{"id":32683,"date":"2024-03-26T10:37:47","date_gmt":"2024-03-26T09:37:47","guid":{"rendered":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/?post_type=article&#038;p=32683"},"modified":"2024-09-06T16:36:09","modified_gmt":"2024-09-06T14:36:09","slug":"porque-e-que-a-esquerda-alema-e-pro-russa","status":"publish","type":"article","link":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/article\/porque-e-que-a-esquerda-alema-e-pro-russa\/","title":{"rendered":"Porque \u00e9 que a esquerda alem\u00e3 \u00e9 pr\u00f3-russa?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Kaja Puto: Porqu\u00ea a simpatia da esquerda alem\u00e3 pela R\u00fassia?<\/strong><\/p>\n\n<p><strong>Reinhard Bingener: <\/strong>Na Alemanha, temos quatro partidos de esquerda &#8211; o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), a Esquerda (Die Linke), os Verdes (Die Gr\u00fcnen) e a nova <a href=\"https:\/\/krytykapolityczna.pl\/swiat\/ue\/krolowa-niemieckiego-alt-leftu-chce-sie-dogadac-z-putinem\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Alian\u00e7a Sahra Wagenknecht<\/a> (BSW). Cada um tem uma atitude ligeiramente diferente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia. No caso do SPD, os anos 60 foram cruciais para a sua forma\u00e7\u00e3o. e 70, \u00e9pocas de desenvolvimento dos movimentos pacifistas. Nessa altura, os jovens sociais-democratas estavam a puxar o partido para o marxismo. O mais conhecido dos pol\u00edticos pr\u00f3-russos do SPD, Gerhard Schr\u00f6der, pertencia a esta mesma gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n<p>Os Verdes nasceram do mesmo clima ideol\u00f3gico, mas no seu caso o conceito de direitos humanos acabou por se impor. Este facto levou-os a posicionarem-se contra a R\u00fassia e, por conseguinte, a serem mais favor\u00e1veis \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o transatl\u00e2ntica. A esquerda, por outro lado, \u00e9 um projeto largamente p\u00f3s-comunista. As concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas marxistas e o antiamericanismo desempenham um papel ainda mais importante neste partido do que no SPD. O mesmo se passa com a Alian\u00e7a de Sahra Wagenknecht.<\/p>\n\n<p><strong>O SPD \u00e9 o maior e mais antigo destes partidos, co-fundou muitos governos e lidera a coliga\u00e7\u00e3o que governa a Alemanha desde 2021. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, desempenhou o papel mais importante na defini\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa da Alemanha em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia. Como \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel que ainda mantenha esta  <\/strong><a href=\"https:\/\/krytykapolityczna.pl\/kraj\/anna-gorska-zachodnia-lewice-charakteryzuje-naiwny-pacyfizm-my-jestesmy-realistami-rozmowa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\n  <strong>pacifismo ing\u00e9nuo<\/strong>\n<\/a><strong>? <\/strong> <\/p>\n\n<p><strong>Markus Wehner:<\/strong> Esta pol\u00edtica ing\u00e9nua foi moldada, como mostramos no livro, por tr\u00eas factores. O primeiro \u00e9 o anti-americanismo generalizado na Alemanha, que \u00e9 hoje particularmente forte na esquerda e cuja consequ\u00eancia \u00e9 o pr\u00f3-russianismo. A situa\u00e7\u00e3o atinge o auge quando um presidente de direita chega ao poder nos Estados Unidos. Na primeira d\u00e9cada do novo s\u00e9culo, quando George W. Bush era presidente dos EUA e Vladimir Putin da R\u00fassia, os principais pol\u00edticos do SPD proclamavam que precis\u00e1vamos de uma dist\u00e2ncia igual, ou seja, de uma rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o estreita com a NATO como com a R\u00fassia.