{"id":35150,"date":"2023-12-18T11:07:32","date_gmt":"2023-12-18T10:07:32","guid":{"rendered":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/?post_type=article&#038;p=35150"},"modified":"2024-09-06T16:42:52","modified_gmt":"2024-09-06T14:42:52","slug":"monumentos-nao-assinalados-de-vergonha-eus-na-croacia-e-bosnia","status":"publish","type":"article","link":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/article\/monumentos-nao-assinalados-de-vergonha-eus-na-croacia-e-bosnia\/","title":{"rendered":"Monumentos n\u00e3o assinalados da vergonha da UE na Cro\u00e1cia e na B\u00f3snia"},"content":{"rendered":"\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><em><strong>Este artigo faz parte da s\u00e9rie <\/strong><\/em><strong><a href=\"https:\/\/unbiasthenews.org\/border-graves-investigation\/\">&#8220;1000 Vidas, 0 Nomes: Border Graves investigation, how the EU is failing migrants&#8217; last rights&#8221;<\/a><\/strong><\/h5>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Na aldeia de Si\u010de, no leste da Cro\u00e1cia, h\u00e1 mais habitantes no cemit\u00e9rio do que entre os vivos. A aldeia tem 230 habitantes vivos e 250 mortos. Para ser mais exato, o cemit\u00e9rio alberga 247 habitantes locais e tr\u00eas desconhecidos. Haveria mais pessoas debaixo de terra se Si\u010de n\u00e3o tivesse conseguido o seu pr\u00f3prio cemit\u00e9rio apenas na d\u00e9cada de 1970. Haveria tamb\u00e9m ainda mais vivos se n\u00e3o tivessem, como muitos da regi\u00e3o, ido para as grandes cidades em busca de uma vida melhor. E tamb\u00e9m para o estrangeiro, sobretudo para a Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Os t\u00famulos dos habitantes de Si\u010de dizem brevemente ao visitante quem eram essas pessoas, onde pertencem e se os seus entes queridos se preocupam com elas. \u00c9 isso que acontece com os t\u00famulos, eles resumem as informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas da nossa vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a campa tem apenas a inscri\u00e7\u00e3o &#8220;NN&#8221;, isso resume uma trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><em>Quem s\u00e3o estas tr\u00eas pessoas cujos nomes s\u00e3o desconhecidos? Como \u00e9 que o seu \u00faltimo local de descanso \u00e9 uma sepultura simples em Si\u010de?<\/em><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Os imigrantes afogavam-se num rio pr\u00f3ximo, dir\u00e3o os locais. \u00c9 um lugar pequeno, \u00e9 um cemit\u00e9rio pequeno, e toda a gente sabe tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que n\u00e3o soubesses, \u00e9 evidente que o lugar daquelas tr\u00eas pessoas n\u00e3o \u00e9 ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles foram enterrados completamente separados do resto do cemit\u00e9rio. Tr\u00eas cruzes de madeira com inscri\u00e7\u00f5es NN, cravadas no ch\u00e3o, no limite do cemit\u00e9rio. NN, uma abreviatura do latim&nbsp;<em>nomen nescio<\/em>, significa literalmente &#8220;n\u00e3o sei o nome&#8221;. A explica\u00e7\u00e3o oficial do operador do cemit\u00e9rio p\u00fablico \u00e9 que foi deixado espa\u00e7o para mais enterros poss\u00edveis daqueles cujos nomes n\u00e3o s\u00e3o conhecidos. No entanto, a explica\u00e7\u00e3o que nos vem \u00e0 cabe\u00e7a quando l\u00e1 chegamos \u00e9 que foram enterrados separadamente para n\u00e3o se misturarem com os habitantes locais. Ou, como deixou escapar numa conversa telef\u00f3nica o presidente da c\u00e2mara de uma outra cidade, onde tamb\u00e9m foram enterrados imigrantes NN no limite do cemit\u00e9rio: &#8220;Para n\u00e3o atrapalharem&#8221;.\n\n\n\n<p>No cemit\u00e9rio de Si\u010de, estas s\u00e3o as \u00fanicas tr\u00eas campas de que ningu\u00e9m cuida. Em cerca de cinco anos, todos os vest\u00edgios delas poder\u00e3o desaparecer. O operador do cemit\u00e9rio p\u00fablico \u00e9 obrigado a enterrar os corpos n\u00e3o identificados, mas n\u00e3o a manter as sepulturas, a n\u00e3o ser que a sepultura perten\u00e7a a uma pessoa de &#8220;especial significado hist\u00f3rico e social&#8221;.\n\n\n\n<p>NN1, NN2 e NN3 t\u00eam um significado especial apenas para os seus entes queridos, que provavelmente nem sabem onde eles est\u00e3o. Talvez estejam \u00e0 espera de ter finalmente not\u00edcias deles da Europa Ocidental. Talvez estejam \u00e0 procura deles. Talvez estejam de luto por eles.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"573\" src=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Balkans_Croatia_Sice-graves_2-1-1536x859-1-1024x573.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21467\" srcset=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Balkans_Croatia_Sice-graves_2-1-1536x859-1-1024x573.jpg 1024w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Balkans_Croatia_Sice-graves_2-1-1536x859-1-360x201.jpg 360w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Balkans_Croatia_Sice-graves_2-1-1536x859-1-768x430.jpg 768w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Balkans_Croatia_Sice-graves_2-1-1536x859-1.