{"id":36693,"date":"2024-02-07T14:05:24","date_gmt":"2024-02-07T13:05:24","guid":{"rendered":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/?post_type=article&#038;p=36693"},"modified":"2024-09-06T16:40:03","modified_gmt":"2024-09-06T14:40:03","slug":"feminismo-com-um-sorriso","status":"publish","type":"article","link":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/article\/feminismo-com-um-sorriso\/","title":{"rendered":"Feminismo com um sorriso"},"content":{"rendered":"\n<p>Em mem\u00f3ria de Nada Ler Sofroni\u0107, a voz feminista fundamental no apoio a uma vis\u00e3o unificada da B\u00f3snia-Herzegovina, recorrendo a experi\u00eancias valiosas como intelectual, cujo compromisso era com toda a Jugosl\u00e1via e n\u00e3o s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sei que <em>\u017dute dunje<\/em>&nbsp;era uma delas, mas o resto das can\u00e7\u00f5es desvaneceram-se da mem\u00f3ria, deixando apenas uma sensa\u00e7\u00e3o de calor e melancolia. Nada Ler tinha uma voz bonita e cheia de alma, perfeita para cantar o tradicional &#8220;Bosnian&nbsp;<em>sevdalinke<\/em>&nbsp;que a sua colega feminista&nbsp;<em>drugarice<\/em>&nbsp;pediu naquela noite, num restaurante de Budapeste, em outubro de 1999. Nada estava l\u00e1 como parte de um grupo de feministas dos estados sucessores da Jugosl\u00e1via, muitas das quais tinham estado com ela naquela confer\u00eancia feminista internacional fundamental em Belgrado&nbsp;<em>Drug-ca<\/em>&nbsp;em 1978.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1vamos reunidas para um encontro da Rede de Mulheres em Zonas de Conflito, que juntava acad\u00e9micas e activistas do Sri Lanka e da ex-Jugosl\u00e1via com acad\u00e9micas da Universidade de York, Canad\u00e1, e outras institui\u00e7\u00f5es, todas interessadas no papel das feministas na cr\u00edtica e no envolvimento com os conflitos armados e as suas consequ\u00eancias.<a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/feminism-with-a-smile\/#footnote-1\">1<\/a>&nbsp;A reuni\u00e3o tinha sido planeada para o ver\u00e3o de 1999 em Sarajevo, na sequ\u00eancia de um encontro anterior no Sri Lanka, mas foi transferida para Budapeste devido ao bombardeamento da S\u00e9rvia pela NATO nessa primavera. Nessa altura, eu vivia na B\u00f3snia e estava a fazer a minha tese de doutoramento sobre o ativismo e o nacionalismo das mulheres depois da guerra. Quando as pessoas de Belgrado, Zagreb e de outros locais da antiga Jugosl\u00e1via se juntaram a Nada e a Du\u0161ka Andri\u0107, outra feminista b\u00f3snia com uma bela voz, na can\u00e7\u00e3o, o lamento emocional assumiu um peso extra &#8211; lamentando as perdas da guerra e a destrui\u00e7\u00e3o do Estado que outrora tinham partilhado.<\/p>\n\n\n\n<p>A reflex\u00e3o de Nada sobre o passado pr\u00e9-guerra da B\u00f3snia-Herzegovina, ou BiH, em termos feministas foi fundamental, mesmo que, como ela sublinhou, n\u00e3o fizesse sentido considerar a BiH isoladamente. Era tudo um s\u00f3 pa\u00eds. A Jugosl\u00e1via era demasiado restritiva &#8211;&nbsp;<em>tijesno<\/em>&nbsp;&#8211; para o seu esp\u00edrito n\u00f3mada, dizia ela. No in\u00edcio da minha investiga\u00e7\u00e3o, v\u00e1rias pessoas disseram-me que ela era a \u00fanica feminista na B\u00f3snia antes da guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a conheci, ela tinha acabado de regressar do ensino de Estudos de G\u00e9nero na CEU, Budapeste, (a minha futura institui\u00e7\u00e3o, sem que eu soubesse na altura) e tinha acabado de come\u00e7ar a trabalhar para a Funda\u00e7\u00e3o Soros nos seus programas de g\u00e9nero. Depois de ter lutado para explicar a minha investiga\u00e7\u00e3o de forma a que as pessoas a compreendessem, falar com a Nada foi um enorme al\u00edvio. Ela conhecia as cr\u00edticas acad\u00e9micas com que eu estava a trabalhar e percebeu imediatamente de onde vinham as minhas quest\u00f5es sobre a rela\u00e7\u00e3o