<\/p>\n\n<p><strong>A esquerda polaca tamb\u00e9m critica os EUA e as v\u00e1rias interven\u00e7\u00f5es da NATO, mas n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3-russa.<\/strong><\/p>\n\n<p><strong>R.B.: <\/strong>Bem, sim, mas a R\u00fassia nunca colonizou a Alemanha como fez com a Pol\u00f3nia durante muito tempo. Na Alemanha, esta experi\u00eancia limitou-se \u00e0 RDA, ou seja, a quarenta e cinco anos e a um quarto da popula\u00e7\u00e3o. A isto junta-se a cren\u00e7a, enraizada na hist\u00f3ria cultural alem\u00e3, na superficialidade dos Estados Unidos e do Ocidente, que \u00e9 contrariada pela alma profunda que supostamente une russos e alem\u00e3es. A arrog\u00e2ncia cultural tamb\u00e9m desempenha um papel importante.<\/p>\n\n<p><strong>M.W.:<\/strong> Outro fator que influenciou a pol\u00edtica alem\u00e3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia foi a culpa alem\u00e3 pelos crimes cometidos na URSS durante a Segunda Guerra Mundial. H\u00e1 uma perce\u00e7\u00e3o entre muitos alem\u00e3es, especialmente na gera\u00e7\u00e3o mais velha, de que devemos a paz \u00e0 R\u00fassia. De acordo com esta l\u00f3gica, os mais de vinte milh\u00f5es de cidad\u00e3os da URSS que morreram durante a guerra eram russos, embora, afinal de contas, tamb\u00e9m se encontrassem entre eles ucranianos, bielorrussos e muitos outros povos.<\/p>\n\n<p><strong>E o terceiro fator?<\/strong><\/p>\n\n<p><strong>M.W.:<\/strong> <em>Ostpolitik<\/em> [Pol\u00edtica de Leste &#8211; nota do autor]. Foi concebido na d\u00e9cada de 1970. pelo SPD de Willy Brandt. Inicialmente motivada por um desejo de aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 RDA, acabou por evoluir para uma pol\u00edtica de reconcilia\u00e7\u00e3o e aproxima\u00e7\u00e3o a todo o Bloco de Leste. Foi nessa altura que a fronteira entre o Oder e o Neisse foi reconhecida e se iniciou o com\u00e9rcio com a URSS e outros pa\u00edses da regi\u00e3o. O g\u00e1s sovi\u00e9tico come\u00e7ou a entrar na Alemanha. Ao mesmo tempo, a Alemanha estava a gastar 4-5%. A coopera\u00e7\u00e3o entre o PIB e a defesa foi acompanhada pela dissuas\u00e3o da Guerra Fria.<\/p>\n\n<p>Embora eu considere a primeira fase da <em>Ostpolitik <\/em>positiva, a segunda fase foi um prel\u00fadio da coopera\u00e7\u00e3o ing\u00e9nua da Alemanha com a ditadura em que a R\u00fassia, agora independente, se estava a tornar. Na d\u00e9cada de 1980. De facto, o SPD centrou-se em parcerias de seguran\u00e7a com regimes comunistas. Os sociais-democratas tratavam os oposicionistas na Pol\u00f3nia ou na Checoslov\u00e1quia como desordeiros &#8211; basta dizer que Willy Brandt se recusou a encontrar-se com Lech Wa\u0142\u0119sa durante a sua viagem \u00e0 Pol\u00f3nia. Muitos deles opuseram-se tamb\u00e9m \u00e0 reunifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3.<\/p>\n\n<p><strong>Porqu\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n<p><strong>R.B.: <\/strong>Em parte porque n\u00e3o queriam que a Alemanha voltasse a ser um pa\u00eds grande e hegem\u00f3nico no centro da Europa. A cren\u00e7a na estabilidade dos regimes socialistas e a proximidade ideol\u00f3gica com eles tamb\u00e9m desempenharam provavelmente um papel importante.