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>T\u00famulos NN1, NN2 e NN3 no cemit\u00e9rio da aldeia de Si\u010de, na Cro\u00e1cia Oriental. Foto: Tina Xu<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Identidades conhecidas mas enterradas como desconhecidas&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>Se cavar um pouco mais fundo, aprender\u00e1 uma ou duas coisas sobre aqueles que descansam aqui sem nome.<\/p>\n\n\n\n<p>Na madrugada fria de 23 de dezembro de 2022, a pol\u00edcia encontrou dois corpos nas margens do Sava, o rio que separa a Cro\u00e1cia da B\u00f3snia-Herzegovina. Separa a Uni\u00e3o Europeia do resto da Europa. De acordo com o relat\u00f3rio da pol\u00edcia, foi tamb\u00e9m encontrado um grupo de vinte cidad\u00e3os estrangeiros que entraram ilegalmente na Cro\u00e1cia atrav\u00e9s do rio. Ao grupo faltava mais uma pessoa. Ap\u00f3s uma busca alargada, foi encontrado um terceiro corpo durante a tarde. O patologista do Hospital Geral da cidade de Nova Gradi\u0161ka estabeleceu que a hora da morte das tr\u00eas pessoas foi \u00e0s 2h45 da manh\u00e3. Duas morreram de hipotermia e uma afogou-se.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"561\" src=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/River-Sava-1536x842-1-1024x561.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21484\" srcset=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/River-Sava-1536x842-1-1024x561.jpg 1024w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/River-Sava-1536x842-1-360x197.jpg 360w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/River-Sava-1536x842-1-768x421.jpg 768w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/River-Sava-1536x842-1.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>O perigoso rio Sava que separa a Uni\u00e3o Europeia do resto da Europa. Foto: Tina Xu<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Encontr\u00e1mos neles cart\u00f5es de identidade de um campo de refugiados na B\u00f3snia e Herzegovina. Fic\u00e1mos a saber que, de acordo com os seus bilhetes de identidade, os tr\u00eas eram do Afeganist\u00e3o: Ahmedi Abozari tinha 17 anos, Basir Naseri tinha 21 anos e Shakir Atoin tinha 25 anos. NN1, NN2 e NN3.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><em>Outros imigrantes do grupo tamb\u00e9m confirmaram a identidade de dois deles, como nos disse a administra\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia do condado de Brodsko-Posavska. Ent\u00e3o porque \u00e9 que foram enterrados como NN? Se se sabia que eram do Afeganist\u00e3o, porque \u00e9 que foram enterrados debaixo de cruzes? Se as fam\u00edlias andam \u00e0 procura deles, como \u00e9 que os v\u00e3o encontrar?<\/em><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>A dire\u00e7\u00e3o do cemit\u00e9rio foi simp\u00e1tica e disse que fazem os enterros de acordo com o que est\u00e1 escrito na licen\u00e7a de enterro assinada pelo patologista &#8211; e dizia NN.<\/p>\n\n\n\n<p>O patologista disse que regista os dados com base nas informa\u00e7\u00f5es que recebe da pol\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>O departamento de pol\u00edcia competente disse-nos que a pessoa \u00e9 enterrada de acordo com as regras do munic\u00edpio local.<\/p>\n\n\n\n<p>O cemit\u00e9rio de Si\u010de pertence ao munic\u00edpio de Nova Kapela, cujo presidente da c\u00e2mara, Ivan \u0160mit, enumerou descontentemente todos os custos que o seu munic\u00edpio teve com esses enterramentos e disse que quem estiver disposto a pagar por isso pode mudar a inscri\u00e7\u00e3o NN para nomes. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depar\u00e1mo-nos com uma s\u00e9rie de ambiguidades administrativas semelhantes enquanto investig\u00e1vamos a forma como as autoridades lidam com as pessoas falecidas que recuperam nas fronteiras da UE, como parte da Border Graves Investigation, levada a cabo por uma equipa de oito freelancers de toda a Europa em conjunto com&nbsp;<em>Unbias the News<\/em>,&nbsp;<em>The Guardian<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>S\u00fcddeutsche Zeitung<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o existe uma base de dados europeia centralizada sobre o n\u00famero de sepulturas de migrantes na Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a equipa conseguiu confirmar a exist\u00eancia de pelo menos 1.931 sepulturas de migrantes na Gr\u00e9cia, It\u00e1lia, Espanha, Cro\u00e1cia, Malta, Pol\u00f3nia e Fran\u00e7a, datadas de 2014 a 2023. Destas, 1 015 n\u00e3o foram identificadas. Mais de metade das sepulturas n\u00e3o identificadas encontram-se na Gr\u00e9cia, 551, em It\u00e1lia, 248, e em Espanha, 109. Os dados foram obtidos com base em bases de dados de organiza\u00e7\u00f5es internacionais, organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, cientistas, autoridades locais e cemit\u00e9rios, e visitas de campo.