aceit\u00e1veis&#8221; &#8211; porque banais e banalizados &#8211; e, por isso, nunca ter\u00e1 sido preso. Estes actos de viol\u00eancia ter\u00e3o sido descritos como &#8220;micro-agress\u00f5es&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>&#8216;O feminic\u00eddio n\u00e3o ser\u00e1 travado se n\u00e3o tomarmos consci\u00eancia do que o autoriza, nomeadamente as desigualdades estruturais e a impunidade que lhes est\u00e1 associada&#8217;<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>E as mulheres s\u00e3o muitas vezes as primeiras a desvalorizar a situa\u00e7\u00e3o. &#8220;Chamaram-me outra vez &#8216;puta suja&#8217; na rua. N\u00e3o disse nada porque estava com pressa, n\u00e3o posso estar sempre em guerra, tinha medo&#8230;&#8221; Como salienta a grande escritora canadiana Margaret Atwood, &#8220;os homens t\u00eam medo que as mulheres se riam deles. As mulheres t\u00eam medo que os homens as matem&#8221;. Os homens est\u00e3o habituados a atacar as mulheres, insultando-as e tocando-as sem a sua autoriza\u00e7\u00e3o, na escola, no trabalho e na rua. Os homens est\u00e3o tamb\u00e9m habituados \u00e0 cultura do incesto e da viola\u00e7\u00e3o&#8230; No fim da cadeia est\u00e3o os homens que se permitem matar mulheres. Tudo isto \u00e9 acentuado pelos nossos h\u00e1bitos culturais, legais e ilegais, da literatura ao cinema e \u00e0 pornografia direta. \u00c9 uma m\u00e1quina de guerra dirigida contra as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que \u00e9 que se pode fazer para mudar esta situa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A longo prazo, precisamos de nos afastar da l\u00f3gica da repress\u00e3o\/puni\u00e7\u00e3o porque ela \u00e9 profundamente patriarcal. O valor cardinal da masculinidade hegem\u00f3nica \u00e9 a viol\u00eancia, e isso deve ser constantemente enfatizado. O afastamento da l\u00f3gica repressiva, no entanto, deve ser feito n\u00e3o \u00e0 custa das v\u00edtimas &#8211; e das suas fam\u00edlias &#8211; mas com uma preocupa\u00e7\u00e3o constante de repara\u00e7\u00e3o, condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para a reconstru\u00e7\u00e3o individual e colectiva.<\/p>\n\n\n\n<p>O aumento das penas de pris\u00e3o n\u00e3o resolve o problema, como sabemos. Tanto mais que as pol\u00edticas repressivas s\u00e3o frequentemente acompanhadas de discursos culturalistas e racistas que privilegiam certos homens em detrimento de outros. No s\u00e9culo XIX, na Europa, os prolet\u00e1rios brancos eram estigmatizados. Hoje, \u00e9 o novo proletariado racializado que \u00e9 estigmatizado. Isto \u00e9 demasiado conveniente, evitando a discuss\u00e3o da viol\u00eancia das classes dominantes e recordando a natureza sist\u00e9mica do &#8220;continuum do feminic\u00eddio&#8221;: todas as faixas et\u00e1rias, todas as categorias etno-confessionais, todos os meios sociais e, claro, todas as profiss\u00f5es s\u00e3o afectadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A curto prazo, devemos, portanto, melhorar a considera\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia em todo o continuum femicida: devemos acreditar e proteger as mulheres. Isto implica uma mudan\u00e7a total de paradigma. Assim, a viola\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u00fanico crime em que a v\u00edtima tem de se explicar constantemente: quando o seu telem\u00f3vel \u00e9 roubado, ningu\u00e9m procura saber as condi\u00e7\u00f5es em que o estava a utilizar. Pelo contr\u00e1rio, para as v\u00edtimas de viola\u00e7\u00e3o, o contexto \u00e9 questionado, o uso de drogas ou \u00e1lcool, a exist\u00eancia ou aus\u00eancia de um parceiro, a forma como estava vestida, a hora e o local&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como \u00e9 que passamos do curto prazo para o longo prazo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu acredito muito na pol\u00edtica das mulheres. Obviamente, n\u00e3o somos &#8220;naturalmente&#8221; benevolentes. Mas a nossa socializa\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero \u00e9 muito poderosa: somos muito bem domesticadas, particularmente em termos de&nbsp;<em>cuidados<\/em>. Isso faz de n\u00f3s seres mais sociais e soci\u00e1veis do que os homens, de um modo geral. Neste sentido, apoiar a pol\u00edtica das mulheres significa promover uma sociedade mais solid\u00e1ria, emp\u00e1tica e inclusiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Na minha opini\u00e3o, esta \u00e9 a \u00fanica maneira de produzir sociedades vi\u00e1veis. Ao dizer isto, fa\u00e7o a liga\u00e7\u00e3o entre o feminic\u00eddio e o ecoc\u00eddio. As mulheres foram as primeiras col\u00f3nias, porque a humanidade desenvolveu-se quando os homens come\u00e7aram a tomar o poder sobre o ventre das mulheres. Essa foi a primeira fronteira. Todos os outros regimes de poder s\u00e3o uma extens\u00e3o desta matriz elementar, incluindo a viol\u00eancia racista e capitalista. Antes de existirem sociedades humanas no sentido estrito da palavra &#8211; antes de existirem castas, classes e ra\u00e7as &#8211; houve viol\u00eancia contra as mulheres, desde o in\u00edcio da nossa esp\u00e9cie.<\/p>\n\n\n\n<p>Traduzido por&nbsp;<a href=\"https:\/\/voxeurop.eu\/en\/author\/ciaranl\/\">Ciar\u00e1n Lawless<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dar um nome \u00e0s coisas \u00e9 escrever a sua hist\u00f3ria. Tamb\u00e9m lhes d\u00e1 uma exist\u00eancia. Uma entrevista com a historiadora Christelle Taraud, sobre a diferen\u00e7a entre &#8220;feminic\u00eddio&#8221; e &#8220;f\u00e9mic\u00eddio&#8221;: a hist\u00f3ria de uma palavra que nasce em Bruxelas nos anos 70, testemunha os assassinatos de mulheres no M\u00e9xico dos anos 80 e regressa com #MeToo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":30097,"parent":0,"template":"","tags":[],"displeu_category":[],"class_list":["post-30137","article","type-article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/article\/30137","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/article"}],"about":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/30097"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=30137"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=30137"},{"taxonomy":"displeu_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/displeu_category?post=30137"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}