<\/p>\n\n<p><strong>M.W.: <\/strong>Sem d\u00favida. Quando o processo de unifica\u00e7\u00e3o come\u00e7ou, eu estava a ver a cobertura da reuni\u00e3o da presid\u00eancia do SPD. A pol\u00edtica do partido de esquerda Heidemarie Wieczorek-Zeul disse na altura que se o resultado da reunifica\u00e7\u00e3o fosse um refor\u00e7o da NATO e uma vit\u00f3ria do capitalismo, ela lutaria com todas as suas for\u00e7as contra isso.<\/p>\n\n<p><strong>E hoje o SPD gaba-se de que o muro foi derrubado precisamente por causa da sua <em>Ostpolitik&#8230;.<\/em><\/strong><\/p>\n\n<p><strong>M.W.: <\/strong>Quando a reunifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3 come\u00e7ou a ser vista como um \u00eaxito, o SPD decidiu assumir os louros. Por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas, n\u00e3o quiseram reconhecer o papel do Presidente republicano Ronald Reagan e da sua pol\u00edtica de armamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 URSS ou, por exemplo, do <a href=\"https:\/\/krytykapolityczna.pl\/kraj\/jan-pawel-ii-wiedzial-pedofilia-tvn\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Papa conservador Jo\u00e3o Paulo II<\/a>, que contribuiu para as mudan\u00e7as na Pol\u00f3nia. Por isso, criaram o mito da influ\u00eancia da <em>Ostpolitik.<\/em><\/p>\n\n<p><strong>Em 1990 &#8211; o mesmo ano em que a Alemanha se uniu &#8211; Gerhard Schr\u00f6der, uma das personagens principais do seu livro, tornou-se primeiro-ministro da Baixa Sax\u00f3nia. Foi marxista na sua juventude e nos anos noventa. confunde-se a si pr\u00f3prio e ao seu partido SPD com as grandes e sujas empresas. Como \u00e9 que isto acontece?<\/strong><\/p>\n\n<p><strong>R.B.: <\/strong>As particularidades do Estado da Baixa Sax\u00f3nia, que det\u00e9m participa\u00e7\u00f5es em grandes empresas como a Volkswagen, s\u00e3o em parte respons\u00e1veis por esta situa\u00e7\u00e3o. Ou na Salzgitter AG &#8211; um grande fabricante de a\u00e7o que existe desde a d\u00e9cada de 1970. produziu condutas de g\u00e1s para a URSS e, mais tarde, tamb\u00e9m para o gasoduto <a href=\"https:\/\/krytykapolityczna.pl\/swiat\/ue\/europejska-transformacja-energetyczna-nadzieja-dla-ukrainy\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Nord Stream<\/a>. O Primeiro-Ministro da Baixa Sax\u00f3nia faz parte do conselho de administra\u00e7\u00e3o destas empresas.<\/p>\n\n<p>Al\u00e9m disso, Schr\u00f6der gosta do mundo empresarial maastrichtiano. Entra num universo de homens mais velhos e bem sucedidos, que o impressionam pela sua vontade de correr riscos, lealdade m\u00fatua e dinheiro. Come\u00e7a com amizades com bandos de motociclistas e termina com autocratas. Respeita Recep Tayyip Erdo\u011fan, respeita Vladimir Putin, porque s\u00e3o homens fortes que tiveram sucesso.<\/p>\n\n<p>No entanto, embora as opini\u00f5es de Schr\u00f6der sobre a pol\u00edtica econ\u00f3mica estejam a mudar, ele mant\u00e9m-se coerente na sua vis\u00e3o da pol\u00edtica externa. Na d\u00e9cada de 1970. i 80. viaja para a URSS, nos anos 90. &#8211; como Primeiro-Ministro da Baixa Sax\u00f3nia &#8211; para a R\u00fassia.