<\/p> <p>\n\n\n\n<p>A equipa visitou 24 cemit\u00e9rios na Gr\u00e9cia, Espanha, It\u00e1lia, Cro\u00e1cia, Pol\u00f3nia e Litu\u00e2nia, onde h\u00e1 um total de 555 sepulturas de migrantes n\u00e3o identificados na \u00faltima d\u00e9cada, de 2014 a 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes s\u00e3o apenas aqueles cujos corpos foram encontrados. O Comit\u00e9 Internacional da Cruz Vermelha (CICV) estima que mais de 93% das pessoas desaparecidas nas fronteiras da Europa nunca s\u00e3o encontradas.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Fam\u00edlias perdidas na burocracia&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p>dezembro de 2022, quando os tr\u00eas jovens afeg\u00e3os morreram, foi mais chuvoso do que o habitual e o rio Sava inchou. Para come\u00e7ar, ele \u00e9 grande e r\u00e1pido.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa zona, apenas tr\u00eas dias antes, cinco cidad\u00e3os turcos desapareceram depois de o seu barco se ter virado no Sava. Entre eles encontravam-se uma menina de dois anos, um rapaz de doze anos e os seus pais. O irm\u00e3o do pai desaparecido veio da Alemanha para a Cro\u00e1cia para saber o que aconteceu \u00e0 fam\u00edlia. A partir da documenta\u00e7\u00e3o que temos em nossa posse, \u00e9 evidente que, com a ajuda da tradutora Nina Rajkovi\u0107, ele tentou obter informa\u00e7\u00f5es sobre os seus familiares desaparecidos em v\u00e1rias esquadras da pol\u00edcia. Mesmo meses depois, n\u00e3o recebeu quaisquer actualiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois tinham querido apresentar uma queixa por desaparecimento, mas a pol\u00edcia disse-lhes que n\u00e3o fazia sentido faz\u00ea-lo se a pessoa n\u00e3o tinha sido previamente registada no territ\u00f3rio da Cro\u00e1cia ou da B\u00f3snia-Herzegovina.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontr\u00e1mos uma s\u00e9rie de exemplos semelhantes. Um jovem tinha vindo para a Cro\u00e1cia e comunicou \u00e0 pol\u00edcia da Cro\u00e1cia e da Eslov\u00e9nia que o seu irm\u00e3o se tinha afogado no rio Kupa, que separa os dois pa\u00edses. No entanto, o desaparecimento do seu irm\u00e3o n\u00e3o foi registado na base de dados nacional croata de pessoas desaparecidas, que est\u00e1 dispon\u00edvel ao p\u00fablico. A pol\u00edcia n\u00e3o o contactou depois de terem sido encontrados v\u00e1rios corpos n\u00e3o identificados no Kupa nos dias seguintes.<\/p>\n\n\n\n<p>Num outro exemplo, um homem afeg\u00e3o esperou seis meses para que o corpo do seu irm\u00e3o, que se afogou quando tentaram atravessar o Sava juntos, tamb\u00e9m em dezembro de 2022, fosse transferido da Cro\u00e1cia para a B\u00f3snia-Herzegovina para que ele o pudesse enterrar. Apesar de ter confirmado que se tratava do seu irm\u00e3o, o processo de identifica\u00e7\u00e3o foi longo e complicado.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 numerosas fam\u00edlias que tentaram de longe encontrar os seus entes queridos desaparecidos no territ\u00f3rio da Cro\u00e1cia, para finalmente desistirem desanimadas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muitas perguntas e poucas respostas claras quando se trata da quest\u00e3o dos migrantes desaparecidos e mortos na chamada Rota dos Balc\u00e3s, da qual a Cro\u00e1cia faz parte. N\u00e3o existem protocolos e procedimentos claros que definam a quem e como comunicar o desaparecimento de uma pessoa. N\u00e3o se sabe se os migrantes desaparecidos s\u00e3o ativamente procurados, como acontece com os turistas quando desaparecem no ver\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 claro que tipo de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para a identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>&#8220;A circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o entre institui\u00e7\u00f5es e departamentos individuais parece-me quase inexistente.&#8221;&nbsp;<\/p><cite>Marijana Hamer\u0161ak<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n<\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Balkans_Croatia_Marijana-Hamersak-1536x864-1-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21501\" srcset=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Balkans_Croatia_Marijana-Hamersak-1536x864-1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Balkans_Croatia_Marijana-Hamersak-1536x864-1-360x203.jpg 360w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Balkans_Croatia_Marijana-Hamersak-1536x864-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Balkans_Croatia_Marijana-Hamersak-1536x864-1.