entre g\u00e9nero e na\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 que eram importantes, quais eram os desafios. Tivemos muitas conversas longas e animadas, nas quais tentei perceber o que tinha sido para ela ser uma acad\u00e9mica feminista em Sarajevo antes da guerra. Tamb\u00e9m me fez perguntas tipo entrevista sobre o que diziam as outras mulheres activistas com quem eu estava a falar, demonstrando a sua curiosidade e energia infinitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de ter perdido o seu cargo na universidade quando fugiu de Sarajevo durante a guerra, Nada dedicou-se a v\u00e1rios tipos de trabalho de defesa das ONG no final da d\u00e9cada de 1990 e na d\u00e9cada de 2000, lan\u00e7ando finalmente a sua pr\u00f3pria ONG, a que deu o nome do coletivo feminista da era jugoslava&nbsp;<em>\u017dene i dru\u0161tvo<\/em>&nbsp;(mulheres e sociedade). Dirigiu-se a muitas reuni\u00f5es de activistas com as suas cr\u00edticas claras e convincentes ao poder, aperfei\u00e7oadas ao longo de anos de escrita e ensino no per\u00edodo socialista, mas adaptadas a novas circunst\u00e2ncias e vocabul\u00e1rios. Gostava de partir da antropologia e da constata\u00e7\u00e3o de que o g\u00e9nero tinha sido a primeira base de divis\u00e3o do poder na sociedade humana, muito antes do advento do capitalismo e da exist\u00eancia do proletariado. O poder foi sempre central para o seu ponto de vista: ela teve o cuidado de enfatizar que o feminismo n\u00e3o defendia o &#8220;poder sobre&#8221;, mas uma diminui\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as de poder.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres activistas deixaram claro que o feminismo jugoslavo n\u00e3o era bem conhecido na B\u00f3snia e Herzegovina antes da guerra. Algumas das mulheres mais velhas tinham lido artigos feministas nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, incluindo os escritos de Nada, mas o ativismo tinha acontecido longe, em Belgrado, Zagreb ou Ljubljana. Nada orgulhava-se do facto de as alunas que ensinava terem aprendido a pensar de forma ampla e cr\u00edtica, mas n\u00e3o tinha sido capaz de orientar o seu ensino especificamente para abordagens feministas. Foi, por isso, significativo quando, em 2006, um grupo de jovens feministas envolvidas no festival Pitchwise dedicou um painel a revisitar o famoso encontro de 1978&nbsp;<em>Drug-ca<\/em>&nbsp;. Nada foi, naturalmente, uma das principais participantes originais do painel (juntamente com Dunja Bla\u017eevi\u0107 e Vesna Pusi\u0107). Estava visivelmente orgulhosa da sua fotografia a preto e branco desses dias, que decorava a exposi\u00e7\u00e3o sobre o evento. Nela, era evidentemente mais jovem, mas a inclina\u00e7\u00e3o da cabe\u00e7a e o sorriso inteligente eram os mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p id=\"caption-attachment-30597\">Era pelo seu sorriso que ela era conhecida, e voltou a exibi-lo quando me contou como alguns camaradas do Partido, antes da guerra, tinham chamado \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o &#8220;feminismo com um sorriso&#8221;. Contou-me que sempre se tinha agarrado \u00e0 linguagem acad\u00e9mica, criticando a sociedade jugoslava a partir do marxismo, o que provavelmente lhe permitia continuar o seu trabalho. Mesmo assim, era suspeita para as autoridades. Tive a sensa\u00e7\u00e3o de que ela tinha uma forma cautelosa e astuta de lidar com os camaradas do Partido, especialmente depois de um encontro com um homem mais velho, quando est\u00e1vamos a tomar caf\u00e9 juntos no complexo de Sarajevo. Ele passou pela nossa mesa para dizer a Nada que ela &#8220;ainda era bonita&#8221;, chamando-lhe a sua antiga amante (<em>ljubavnica<\/em>). Sorrindo, ela corrigiu-o: &#8220;amor&#8221; (<em>ljubav<\/em>). Sim&#8221;, disse ele, &#8220;era s\u00f3 nos meus sonhos&#8221;. Quando ele se foi embora, Nada contou-me, divertida, como tinha sido