<\/p>\n\n<p><strong>M.W.: <\/strong>O dinheiro sempre desempenhou um papel importante para Schr\u00f6der, mesmo quando j\u00e1 era chanceler [ou seja, entre 1998 e 2005 &#8211; nota do autor]. Quando viajava com l\u00edderes empresariais, sentia-se desconfort\u00e1vel com o facto de todos eles ganharem mais do que ele. Provavelmente tamb\u00e9m por ter nascido na pobreza. A sua m\u00e3e era empregada de limpeza e o seu pai foi morto na guerra quando o rapaz tinha poucos anos. No mundo do poder e do dinheiro, ele era um novo-rico.<\/p>\n\n<p><strong>Vladimir Putin utilizou este facto da sua biografia para se aproximar da Chanceler Schr\u00f6der. Tinha um objetivo espec\u00edfico: alguns anos antes, tinha defendido o seu doutoramento sobre a utiliza\u00e7\u00e3o da exporta\u00e7\u00e3o de g\u00e1s como instrumento de pol\u00edtica externa.<\/strong><\/p>\n\n<p><strong>M.W.:<\/strong> Quando, na sua juventude, lhe perguntaram o que fazia no KGB, Putin respondeu que era um especialista em rela\u00e7\u00f5es humanas. E, de facto, ele \u00e9 muito bom nisso, capaz de descobrir muito sobre o objeto do seu interesse, os seus pontos positivos e negativos. Tamb\u00e9m Putin vem da pobreza, do bairro de Leningrado &#8211; como ele pr\u00f3prio diz &#8211; dos vidros partidos; tal como Schr\u00f6der, praticou desporto na sua juventude e conviveu com a comunidade criminosa, mas acabou por entrar na pol\u00edtica e ganhar poder.<\/p>\n\n<p>Al\u00e9m disso, Putin \u00e9 capaz de dar \u00e0s pessoas a sensa\u00e7\u00e3o de que s\u00e3o particularmente importantes. Schr\u00f6der disse-lhe que podia aprender muito com ele &#8211; um pol\u00edtico mais velho e experiente. Convidou-o a visitar Moscovo em privado e falou-lhe em alem\u00e3o sem int\u00e9rprete. Os homens iam juntos \u00e0 sauna, andavam de tren\u00f3 no parque e, no 60\u00ba anivers\u00e1rio de Schr\u00f6der, Putin levou-lhe um coro cossaco ao teatro de Han\u00f4ver para interpretar o hino da Baixa Sax\u00f3nia. Chegou mesmo ao ponto de Putin fazer com que o seu amigo alem\u00e3o adoptasse duas crian\u00e7as russas. Schr\u00f6der costumava dizer que as rela\u00e7\u00f5es germano-russas tinham atingido uma profundidade que nunca tinham tido antes. Mas estas eram, de facto, as suas rela\u00e7\u00f5es privadas.<\/p>\n\n<p><strong>Como \u00e9 que esta amizade se traduziu na pol\u00edtica interna do Chanceler Schr\u00f6der?<\/strong><\/p>\n\n<p><strong>M.W.:<\/strong> Schr\u00f6der apresentou os interesses do sector energ\u00e9tico alem\u00e3o como interesses nacionais alem\u00e3es. Quando se falou em comprar g\u00e1s russo, Schr\u00f6der n\u00e3o disse que era do interesse do sector energ\u00e9tico alem\u00e3o ou da economia alem\u00e3, mas que era do interesse da Alemanha. Desta forma, defendeu, por exemplo, a acelera\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o do Nord Stream. As coisas tornaram-se ainda mais interessantes quando deixou de ser Chanceler, mas continuou a dirigir a pol\u00edtica alem\u00e3 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia a partir do banco de tr\u00e1s.<\/p>\n\n<p><strong>Depois de Schr\u00f6der, Angela Merkel torna-se Chanceler. O seu partido, a CDU, governou a Alemanha durante quatro mandatos, em coliga\u00e7\u00e3o com o SPD.<\/strong><\/p>\n\n<p><strong>M.W.:<\/strong> Schr\u00f6der passa ent\u00e3o a fazer parte do sector energ\u00e9tico russo como presidente do conselho de supervis\u00e3o da Nord Stream. Ao mesmo tempo, desempenha o papel de um antigo chanceler reconhecido internacionalmente. E influencia a forma do governo alem\u00e3o. Coloca os seus colaboradores mais pr\u00f3ximos &#8211; primeiro Frank-Walter Steinmeier como Ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, depois Sigmar Gabriel como Ministro da Economia.