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Marijana Hamer\u0161ak, ativista e respons\u00e1vel pelo projeto &#8220;Regime Europeu de Migra\u00e7\u00e3o Irregular na Periferia da UE&#8221; do Instituto de Etnologia e Investiga\u00e7\u00e3o Folcl\u00f3rica de Zagreb. Foto: Tina Xu<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>&#8220;Num caso, levei mais de dois meses e dezenas de telefonemas e e-mails para diferentes endere\u00e7os, delegacias, departamentos de pol\u00edcia, hospitais e o escrit\u00f3rio do procurador do estado, apenas para solicitar o in\u00edcio da identifica\u00e7\u00e3o, que at\u00e9 hoje, mais de um ano depois, que, at\u00e9 hoje, mais de um ano depois, ainda n\u00e3o foi conclu\u00edda&#8221;, diz Marijana Hamer\u0161ak, ativista e respons\u00e1vel pelo projeto &#8220;<em>Regime Europeu de Migra\u00e7\u00e3o Irregular na Periferia da UE<\/em>&#8221; do Instituto de Etnologia e Investiga\u00e7\u00e3o Folcl\u00f3rica de Zagreb, que recolhe conhecimentos e dados sobre migrantes desaparecidos e mortos.<\/p>\n\n\n\n<p>As buscas de migrantes desaparecidos e as tentativas de identifica\u00e7\u00e3o dos mortos na Cro\u00e1cia, bem como na vizinha B\u00f3snia-Herzegovina, dependem muitas vezes dos esfor\u00e7os de volunt\u00e1rios e activistas que, como Marijana, procuram incansavelmente informa\u00e7\u00f5es na administra\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica, porque as fam\u00edlias que n\u00e3o conhecem a l\u00edngua consideram esta tarefa praticamente intranspon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">&#8220;Morra ou realize seu sonho&#8221;<\/h4>\n\n\n\n<p>O grupo do Facebook &#8220;Mortos e desaparecidos nos Balc\u00e3s&#8221; tornou-se o local central para a troca de fotos e informa\u00e7\u00f5es sobre os desaparecidos e os mortos entre fam\u00edlias e activistas.<\/p>\n\n\n\n<p>O Minist\u00e9rio do Interior competente n\u00e3o disp\u00f5e de um s\u00edtio Web em ingl\u00eas com um endere\u00e7o onde se possa escrever do Afeganist\u00e3o ou da S\u00edria e perguntar pelo destino dos entes queridos, deixar informa\u00e7\u00f5es sobre eles e comunicar o seu desaparecimento. Tamb\u00e9m n\u00e3o existe uma base de dados regional sobre migrantes desaparecidos e mortos com a qual as administra\u00e7\u00f5es policiais possam cooperar, nem mesmo as dos pa\u00edses onde se regista o maior n\u00famero de travessias &#8211; da B\u00f3snia-Herzegovina \u00e0 Cro\u00e1cia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista \u00e0 nossa equipa, Dunja Mijatovi\u0107, Comiss\u00e1rio para os Direitos Humanos do Conselho da Europa, sublinhou que a cria\u00e7\u00e3o de uma base de dados europeia centralizada de migrantes desaparecidos e mortos \u00e9 extremamente importante. Se essa base de dados combinasse dados ante-mortem e post-mortem sobre os falecidos, as hip\u00f3teses de identifica\u00e7\u00e3o aumentariam muito.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><em>&#8220;As fam\u00edlias t\u00eam o direito de saber a verdade sobre o destino dos seus entes queridos.&#8221;<\/em><\/p><cite>Dunja Mijatovi\u0107, Comiss\u00e1rio do Conselho da Europa para os Direitos Humanos<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>No entanto, a coopera\u00e7\u00e3o policial para manter a fronteira externa da UE imperme\u00e1vel \u00e9 eficaz.<\/p>\n\n\n\n<p>Anteriormente, as pessoas que tentavam emigrar n\u00e3o tentavam atravessar o Sava com tanta frequ\u00eancia. Sabiam que era demasiado perigoso. Partilham informa\u00e7\u00f5es umas com as outras e n\u00e3o se aventuram a atravessar um rio destes em barcos insufl\u00e1veis para crian\u00e7as ou em c\u00e2maras de ar. A menos que estejam completamente desesperados. Com as reten\u00e7\u00f5es e o uso da for\u00e7a, para os quais muitas organiza\u00e7\u00f5es como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch t\u00eam vindo a alertar h\u00e1 anos, a pol\u00edcia croata dificultou a travessia noutros pontos menos perigosos ao longo da fronteira croata, que \u00e9 a mais longa fronteira terrestre externa da Uni\u00e3o Europeia. Como nos disse um jovem marroquino na B\u00f3snia-Herzegovina que tentou atravessar a fronteira com a Cro\u00e1cia 11 vezes, mas foi empurrado pela pol\u00edcia croata de cada vez: &#8220;Tens duas op\u00e7\u00f5es: morrer ou realizar o teu sonho.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil determinar quantos morreram na Rota dos Balc\u00e3s na tentativa de realizar o seu sonho. Os dados mais completos relativos aos pa\u00edses da ex-Jugosl\u00e1via s\u00e3o recolhidos pelos investigadores do projeto &#8220;<em>Regime Europeu de Migra\u00e7\u00e3o Irregular na Periferia da UE (ERIM)<\/em>&#8220;. Regista 346 v\u00edtimas de 2014 a 2023 na Cro\u00e1cia, B\u00f3snia e Herzegovina, S\u00e9rvia, Eslov\u00e9nia, Maced\u00f3nia do Norte e Kosovo. Cada entrada na base de dados do ERIM \u00e9 individual e cont\u00e9m tantos dados quanto os investigadores conseguiram recolher, utilizando todas as fontes dispon\u00edveis &#8211; relat\u00f3rios dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, testemunhas, estat\u00edsticas oficiais, canais de activistas. Mas o n\u00famero \u00e9 certamente muito mais elevado. Alguns dos desaparecidos nunca foram registados em lado nenhum.