enviada uma vez pela pol\u00edcia interna, durante um per\u00edodo pol\u00edtico tenso, no in\u00edcio dos anos 80, para descobrir se este feminismo era algo perigoso. Ela convenceu-o de que continuava a ser uma marxista devota, mas ele tamb\u00e9m parece ter-se apaixonado por ela e levou-lhe flores em v\u00e1rias ocasi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua maneira recatada e sedutora de colocar este homem no seu lugar, ao mesmo tempo que continuava a ser admirada por ele, encaixava bem com o quadro que ela tinha pintado de como ela e as outras feministas jugoslavas tinham vivido o seu encontro com as feministas ocidentais durante a&nbsp;<em>Drug-ca<\/em>. Considerando-me demasiado jovem para me lembrar, ela descreveu com pormenores v\u00edvidos os estilos hippies e naturais das feministas estrangeiras que apareciam com sovacos peludos, cabelo por escovar e sem suti\u00e3s. Isto j\u00e1 era suficientemente chocante para as mulheres jugoslavas, mas o mais desconcertante era a insist\u00eancia das estrangeiras em espa\u00e7os s\u00f3 para mulheres. Nada e as suas companheiras n\u00e3o queriam excluir os homens. Tinham v\u00e1rios bons aliados e n\u00e3o tinham a vis\u00e3o de criar uma sociedade feminista sem homens. (Ela n\u00e3o mencionou como se sentiam as l\u00e9sbicas ou outras pessoas do grupo, e eu senti os contornos de algumas divis\u00f5es cl\u00e1ssicas entre as feministas, mas isso n\u00e3o fazia parte da sua narrativa.)<\/p>\n\n\n\n<p>A Sarajevo do p\u00f3s-guerra n\u00e3o era, em muitos aspectos, o elemento de Nada. Nada se ressentia com as novas expectativas de lealdade \u00e9tnico-nacional e com os marcadores de identidade, sobretudo enquanto ateia de origem judaica que n\u00e3o se enquadrava em nenhum dos grupos dominantes. A sua organiza\u00e7\u00e3o Mulheres e Sociedade n\u00e3o sobreviveu durante muito tempo ao jogo dos doadores e come\u00e7ou a passar mais tempo na costa croata, onde viria a reformar-se. Sinto-me afortunada por ter tido a oportunidade de ouvir as hist\u00f3rias de Nada e de participar em discuss\u00f5es com ela durante um per\u00edodo de forte contraste com a \u00e9poca em que se tinha estabelecido. As suas cr\u00edticas revelavam sempre a sua sensibilidade cr\u00edtica acad\u00e9mica, feminista e marxista, e eram sempre acompanhadas por aquele grande sorriso de uma alma calorosa e bondosa.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.eurozine.com\/feminism-with-a-smile\/#anchor-footnote-1\">1<\/a> <code>Veja os volumes publicados a partir desta rede: W. Giles, M. de Alwis, E. Klein, N. Silva e M. Korac, eds.&nbsp;<em>Feministas sob fogo: Exchanges across war zones<\/em>, Between the lines, 2003; W. Giles e J. Hyndman, eds.&nbsp;<em>Sites of violence: Gender and conflict zones<\/em>, Univ of California Press, 2004.<\/code><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em mem\u00f3ria de Nada Ler Sofroni\u0107, a voz feminista fundamental no apoio a uma vis\u00e3o unificada da B\u00f3snia-Herzegovina, com base em experi\u00eancias valiosas como intelectual, cujo compromisso era com toda a Jugosl\u00e1via e n\u00e3o s\u00f3.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":36519,"parent":0,"template":"","tags":[],"displeu_category":[],"class_list":["post-36693","article","type-article","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/article\/36693","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/article"}],"about":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/article"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36519"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36693"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36693"},{"taxonomy":"displeu_category","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.displayeurope.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/displeu_category?post=36693"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}