<\/p>\n\n<p>Durante muito tempo, houve um limite na ind\u00fastria energ\u00e9tica alem\u00e3 &#8211; n\u00e3o se podia importar mais de 30%. de um \u00fanico fornecedor. Durante o mandato do Ministro Gabriel, foi aumentado para 55%. Isto aconteceu j\u00e1 depois da <a href=\"https:\/\/krytykapolityczna.pl\/swiat\/putin-kpi-z-zachodu-miedzynarodowa-prasa-o-aneksji-krymu\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">anexa\u00e7\u00e3o da Crimeia<\/a>, o que \u00e9 inexplic\u00e1vel para mim.<\/p>\n\n<p><strong>Os alem\u00e3es foram persuadidos pelos pol\u00edticos de que o g\u00e1s russo era o mais barato. No seu livro, prova que isso n\u00e3o \u00e9 verdade.<\/strong><\/p>\n\n<p><strong>M.W.:<\/strong> Os terminais de GNL n\u00e3o foram constru\u00eddos para permitir a compra de g\u00e1s de outras fontes ou, pelo menos, para negociar as condi\u00e7\u00f5es financeiras de fornecimento com Moscovo. Desta forma, a Alemanha tornou-se dependente do g\u00e1s russo e permitiu que o fornecedor ditasse os pre\u00e7os. Acreditava-se que a R\u00fassia era um fornecedor seguro e que n\u00e3o t\u00ednhamos nada a temer.<\/p>\n\n<p><strong>R.B.:<\/strong> Para al\u00e9m disso, as instala\u00e7\u00f5es de armazenamento de g\u00e1s alem\u00e3s foram vendidas \u00e0 R\u00fassia. Pode dizer-se que a R\u00fassia utilizou a liberaliza\u00e7\u00e3o europeia dos mercados da energia para os seus pr\u00f3prios fins. A Gazprom tornou-se n\u00e3o s\u00f3 um produtor, mas tamb\u00e9m o propriet\u00e1rio de infra-estruturas de g\u00e1s, gasodutos e instala\u00e7\u00f5es de armazenamento de g\u00e1s. Foi com base nisto que construiu a sua posi\u00e7\u00e3o. Os alem\u00e3es acreditavam que a seguran\u00e7a europeia n\u00e3o era poss\u00edvel sem bons contactos com a R\u00fassia. E quando rebentou uma guerra em grande escala, descobriram, para sua surpresa, que as instala\u00e7\u00f5es de armazenamento de g\u00e1s estavam vazias.<\/p>\n\n<p><strong>Gerhard Schr\u00f6der tornou-se ent\u00e3o o vil\u00e3o. Discutiu-se a sua destitui\u00e7\u00e3o do SPD, foi destitu\u00eddo do seu antigo cargo de chanceler no Bundestag e perdeu tamb\u00e9m a cidadania honor\u00e1ria de Han\u00f4ver. Mais ningu\u00e9m se sentiu culpado?<\/strong><\/p>\n\n<p><strong>R.B.:<\/strong> Considero que se trata de uma grande conquista pol\u00edtica para o SPD. Schr\u00f6der tornou-se o principal culpado, enquanto outros pol\u00edticos respons\u00e1veis por pol\u00edticas pr\u00f3-russas permaneceram nos seus cargos.<\/p>\n\n<p>Nem Frank-Walter Steinmeier, atual Presidente da Alemanha, nem Sigmar Gabriel, que dirige a Atlantic Bridge, uma associa\u00e7\u00e3o que promove as rela\u00e7\u00f5es entre a Alemanha e os Estados Unidos, se demitiram. A primeira-ministra de Mecklenburg-Vorpommern continua a ser Manuela Schwesig, que foi fundamental na cria\u00e7\u00e3o da infame Funda\u00e7\u00e3o para a Prote\u00e7\u00e3o do Clima, criada para contornar as san\u00e7\u00f5es dos EUA contra a R\u00fassia.<\/p>\n\n<p>Alguns tentaram justificar-se, outros desapareceram durante v\u00e1rias semanas. E quando a poeira da batalha assentou, regressaram lentamente aos seus pap\u00e9is.