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos corpos nunca foram encontrados. Por exemplo, outro ponto comum de passagem da fronteira, a cordilheira de Stara Planina, entre a Bulg\u00e1ria e a S\u00e9rvia, \u00e9 um terreno acidentado e inacess\u00edvel. S\u00f3 aqueles que foram levados para esta rota pelo mesmo destino encontrar\u00e3o os corpos, e n\u00e3o se arriscar\u00e3o a encontrar as autoridades para o denunciar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><em>Se as pessoas morrerem nos campos minados que restaram das guerras na Cro\u00e1cia e na B\u00f3snia-Herzegovina, n\u00e3o restar\u00e1 muito dos seus corpos. A maioria dos corpos foi encontrada afogada nos rios, mas n\u00e3o h\u00e1 estimativa de quantos se afogaram, nunca foram dados como desaparecidos ou nunca foram encontrados.<\/em><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>O Minist\u00e9rio do Interior croata forneceu-nos dados sobre os migrantes que morreram na Cro\u00e1cia desde 2015, quando os registos come\u00e7aram a ser mantidos, at\u00e9 ao final de novembro de 2023: de acordo com os dados, um total de 87 migrantes morreram no territ\u00f3rio da Rep\u00fablica da Cro\u00e1cia. Para ser mais exato: foi esse o n\u00famero de corpos encontrados na Cro\u00e1cia. Nenhum organismo oficial da Cro\u00e1cia, da B\u00f3snia-Herzegovina e da S\u00e9rvia mant\u00e9m registos de migrantes enterrados nesse territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, conseguimos obter dados relativos \u00e0 Cro\u00e1cia, gra\u00e7as a inqu\u00e9ritos enviados a mais de 500 endere\u00e7os de cidades, munic\u00edpios e empresas municipais que gerem cemit\u00e9rios. De acordo com os dados obtidos, existem 59 sepulturas de migrantes em 32 cemit\u00e9rios na Cro\u00e1cia que foram enterrados na \u00faltima d\u00e9cada, nomeadamente de 2014 at\u00e9 setembro de 2023. Destas, 45 n\u00e3o foram identificadas. O Minist\u00e9rio do Interior afirma que, desde 2001, foram recolhidas amostras de ADN de todos os corpos n\u00e3o identificados. Pedimos ao Minist\u00e9rio que nos permitisse falar com peritos que trabalham na identifica\u00e7\u00e3o de migrantes, mas n\u00e3o fomos aprovados.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns dos inumados foram exumados e devolvidos \u00e0s suas fam\u00edlias no pa\u00eds de origem, embora este seja um processo exigente e extremamente dispendioso para as fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">O fardo de n\u00e3o saber<\/h4>\n\n\n\n<p>Entre as sepulturas NN est\u00e1 um beb\u00e9 nado-morto da S\u00edria enterrado em 2015 na cidade de Slavonski Brod. Uma menina de cinco anos que se afogou no Dan\u00fabio foi enterrada em Dalje em 2021. No ver\u00e3o passado, um jovem morreu de exaust\u00e3o nas terras altas da regi\u00e3o de Dubrovnik. Alguns foram atropelados por um comboio. Muitos morreram de hipotermia. Alguns morrem porque n\u00e3o receberam ajuda m\u00e9dica suficientemente cedo. Alguns n\u00e3o acreditam que nada os possa ajudar, por isso suicidaram-se.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a lei, s\u00e3o enterrados o mais pr\u00f3ximo do local da morte, que s\u00e3o maioritariamente pequenos cemit\u00e9rios, como o de Si\u010de. Muitas vezes, tal como nessa aldeia, as suas campas est\u00e3o separadas do resto do cemit\u00e9rio. Nalguns lugares, como em Otok, uma das mulheres locais, de cora\u00e7\u00e3o terno, encarregou-se de cuidar da sepultura dos NN. Noutros, como no cemit\u00e9rio de Prili\u0161\u0107e, a cruz de madeira da NN de 2019 j\u00e1 apodreceu.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><em>Cada um desses t\u00famulos NN deixa para tr\u00e1s entes queridos que carregam o fardo de n\u00e3o saber o que aconteceu. Em psicologia, isto chama-se perda amb\u00edgua, o que significa que enquanto os familiares n\u00e3o tiverem a confirma\u00e7\u00e3o de que os seus entes queridos est\u00e3o mortos, e enquanto n\u00e3o souberem onde est\u00e3o os seus corpos, n\u00e3o os podem chorar.<\/em><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Se continuam com as suas vidas, sentem-se culpados. E assim permanecem congeladas num estado entre o desespero e a esperan\u00e7a. A psic\u00f3loga americana Dra. Pauline Boss \u00e9 a autora do conceito e da teoria da &#8220;perda amb\u00edgua&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Uma campa \u00e9 t\u00e3o importante porque ajuda a dizer adeus&#8221;, disse ela numa entrevista para a nossa investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 consequ\u00eancias pr\u00e1ticas deste estado de congelamento: os direitos sucess\u00f3rios n\u00e3o podem ser realizados, n\u00e3o se pode aceder \u00e0s contas banc\u00e1rias, n\u00e3o se podem obter pens\u00f5es familiares, o companheiro n\u00e3o pode voltar a casar e a guarda dos filhos \u00e9 complicada.