<\/p>\n\n<p><strong>M.W.: <\/strong>H\u00e1 que acrescentar, no entanto, que isso foi feito \u00e0 custa da sua credibilidade. No in\u00edcio da guerra, o Presidente Steinmeier ofereceu \u00e0 Ucr\u00e2nia uma visita a Kiev, que foi recusada. O primeiro-ministro Schwesig j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a grande esperan\u00e7a do SPD.<\/p>\n\n<p><strong>O que \u00e9 que 2022 mudou na esquerda alem\u00e3?<\/strong><\/p>\n\n<p><strong>R.B.:<\/strong> O SPD prestou mais aten\u00e7\u00e3o ao papel da pol\u00edtica energ\u00e9tica na defesa, bem como aos pa\u00edses da Europa de Leste &#8211; n\u00e3o s\u00f3 a Ucr\u00e2nia, mas tamb\u00e9m a Pol\u00f3nia e os Estados B\u00e1lticos. Foi atribu\u00eddo mais dinheiro ao armamento &#8211; a Alemanha conseguiu finalmente atingir o seu objetivo de gastar 2% na defesa. PIB. O pr\u00f3prio chanceler Olaf Scholz tem-se mostrado cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia desde 2017. No entanto, ainda h\u00e1 pessoas no partido que especulam sobre o restabelecimento de contactos com Moscovo.<\/p>\n\n<p>Os Verdes endureceram a sua posi\u00e7\u00e3o pr\u00f3-ucraniana e come\u00e7aram tamb\u00e9m a defender um refor\u00e7o da defesa e uma maior abertura \u00e0s estruturas militares, incluindo a NATO em particular. O Die Linke, pelo contr\u00e1rio, continua a defender o primado da chamada pol\u00edtica de paz e uma posi\u00e7\u00e3o fortemente cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 NATO e ao armamento.<\/p>\n\n<p><strong>M.W.:<\/strong> No que diz respeito ao SPD, os discursos do presidente do partido, Lars Klingbeil, outrora um pol\u00edtico com liga\u00e7\u00f5es \u00e0 R\u00fassia, parecem reveladores. Ap\u00f3s o in\u00edcio da guerra, sublinhou repetidamente que a Alemanha deveria ter ouvido com mais aten\u00e7\u00e3o os seus parceiros orientais da NATO e que, atualmente, j\u00e1 n\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a com a R\u00fassia, mas sim de seguran\u00e7a face \u00e0 R\u00fassia. No entanto, muitos membros seniores do SPD n\u00e3o gostam necessariamente desta narrativa.<\/p>\n\n<p><strong>At\u00e9 que ponto \u00e9 sustent\u00e1vel esta transforma\u00e7\u00e3o dos sociais-democratas? O Chanceler Scholz d\u00e1 agora a impress\u00e3o de um trav\u00e3o \u00e0 ajuda militar. Recusa-se a entregar m\u00edsseis de longo alcance Taurus e, al\u00e9m disso, comentou publicamente o compromisso n\u00e3o revelado da NATO de operar m\u00edsseis semelhantes na Ucr\u00e2nia.<\/strong><\/p>\n\n<p><strong>R.B.:<\/strong> N\u00e3o se pode excluir, com toda a certeza, que a chamada &#8220;Uni\u00e3o Europeia&#8221; n\u00e3o possa fazer parte deste processo. os russlandverstehers [perdoando a R\u00fassia &#8211; nota do editor] voltam a estar em destaque. As sondagens indicam claramente que o p\u00fablico tem medo de confrontos. A maioria dos cidad\u00e3os n\u00e3o quer irritar o urso russo, pensa que \u00e9 melhor deix\u00e1-lo em paz e que isso se consegue n\u00e3o aumentando o fornecimento de armas. O Chanceler Scholz apoia a Ucr\u00e2nia em termos inequ\u00edvocos, mas tem em conta este sentimento.