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas fam\u00edlias na Cro\u00e1cia e na B\u00f3snia e Herzegovina conhecem muito bem a perda amb\u00edgua. Ambos os pa\u00edses passaram por uma guerra na d\u00e9cada de 1990 que deixou milhares de pessoas desaparecidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois pa\u00edses t\u00eam leis especiais sobre os desaparecidos nessas guerras e mecanismos bem desenvolvidos de busca, identifica\u00e7\u00e3o, armazenamento de dados e coopera\u00e7\u00e3o m\u00fatua. Mas isso n\u00e3o se aplica aos migrantes que desaparecem e morrem entre os milhares que se deslocam ao longo da Rota dos Balc\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Cro\u00e1cia respons\u00e1vel pela morte de uma crian\u00e7a<\/h4>\n\n\n\n<p>A Cro\u00e1cia tornou-se um importante ponto de entrada na Uni\u00e3o Europeia depois de a Hungria ter fechado as suas fronteiras em setembro de 2015. Desde ent\u00e3o e at\u00e9 mar\u00e7o de 2016, estima-se que cerca de 660 000 refugiados passaram pela sec\u00e7\u00e3o croata do corredor dos Balc\u00e3s &#8211; a rota interestatal e organizada. Este corredor permitiu-lhes chegar da Gr\u00e9cia \u00e0 Europa Ocidental em dois ou tr\u00eas dias. O mais importante \u00e9 que a sua viagem foi segura.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Destas centenas de milhares de pessoas em movimento, o Minist\u00e9rio do Interior croata n\u00e3o registou uma \u00fanica morte em 2015 e 2016.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O corredor foi criado para evitar v\u00edtimas, depois de um grande n\u00famero de refugiados ter morrido na linha f\u00e9rrea na Maced\u00f3nia, na primavera de 2015. No entanto, com a conclus\u00e3o do acordo UE-Turquia sobre os refugiados, em mar\u00e7o de 2016, o corredor foi encerrado. A UE comprometeu-se a financiar generosamente a Turquia para manter os refugiados no seu territ\u00f3rio, de modo a que estes n\u00e3o cheguem \u00e0 Uni\u00e3o Europeia. Assim, a perigosa e informal Rota dos Balc\u00e3s continua a ser a \u00fanica op\u00e7\u00e3o. Muitos optam por ela. S\u00f3 nos primeiros dez meses de 2023, a pol\u00edcia croata registou 62 452 a\u00e7\u00f5es relacionadas com a passagem ilegal de fronteiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto a Provedora de Justi\u00e7a croata&nbsp;<em>Tena<\/em>&nbsp;\u0160imonovi\u0107 Einwalter como a Comiss\u00e1ria para os Direitos Humanos do Conselho da Europa, Dunja Mijatovi\u0107, alertam para a mesma coisa: as pol\u00edticas de fronteira e de migra\u00e7\u00e3o t\u00eam um impacto claro no risco de os migrantes desaparecerem ou morrerem. \u00c9 necess\u00e1rio estabelecer rotas de migra\u00e7\u00e3o legais e seguras na UE.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a UE espera que a Cro\u00e1cia proteja a sua fronteira externa, e a Cro\u00e1cia est\u00e1 a faz\u00ea-lo de todo o cora\u00e7\u00e3o. O Ministro do Interior croata, Davor Bo\u017einovi\u0107, chama a essas pr\u00e1ticas &#8220;t\u00e9cnicas de desencorajamento&#8221; e diz que est\u00e3o totalmente de acordo com o C\u00f3digo de Fronteiras Schengen da UE.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado de tais pr\u00e1ticas \u00e9, por exemplo, a morte de Madina Hussiny. A menina de seis anos do Afeganist\u00e3o foi atropelada por um comboio e morta depois de a pol\u00edcia croata a ter &#8220;desencorajado&#8221;, a ela e \u00e0 sua fam\u00edlia, a afastarem-se da fronteira croata e lhes ter dito para seguirem os carris do comboio de volta \u00e0 S\u00e9rvia, a meio da noite, em 2017. O&nbsp;<a href=\"https:\/\/hudoc.echr.coe.int\/eng#{%22itemid%22:[%22001-213213%22]}\">Tribunal Europeu dos Direitos Humanos decidiu<\/a>&nbsp;em novembro de 2021 que a Cro\u00e1cia era respons\u00e1vel pela morte de Madina.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"574\" src=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Madinas-grave-in-Sid-1-1536x861-1-1024x574.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21518\" srcset=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Madinas-grave-in-Sid-1-1536x861-1-1024x574.jpg 1024w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Madinas-grave-in-Sid-1-1536x861-1-360x202.jpg 360w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Madinas-grave-in-Sid-1-1536x861-1-768x431.jpg 768w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Madinas-grave-in-Sid-1-1536x861-1.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>T\u00famulo da menina afeg\u00e3 Madina, de seis anos, que foi morta por um comboio depois de a pol\u00edcia croata a ter afastado, juntamente com a sua fam\u00edlia, da fronteira croata e lhes ter dito para seguirem os carris do comboio de regresso \u00e0 S\u00e9rvia, a meio da noite. Foto: Tina Xu<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Num t\u00edpico &#8220;desencorajamento&#8221;, a pol\u00edcia croata transporta as pessoas para pontos ao longo da fronteira e ordena-lhes que atravessem. Nos testemunhos que ouvimos, bem como em muitos relat\u00f3rios de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, as pessoas descrevem que t\u00eam de atravessar rios a vau ou a nado, trepar rochas ou abrir caminho atrav\u00e9s de florestas densas. Muitas vezes atravessam \u00e0 noite, por vezes despidas, e sem saber o caminho porque a pol\u00edcia costuma tirar-lhes os telem\u00f3veis.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><em>At\u00e9 80% de todas as expuls\u00f5es pela pol\u00edcia croata podem ser afectadas por uma ou mais formas de viol\u00eancia, indicam os dados recolhidos pela Rede de Monitoriza\u00e7\u00e3o da Viol\u00eancia nas Fronteiras em 2019. Isto significa que milhares de pessoas foram v\u00edtimas de viol\u00eancia nas fronteiras.<\/em><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>De acordo com os dados recolhidos pelo Conselho Dinamarqu\u00eas para os Refugiados, no per\u00edodo de dois anos entre o in\u00edcio de 2020 e o final de 2022, pelo menos 30.000 pessoas foram empurradas de volta para a B\u00f3snia-Herzegovina.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">&#8220;Enquanto tentavam chegar \u00e0 Europa&#8221;<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-peertube wp-block-embed-peertube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" title=\"&quot;Go in this place, you will find your cousin&quot;: Border Graves Investigation\" width=\"500\" height=\"315\" src=\"https:\/\/displayeurope.video\/videos\/embed\/65d6150a-70c5-4dec-9583-05505aa903fa#?secret=8a9iLhi4sb\" data-secret=\"8a9iLhi4sb\" frameborder=\"0\"><\/iframe>\n<\/div><\/figura>\n\n\n\n<p>Entre eles est\u00e1 Arat Semiullah, do Afeganist\u00e3o. Em novembro de 2022, pretendia atravessar o rio Sava e entrar na Cro\u00e1cia vindo da B\u00f3snia. Tinha 20 anos de idade. Afogou-se e foi enterrado no cemit\u00e9rio ortodoxo de Banja Luka. A sua fam\u00edlia no Afeganist\u00e3o n\u00e3o sabia o que lhe tinha acontecido. Tinha enviado \u00e0 m\u00e3e uma selfie com um novo corte de cabelo por ter entrado na Uni\u00e3o Europeia e depois deixou de responder.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e implorou ao sobrinho Payman Sediqi, que vive na Alemanha, para tentar encontr\u00e1-lo. Payman entrou em contacto com o ativista Nihad Sulji\u0107, que ajuda voluntariamente as fam\u00edlias a descobrir o que aconteceu aos seus entes queridos na B\u00f3snia-Herzegovina. Passaram semanas a tentar obter informa\u00e7\u00f5es. Payman viajou at\u00e9 \u00e0 B\u00f3snia e conseguiu encontrar o seu familiar gra\u00e7as \u00e0 ajuda de uma mulher pol\u00edcia que lhe mostrou fotografias forenses. A m\u00e3e de Arat confirmou por telefone que se tratava do seu filho.<\/p>\n\n\n\n<p>O obitu\u00e1rio de Arat, publicado na B\u00f3snia-Herzegovina, dizia que &#8220;a pol\u00edcia croata afundou o barco com armas de fogo e ele afogou-se tragicamente&#8221;. Com a ajuda da comunidade mu\u00e7ulmana, e a pedido da fam\u00edlia, o seu corpo foi transferido para o cemit\u00e9rio mu\u00e7ulmano da aldeia de Kami\u010dani. A fam\u00edlia queria enterr\u00e1-lo no Afeganist\u00e3o, mas era demasiado caro e burocraticamente complicado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro de 2023, encontr\u00e1mo-nos com Nihad e Payman quando foi erguida uma grande l\u00e1pide para Arat. Diz: &#8220;Afogado no rio Sava enquanto tentava chegar \u00e0 Europa&#8221;. Payman contou-nos que Arat estava a atravessar o Sava com um grupo de outros que tentavam entrar na Europa. Alguns deles conseguiram passar para o lado croata, mas a pol\u00edcia croata disparou contra o barco de borracha em que Arat se encontrava. O barco afundou-se e Arat morreu afogado. Foi o que disse a Payman um sobrevivente que atravessou para a margem croata do Sava. Payman diz que a fam\u00edlia de Arat est\u00e1 a sofrer muito, mas pelo menos sabem onde est\u00e1 o seu filho e que foi enterrado de acordo com os seus costumes religiosos. Para Payman, \u00e9 importante que a campa do seu familiar indique que ele morreu como migrante.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"574\" src=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Payman-at-the-cusins-grave-in-Kamicani-1536x861-1-1024x574.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21535\" srcset=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Payman-at-the-cusins-grave-in-Kamicani-1536x861-1-1024x574.jpg 1024w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Payman-at-the-cusins-grave-in-Kamicani-1536x861-1-360x202.jpg 360w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Payman-at-the-cusins-grave-in-Kamicani-1536x861-1-768x431.jpg 768w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Payman-at-the-cusins-grave-in-Kamicani-1536x861-1.