<\/p>\n\n<p><strong>M.W.:<\/strong> A oposi\u00e7\u00e3o ao rearmamento da Ucr\u00e2nia \u00e9 forte, sobretudo na Alemanha de Leste. Embora a regi\u00e3o tenha sofrido uma ocupa\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica, a simpatia pela R\u00fassia, mas tamb\u00e9m o respeito pelo seu poder, continua a ser muito forte. Scholz tem outro problema: a situa\u00e7\u00e3o da economia alem\u00e3 n\u00e3o \u00e9 a melhor e os cidad\u00e3os est\u00e3o a sofrer um aumento do custo de vida. Nesta situa\u00e7\u00e3o, a ala esquerda do SPD \u00e9 c\u00e9tica quanto a um aumento radical das despesas com a defesa. Os pol\u00edticos da fa\u00e7\u00e3o temem que isso resulte numa falta de dinheiro para a educa\u00e7\u00e3o, as despesas sociais ou a prote\u00e7\u00e3o do clima.<\/p>\n\n<p><strong>Mais recentemente, os propagandistas do Kremlin come\u00e7aram a apelar \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o das conclus\u00f5es da confer\u00eancia sobre a reunifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3. A ressurrei\u00e7\u00e3o da RDA \u00e9, obviamente, improv\u00e1vel, mas existe a possibilidade de a R\u00fassia atacar os pa\u00edses da NATO no futuro &#8211; pequena mas real. A Alemanha n\u00e3o tem medo de um tal cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n\n<p><strong>R.B.:<\/strong> Do ponto de vista alem\u00e3o, esta amea\u00e7a \u00e9 mais distante do que para os polacos, quanto mais n\u00e3o seja porque, ao contr\u00e1rio de v\u00f3s, n\u00e3o fazemos fronteira com a R\u00fassia. Concordo com Markus que o n\u00facleo emocional da abordagem alem\u00e3 \u00e0 R\u00fassia \u00e9 o medo de provocar o urso ou uma esp\u00e9cie de timidez.<\/p>\n\n<p>Simultaneamente, qualquer pol\u00edtico sensato tem hoje consci\u00eancia da import\u00e2ncia de uma pol\u00edtica de dissuas\u00e3o. Tanto a Pol\u00f3nia como a Alemanha contam com o apoio transatl\u00e2ntico nesta quest\u00e3o, uma vez que a Alemanha faz parte do acordo da NATO para a partilha de armas nucleares t\u00e1cticas. No entanto, o espetro da <a href=\"https:\/\/krytykapolityczna.pl\/swiat\/usa-wybory-trump-wartosci-zewnetrzne\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">vit\u00f3ria de Donald Trump<\/a> deve fazer-nos refletir sobre se \u00e9 tempo de construir uma for\u00e7a de dissuas\u00e3o europeia.<\/p>\n\n<p><strong>Reinhard Bingener<\/strong> (nascido em 1979) \u00e9 um jornalista do Frankfurter Allgemeine Zeitung. Estudou teologia evang\u00e9lica em Halle-Wittenberg, Chicago e Munique. Desde 2014. relata os acontecimentos pol\u00edticos na Baixa Sax\u00f3nia, Sax\u00f3nia-Anhalt e Bremen. Coautor do livro  <em>Liga\u00e7\u00e3o de Moscovo. Rede  <\/em><em>Schr\u00f6der and Germany&#8217;s Road to Dependence<\/em>&#8220;, que acaba de ser publicado em polaco, numa tradu\u00e7\u00e3o de Joanna Czudec, pela editora do Western Institute.<\/p>\n\n<p><strong>Markus Wehner<\/strong> (nascido em 1963) \u00e9 um historiador e jornalista. Estudou Hist\u00f3ria da Europa Oriental, Ci\u00eancia Pol\u00edtica e Estudos Eslavos em Berlim, Friburgo e Moscovo. Desde 1996. associado ao Frankfurter Allgemeine Zeitung. De 1999 a 2004, correspondente deste jornal di\u00e1rio em Moscovo. Atualmente, escreve sobretudo sobre pol\u00edtica interna alem\u00e3. Coautor do livro  <em>Liga\u00e7\u00e3o de Moscovo. Rede  <\/em><em>Schr\u00f6der and Germany&#8217;s Road to Dependence<\/em>&#8220;, que acaba de ser publicado em polaco, numa tradu\u00e7\u00e3o de Joanna Czudec, pela editora do Western Institute.<\/p>\n\n<p>**<br\/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/edceah5uf5z.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/EN_Co-funded-logo.png?strip=all&amp;lossy=1&amp;sharp=1&amp;resize=312%2C70&amp;ssl=1\" alt=\"\" width=\"312\" height=\"70\" srcset=\"https:\/\/edceah5uf5z.