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Na sepultura de Arat Semiullah, na B\u00f3snia, est\u00e1 escrito que ele se afogou quando tentava chegar \u00e0 Europa. Foto: Tina Xu<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p><em>&#8220;Todos os dias morrem pessoas na Europa, fugindo de pa\u00edses onde n\u00e3o h\u00e1 vida para elas. Os seus sonhos est\u00e3o enterrados na Europa. Ningu\u00e9m se preocupa com elas, nem mesmo quando os pol\u00edcias europeus disparam contra elas&#8221;, diz Payman.<\/em><\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Payman sabe de que tipo de sonhos est\u00e1 a falar. Ele pr\u00f3prio veio para a Alemanha ilegalmente aos 16 anos. Diz que teve sorte.\n\n\n\n<p>Nihad defende que outras sepulturas de imigrantes na B\u00f3snia-Herzegovina tamb\u00e9m sejam marcadas permanentemente como tal. Leva-nos ao cemit\u00e9rio da cidade de Zvornik, onde est\u00e3o enterrados 17 imigrantes NN. Nihad diz ter sido informado de que alguns deles tinham o passaporte consigo quando foram encontrados. Do cemit\u00e9rio, avista-se o rio Drina, que separa a S\u00e9rvia da B\u00f3snia e onde se perderam muitas vidas durante as tentativas de travessia. S\u00f3 este ano, foram encontrados cerca de 30 corpos no Drina. Nihad diz que t\u00eam sorte se derem \u00e0 costa nas margens do rio b\u00f3snio, porque na S\u00e9rvia as autoridades muitas vezes n\u00e3o efectuam aut\u00f3psias nem recolhem amostras de ADN. Isto foi-nos confirmado por activistas da S\u00e9rvia. Nesses casos, perdem-se para sempre e completamente para as suas fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"593\" src=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cemetery-in-town-of-Zvornik-in-Bosnia-1536x890-1-1024x593.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21552\" srcset=\"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cemetery-in-town-of-Zvornik-in-Bosnia-1536x890-1-1024x593.jpg 1024w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cemetery-in-town-of-Zvornik-in-Bosnia-1536x890-1-360x209.jpg 360w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cemetery-in-town-of-Zvornik-in-Bosnia-1536x890-1-768x445.jpg 768w, https:\/\/archive.displayeurope.eu\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Cemetery-in-town-of-Zvornik-in-Bosnia-1536x890-1.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>As sepulturas dos NN na cidade b\u00f3snia de Zvornik est\u00e3o cobertas de vegeta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o est\u00e3o demarcadas, pelo que n\u00e3o se sabe se se est\u00e1 a pisar nelas. Foto: Tina Xu<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>As sepulturas NN de terra em Zvornik est\u00e3o cobertas de vegeta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o est\u00e3o demarcadas, por isso n\u00e3o se sabe se se est\u00e1 a pisar nelas. Nihad conseguiu convencer a cidade de Zvornik a substituir os sinais de madeira por pedra preta. Para ele, \u00e9 importante que sejam enterrados com dignidade, mas tamb\u00e9m acha importante que fiquem ali como um memorial.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O meu desejo \u00e9 que, mesmo daqui a 100 anos, estas sepulturas sejam monumentos da vergonha da UE. Porque n\u00e3o foi o rio que matou estas pessoas, mas sim o regime de fronteiras da UE&#8221;, diz Nihad.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>&#8220;Este artigo faz parte da investiga\u00e7\u00e3o 1000 Vidas, 0 Nomes:  Border Graves investigation, how the EU is failing migrants&#8217; last rights&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><em>Ilustra\u00e7\u00e3o por <\/em><strong><em>Antoine Bouraly<\/em> <\/strong>\/ <em>Editado por <strong>Tina Lee<\/strong><\/em> \/ <em>Fotos por <strong>Tina Xu<\/strong><\/em><\/em><\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Sobre a autora:<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p><strong>Barbara Matej\u010di\u0107<\/strong>&nbsp;\u00e9 uma jornalista freelancer croata premiada e escritora de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o focada em assuntos sociais e direitos humanos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre empurr\u00f5es e torturas, muitas das v\u00edtimas da trai\u00e7oeira rota dos Balc\u00e3s s\u00e3o sepultadas em cemit\u00e9rios croatas e b\u00f3snios, num local an\u00f3nimo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21460,"parent":0,"template":"","tags":[],"displeu_category":[],"class_list":["post-35150","article","type-article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/article\/35150","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/article"}],"about":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21460"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35150"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35150"},{"taxonomy":"displeu_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/displeu_category?post=35150"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}