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/EN_Co-funded-logo.png?strip=all&amp;lossy=1&amp;sharp=1&amp;resize=312%2C70&amp;ssl=1 312w, https:\/\/edceah5uf5z.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/EN_Co-funded-logo.png?strip=all&amp;lossy=1&amp;sharp=1&amp;ssl=1 4119w, https:\/\/edceah5uf5z.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/EN_Co-funded-logo-600x134.png?strip=all&amp;lossy=1&amp;sharp=1&amp;ssl=1 600w, https:\/\/edceah5uf5z.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/EN_Co-funded-logo-1920x428.png?strip=all&amp;lossy=1&amp;sharp=1&amp;ssl=1 1920w, https:\/\/edceah5uf5z.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/EN_Co-funded-logo-768x171.png?strip=all&amp;lossy=1&amp;sharp=1&amp;ssl=1 768w, https:\/\/edceah5uf5z.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/EN_Co-funded-logo-1536x343.png?strip=all&amp;lossy=1&amp;sharp=1&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/edceah5uf5z.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/EN_Co-funded-logo-2048x457.png?strip=all&amp;lossy=1&amp;sharp=1&amp;ssl=1 2048w, https:\/\/edceah5uf5z.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/EN_Co-funded-logo.png?strip=all&amp;lossy=1&amp;sharp=1&amp;w=188&amp;ssl=1 188w, https:\/\/edceah5uf5z.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/EN_Co-funded-logo.png?strip=all&amp;lossy=1&amp;sharp=1&amp;w=376&amp;ssl=1 376w, https:\/\/edceah5uf5z.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/EN_Co-funded-logo.png?strip=all&amp;lossy=1&amp;sharp=1&amp;w=940&amp;ssl=1 940w, https:\/\/edceah5uf5z.exactdn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/EN_Co-funded-logo.png?strip=all&amp;lossy=1&amp;sharp=1&amp;w=2820&amp;ssl=1 2820w\"\/><\/p>\n\n<p><em>Financiado pela Uni\u00e3o Europeia. Os pontos de vista e opini\u00f5es expressos s\u00e3o da responsabilidade dos autores e n\u00e3o reflectem necessariamente os pontos de vista da Uni\u00e3o Europeia ou da Dire\u00e7\u00e3o-Geral da Justi\u00e7a, Liberdade e Seguran\u00e7a. Redes de comunica\u00e7\u00f5es, conte\u00fados e tecnologias. Nem a Uni\u00e3o Europeia nem o organismo de financiamento s\u00e3o respons\u00e1veis por eles.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma perce\u00e7\u00e3o entre muitos alem\u00e3es, especialmente na gera\u00e7\u00e3o mais velha, de que devemos a paz \u00e0 R\u00fassia. De acordo com esta l\u00f3gica, os mais de vinte milh\u00f5es de cidad\u00e3os da URSS que morreram durante a guerra eram russos, embora, afinal, tamb\u00e9m estivessem entre eles ucranianos, bielorrussos e muitos outros povos &#8211; uma conversa com o jornalista alem\u00e3o Reinhard Bingener e o jornalista e historiador Markus Wehner.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":32431,"parent":0,"template":"","tags":[],"displeu_category":[],"class_list":["post-32683","article","type-article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/article\/32683","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/article"}],"about":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/32431"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32683"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32683"},{"taxonomy":"displeu_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/displeu_category?post=32683"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}